07/10/2008

Entrevista exclusiva com Emerson Sitta


Emerson Sitta, professor do fundamental, médio e universitário, mestrando em Literatura pela PUC/SP, fala sobre o lançamento de “O melhor é sempre”, na Bienal de São Paulo, literatura brasileira e outros assuntos.
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Marcelo D'Amico – Como foi estar na Bienal como autor e não como leitor pela primeira vez?
Emerson Sitta – Uma experiência interessante. Senti-me entre os livros e o público leitor, senti-me um pouco responsável por esse elo entre livros e leitores.

Marcelo D'Amico – Como surgiu a idéia central para o livro? Como foi o processo de composição?
Emerson Sitta – A idéia era questionar o tempo, o maldito tempo que nunca temos. Resolvi escrever um livro de poesias que tivesse um tema, trata-se de uma forte influência de Cabral, optei então pelo tempo.
A proposição inicial era destruir aquela enfadonha frase que diz que temos que aproveitar tudo como se fosse o último dia de nossas vidas. Discordo totalmente dessa frase, para mim a manifestação humana, a atitude do homem, não pode estar condicionada a uma condição temporal. Todos os poemas estão envolvidos com essa questão, o melhor passa a ser sempre, pois há retorno, evidentemente que não teremos a mesma chance, a mesma pessoa, mas a oportunidade pode surgir outra vez.
Os poemas tentam mostrar essa realidade apontando que mesmo que haja perda, há possibilidade de retorno, de reaver e que também existe vida na dor. Estamos acostumados a entender que a dor é uma doença, algo que devemos evitar, não acredito que seja assim. Ela é um presente, uma experiência, um ensinamento. A dor é uma conclusão para muitas de nossas dúvidas.

Marcelo D'Amico – Três anos para compor o livro pode parecer um contra-senso num mundo que exige tudo com muita velocidade. Como você avalia esta questão?
Emerson Sitta – Todo autor deve encontrar seu tempo. Para mim foi esse o tempo. É preciso entender que a literatura não pode ser um instrumento de confissão, de transbordamento lírico. Literatura é linguagem, é fazer arte com a linguagem. Portanto, isso leva tempo, pois é necessário experimentar, definir, reavaliar, rever, fazer, refazer e refazer.

Marcelo D'Amico – Lecionar influencia sua composição, de alguma forma?
Emerson Sitta – Sim. Lecionar é um exercício que deveria ter mais valor na sociedade, especialmente em uma sociedade que deseja ser grande, elevada, até mesmo superior.
Quando lecionamos entramos em um processo que, para mim, é chave para o entendimento e a reflexão sobre o mundo. Primeiro estudamos o tema, a seguir definimos um ponto a ser destacado do tema, explanamos por meio da fala e ainda resolvemos dúvidas no entendimento. E a última etapa é escrever sobre o tema. Assim, teremos um processo de estudo exemplar.
Não sei dizer em qual das etapas aprendemos mais. Sei dizer sim que passando apenas por uma delas, não temos um bom domínio do tema a que nos propomos a estudar.
Quantas vezes eu achava que dominava um poema, quando partia para a explanação surpreendia-me com uma análise mais aprofundada que havia planejado em silêncio.

Marcelo D'Amico – E a relação entre internet e impressos (livros, jornais, etc)? Você crê que um exista em detrimento do outro, ou que todos podem conviver bem?
Emerson Sitta – É possível uma convivência harmônica. Acredito que vivemos num período de confusão de meios de informação. Logo teremos uma definição melhor da informação e do meio mais adequado de transmiti-la.

Marcelo D'Amico – O mundo contemporâneo idolatra a IMAGEM de muitas maneiras. Isto deveria trabalhar a favor da poesia concreta, por exemplo, que tem forte apelo visual. Mas vejo que a poesia é desvirtuada de sua essência em muitos casos, e que a poesia concreta é desconhecida dos brasileiros em sua maioria. Você concorda?
Emerson Sitta – Concordo. Mas não só a poesia concreta é desconhecida, mas qualquer grande autor nacional ou internacional. A poesia, infelizmente, não tem valor na sociedade, pois parece não ter utilidade e é sempre transmitida como um fenômeno mediúnico e essencialmente misterioso.

Marcelo D'Amico – Aos poetas amadores, que por ventura desejem ampliar sua expressão poética: que dicas pode oferecer? Livros e autores?
Emerson Sitta – Sugiro que leiam e discutam as duas vertentes da poesia: a poesia de construção e a poesia de intuição. É preciso conhecer a linha Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Drummond e Ferreira Gullar e também a linha Oswald de Andrade, João Cabral de Melo Neto e a Poesia Concreta (não apenas a dos irmãos Campos). É necessário também conhecer um pouco da crítica e teoria, não colocá-la em primeiro lugar, mas ler com interesse para esclarecer alguns pontos de entendimento nos poemas e suas relações com a vida social. A crítica não pode ser desprezada.

Marcelo D'Amico – Aos que desejam comprar o livro, como podem fazer?
Emerson Sitta – No site da editora, neste blog, no http://www.drliteratura.blogspot.com.br/ e também no meu blog http://www.emersonsitta.blog.uol.com.br/

Marcelo D'Amico – Obrigado pela entrevista. Espero que tenhamos um novo lançamento em breve.
Emerson Sitta – Em breve, não sei dizer se tão breve. Mas que tenho sim um livro para trabalhar, que já estou trabalhando. Mas deve demorar um tempo ainda.




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