27/11/2008

Desacordo Ortográfico


Emerson Sitta, professor de língua portuguesa, postou um artigo em seu blog questionando as regras de ortografia, pois, em muitas situações, a ortografia errada não impede o entendimento da mensagem. Neste caso, como devem agir os professores ensinando português e deparando-se com erros ortográficos um tanto quanto absurdos? Devemos ser impiedosos e primar pela ortografia formal ou perdoar alguns erros e priorizar a mensagem em si?

O debate ganhou força quando publiquei um vídeo aqui neste blog, cujo texto de apresentação traz diversos erros linguísticos, sem no entanto atrapalhar o entendimento da mensagem pretendida. O texto original era:

"Quando você ver um político vire as costa para ele, mas antes cuspa no chão de nojo. Não cumprimente de o seu despreso."

Por conta deste vídeo, recebi um e-mail de meu amigo professor:

"Você deve ter visto meu último texto no blog.

Pois agora me deparo com o mesmo problema.

No vídeo publicado no seu blog, muito bom, interessante, realmente um absurdo, temos que fazer alguma coisa, no entanto o texto inicial está absurdamente errado gramaticalmente.

O correto seria:

Quando vir um político, vire as costas para ele. Mas, antes cuspa no chão de nojo. Não cumprimente-o e dê a ele seu desprezo.

Mas a mensagem foi entendida.

Bom, qual sua opinião sobre isso?"
Diante desta questão e participando de um debate que creio ser importante, dei minha opinião. Mas somente agora resolvi publicar esta história no blog, pois devemos pensar a respeito. Minha resposta:

"Esse "lance" é complexo. Não sou Doutor em gramática, mas percebi alguns dos outros erros que você apontou. Mas pensei: se eu fizer uma lista de correções, perde-se o foco da mensagem do vídeo, que para mim era o principal, a priori. Mas o desprezo ao Z da palavra realmente me incomodou. Então, digitei DESPRESO no google e encontrei mais de 39.000 sites com este mesmo erro, desde letras de músicas, até poesias, artigos, etc. Pensei em publicar isto como um post no meu blog, porém, pensei que fazendo isso eu poderia estar humilhando uma pessoa humilde, que de repente possui poucos estudos, mas é capaz de indignar-se e veicular algo que os mais letrados calam. Então, a grande questão é: será que nossas escolas ensinam a escrever e ao mesmo tempo desensinam a pensar?

Por outro lado, particularmente, não sou radical em relação a gramática, sintaxe, etc. Acho que existem coisas absurdamente idiotas, como este novo acordo ortográfico entre países de língua portuguesa, realizado com a ajuda da Academia Brasileira de Letras, que entre seus membros constam: Marco Maciel, José Sarney, Ivo Pitanguy e Paulo Coelho. Minha pergunta é simples: estes quatro cidadãos tem poder partilhado de dizer como eu devo escrever? Se Augusto de Campos ou o Pignatari ou o Gilberto Freire ou o Sérgio de Hollanda me falasse: "escreva assim", eu nem questionaria.

Não devemos ser puritanos como alguns idiotas que querem abolir palavras da língua inglesa em nossa língua, ou qualquer outro tipo de puritanismo ou falsa moralidade travestida de conhecimento e sabedoria, por um simples motivo: a maior deturpação, o maior estupro, a maior violação, não ocorre na ortografia, mas sim na morfologia dos pensamentos, na sintaxe das verdades, distribuindo inverdades travestidas de todos os tipos e sob todos os pretextos. A publicidade estupra músicas brilhantes, recortando-as em mínimos pedaços que nada dizem (pois um livro não é uma página e vice-versa), associando-as a idéias imbecis e triviais de consuma, consuma e seja feliz. Deturpam o sentido das notícias nos jornais, diariamente, com a mais bela e perfeita ortografia, construída com muitas técnicas que aprendemos em universidades preocupadíssimas com sua mensalidade. Dilaceram a vida real nas telenovelas e "big brother's" da vida, deturpam valores e diluem conhecimentos de todos os gêneros até tal ponto, que tornou-se comum sentarmos e perguntarmos: "mas o que é mesmo arte? o que é mesmo poesia? isto é música? aquilo é literatura? vocês são políticos?"

A mensagem é a alma, a ortografia é a vestimenta. Sou partidário das almas, em todos os sentidos, gêneros e aspectos que se possa imaginar. Reconheço a importância da ortografia, que em certos casos chega a alterar o sentido das coisas, mas dou prioridade para as mensagens. Só o conhecimento é livre e pode libertar. Saber a verdade é mais importante que saber escrever, e talvez o DESPRESO escrito nos mostre muito mais erros do que somente o ortográfico."
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