Criar dificuldade, vender facilidade

A melhor maneira de se manter as pessoas distantes da realidade é um tanto quanto óbvia: valorizar a ilusão, possuindo várias formas...


A melhor maneira de se manter as pessoas distantes da realidade é um tanto quanto óbvia: valorizar a ilusão, possuindo várias formas e ferramentas. Para questionarmos a realidade e realizarmos mudanças é necessário que saibamos o que é realidade, e onde nos encaixamos dentro dela. Mas nesse aspecto é que as coisas acabam saindo de seu sentido real.

Quanto mais estatística se faz da realidade, tanto mais distante do real. Acontecimentos factuais são substituídos por números, se tornam porcentagens, e no fim de tudo, perdem a relação direta com o mundo, na maioria das vezes. Por exemplo, se dissermos que todo brasileiro come um frango, e eu na verdade como quatro, existem três pessoas que nada comem, porém, segundo a estatística, todos comem um frango. A estatística pode também ser usada para tornar conceitos mais relativos, genéricos, e tornar certos temas mais comuns, quando na verdade não o são. Uma estatística atual diz que todo brasileiro possui em média dois cartões de crédito. Eu e minha mulher, por exemplo, não temos nenhum. Mas de certa forma, a estatística pode causar a impressão de que todos os brasileiros têm cartão de crédito, e mais, possuem mais de uma unidade por pessoa. Isto acaba se tornando comum, e dentro da oneomania (mania de comprar) contemporânea, sente-se em atraso aquele que não possui cartões, fora de seu tempo.

São tantas transformações feitas com a realidade, que perdemos a noção (bom senso) do que realmente significam. Nossas vidas são guiadas por “teatros” bem armados, onde os personagens principais são semelhantes: mudam-se alguns cenários, alteram-se minimamente os enredos, mas o restante continua igual. Principalmente no aspecto de objetivos. Basta raciocinarmos um pouco sobre cada “peça teatral” de nossa sociedade que veremos objetivos semelhantes por trás de cada uma delas.

Os acontecimentos que se tornam pautas de nosso dia-a-dia são muito análogos: não sei se pelo interesse de quem escreve, se pelo interesse de quem lê, ou talvez, pela falta de interesses de ambos. As narrativas de nossas histórias aproximam-se muito das narrativas dos filmes, onde os autores (que somos nós mesmos), perdem contato com o real, deixando para trás análises críticas, passando a produzir cenas “factóides” que criem impacto.

  

Nada mais definidor de nosso tempo do que a “sociedade do espetáculo”, descrita pela primeira vez em 1968 por um teórico francês, Guy Debord (foto). A tecnologia tornou-se mais importante do que a própria criação. O argumento científico tornou-se ditador do que é verdade ou não. A realidade esconde-se atrás de inúmeras cortinas confusas, onde números se amontoam com fontes, informações contradizem a realidade, palavras são armas de manipulação e o ambíguo torna-se a unidade da certeza.

A única maneira de se manter um sistema insustentável é fazer crer que este caos em que vivemos é a ordem, e esta ordem é a única viável, mesmo que seja mentira, mesmo esta dita ordem sendo o maior caos dos tempos.

O importante são as crenças: só vemos aquilo que cremos ver, e deste modo criamos nosso ambiente de realidade. A própria crença possui mais status que o pensamento hoje em dia. Qualquer raciocínio profundo ganha ares de chatice. Qualquer debate é motivo de afastamento. Educação? Manipulação? Tradição? O que nos faz assim?

A vida é contínua, e parece mesmo ser inesgotável. Os recursos hídricos são esgotáveis, assim como os alimentos, o oxigênio, o petróleo. Mas a vida é mesmo inesgotável. Sustentar um mundo insustentável é tarefa difícil: requer habilidade movida a interesses diversos.

A indústria da fama cria deformidades de todas as espécies: somos empurrados a crer nisto ou naquilo. Tempo é dinheiro, e por isso mesmo nos desacostumamos a pensar. Aparecer é mais importante do que ser. Parecer é mais importante do que ser. Todos querem registrar sua existência no mundo, e para tanto, vale tudo.

Num mundo onde o acesso nos foi facilitado ao extremo, o que nos falta é conhecimento. Não exatamente o acesso a ele, mas sim, a simples iniciativa de degustá-lo. São gerações massificadas por uma indústria que só visa o simples acúmulo de capital. Não importam as idéias, os conceitos e os pensamentos. Tudo está baseado na máxima do capitalismo: criar dificuldades para vender facilidades.







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