17/05/2008

Fast thinking, and now!


Nunca vi um mundo onde todos vivem sem tempo para nada. Cada vez mais a população lê menos periódicos, menos impressos, menos livros. Na faculdade, a juventude que mora com os pais, que por sinal pagam seus estudos, são as mesmas pessoas que pouco estudam ou produzem, não possuem hábito de leitura, não freqüentam museus e bibliotecas, e sempre reclamam da falta de tempo. Desconhecem e satirizavam velhos intelectuais, desconhecem a história de seu país, desconhecem política e muito carecem de cultura, mas certamente, todos vivem sem tempo.

Imagino que cheguem em casa, com suas refeições prontas, cama e roupas limpas, casa mais ou menos organizada, sem necessidade de preocupar-se com contas, salários, impostos, manutenção do carro, documentações, etc., e sempre perambulam sem tempo.

Atualmente, sinto que as pessoas julguem a leitura de longos livros uma espécie de “perda de tempo”, ou acusem como principal motivo de não leitura a “falta de tempo”. Esta percepção é absolutamente pessoal, baseada nas conversas que tenho e nas coisas que ouço.

Mas ao mesmo tempo, vejo esta juventude dizendo: “passei a noite no MSN”, ou então “já não assisto TV, só vejo vídeos no youtube”, e assim por diante. Nesta mesma internet em que escrevo, adquirimos o estranho hábito de olhar o tamanho do texto antes de iniciar a leitura, afinal de contas, vivemos sem tempo. Os jornais on-line já incorporaram a miudeza em suas notícias. Nada incomum eu começar a ler uma notícia interessante, e chegar ao fim cheio de questões na mente, questões que ficarão sem respostas, pois a matéria acabou, não disse tudo o que deveria, simplesmente para satisfazer este estranho pensamento de vivermos sem tempo.

FAST THINKING era o nome utilizado por Pierre Bourdieu, que significa o “rápido pensar”. Incorporamos o hábito do pensamento rápido, da leitura rápida, do tempo rápido: tudo tão rápido quanto superficial. Essa famosa expressão do “estou sem tempo pra nada” reflete-se no trânsito enlouquecido e desregrado, no analfabetismo funcional desta nação, na falta de estruturas de questionamento, pesquisa e investigação.

Certo dia, mostrei para alguns colegas o livro Casa-Grande & Senzala, para ilustrar minha leitura do momento. A reação foi de risos em geral, pelo tamanho do livro. Vivemos um FAST THINKING, um FAST FOOD, uma FAST LIFE.

Muito comum dizermos: “meu Deus, este ano passou tão rápido”... E não é de se admirar, pois vivemos num ritmo FAST, o tempo todo. Acostumamos-nos com este ritmo tão frenético, que muitas vezes somos incapazes de notar o nascimento de uma flor em nossa rua. Conversamos com nossos filhos avisando de início: “diga logo o que tem pra dizer, pois não tenho tempo”.

Nosso FAST THINKING cria resultados como a Escola Base, o Bar Bodega, o caso Nardoni, entre outros, pois nossa especialidade é o JULGAMENTO RÁPIDO.

O próprio mercado capitalista se beneficia em muito com este estilo de vida: “preciso comprar esta nova tecnologia agora”. Muitas vezes dizemos: “o que pensarão meus amigos se notarem este meu celular pré-histórico”. Tudo tem de ser para o AGORA. Semana que vem, estas novidades já serão quase antiguidades, e vocês estará por fora.

Até mesmo livros de auto-ajuda trazem títulos como “seja feliz agora”, e mesmo quando não estampam a palavra agora, trazem o conceito subentendido no imperativo do título: “Seja um líder” (agora).

Escrevo estas palavras na quase certeza de não ser lido, ou caso seja lido, não serei comentado, pois não se tem tempo de escrever comentários, elogios, críticas, nem nada. Não sei o que pretendemos com este hábito de rapidez e agora, mas sei que qualquer que seja nosso objetivo, este deve ser atingido agora, pois afinal, não temos tempo.

5 comentários:

  1. CORRE!!!!
    por que o tempo não pára não posso perder tempo aqui Amei teu texto e eu sou assim parabéns.



    Artistico, não?

    ResponderExcluir
  2. Não posso deixar de comentar, mt bom o texto, realmente é isso que acontece, mas será que todos nós não fomos assim um dia, e agora que o tempo passou estamos mais atentos para o próprio tempo? Grande abraço.

    ResponderExcluir
  3. Fala Marcelão, aqui estou eu.Irei postar o meu comentário, é o seguinte: nós jornalistas devemos optar em auxiliar na formação de cidadãos ou de meros consumidores. Graças, vejo que andas pelo caminho certo.

    Abraço!

    ResponderExcluir
  4. Esse é meu marido!!
    Maravilha por natureza!
    Vai Marcelo! Vai!

    ResponderExcluir
  5. O tempo de leitura nunca é desperdício, pois a imobilidade física e consumista é esmagada pela aventura do pensamento.

    ResponderExcluir

DEIXE SEU COMENTÁRIO. SUA VOZ É IMPORTANTE.