23/09/2008

A música que não se pode ouvir...


Brasileiro vive acostumado a uma série de chavões, até porque não acostumar-se pode significar não viver, em alguns casos. Clara ignorância assola as mentes mais gentis de nosso país, que feito bala perdida, atinge em cheio o cume de quem pensa, cria e gera cultura por aqui. Palavras são apenas palavras, e por ironia podem ser lidas e lindas, mas por fim, continuam sendo palavras. Mesmo as leis que regem um país, que determinam os direitos dos trabalhadores ou não, de todas as classes sociais humanas sendo escritas e determinadas por palavras, a verdade é que nem sempre elas são entendidas. Mas como culpar ou responsabilizar os filhos e netos de um MOBRAL herdado da ditadura, que por conseqüência, mas não só ele, dilacerou o sistema educacional de toda uma nação por mais de duas décadas? Será que existe recuperação para estes problemas?
Tenho um amigo, mestrando em Letras, que passou uma tarde num destes sites de escritores, onde você se cadastra e disponibiliza tuas obras. Sua reação não foi de se estranhar, quando se sentiu horrorizado ao ler o que os “poetas independentes” brasileiros chamam de poesia. A nítida falta de estudo ao utilizar-se de uma ferramenta que desconhece por completo é assustadora. Segundo suas próprias palavras: “as pessoas pensam que poesia é letra de música, qualquer coisa rimada com certa obviedade”. Mas poesias são palavras, e palavras não são compreendidas, mesmo quando lidas e lindas, porque somos uma nação de analfabetos funcionais. Anônimos até sabem escrever seus nomes, mas são incapazes de entender um texto completo, e quando é necessário comentar, utilizam qualquer chavão, até porque tem dificuldades em pensar.
Mas se poesia virou letra de música, então letra de música virou o quê? Parcas citações sobre um evento qualquer, ou simples preenchimento de melodias com sílabas? O nascimento evolutivo de toda poesia nacional parece ter pedido licença para sair, indo passear nos países de primeiro mundo. Poetas e letristas brasileiros que conheço, competentes e brilhantes, ou já morreram ou possuem mais de 60 anos. Não penso termos entrado numa crise repentina de criação, porque vejo isso como acefalia cultural brasileira. Discutir ou debater temas para gerar conhecimento pode tornar-se um verdadeiro sacrilégio, quando se depara com a clara falta de informação ou com a confusa noção do que é arte, ficção e realidade. Confusa não pelo que são, mas pela dificuldade de raciocínio que temos habitualmente.
Alguns críticos, educadores, artistas e produtores costumam dizer que todos nós temos responsabilidade pelos analfabetos funcionais e culturais, mas como colocar isso em questão entre pessoas que, em sua maioria também o são? Um outro conhecido meu diz: “temos que fazer a nossa parte, gerar cultura e conhecimento e não estranhar-se diante de qualquer desentendimento, porque sempre existirão”. Neste cenário aparentemente hostil e instável, onde a violência interrompe vidas, direitos humanos parecem defender desonestos, incultos falam de questões sociais, questões morais limitam-se ao incapacitado alcance de religiões, a AIDS continua se espalhando entre pessoas estudadas e possuidoras do acesso a informação, é que temos de perguntar: o que fiz para melhorar o mundo ao meu redor? Sejam ações culturais, sociais ou ambientais, temos de perguntar: quais são as minhas ações? Caso contrário, corremos o risco de ser nulos em atitudes e permanecer apenas nas palavras, e palavras podem ser lidas e lindas, mas continuarão sendo palavras.
(Texto escrito em dezembro de 2007, por Marcelo D'Amico)





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