15/11/2008

Entrevista: Guilherme Salla




Formado em Filosofia pela Unicamp, Professor, Poeta e Letrista, Guilherme Salla vive em Indaiatuba, interior do estado de São Paulo, e traz consigo, dentre outros, o prêmio em poesia no Mapa Cultural Paulista 2007/2008. Em seu blog, Miopia, possui uma controversa série de "Poesias Tabagistas" e em entrevista nos fala de literatura, ensino, arte, entre outros assuntos.

Comunica Tudo – Em primeiro lugar é um imenso prazer poder te entrevistar. Vamos começar pelo prêmio do Mapa Cultural Paulista com a poesia "Abandono do Lar". Para quem não é de São Paulo, explique a importância deste prêmio e depois conte-nos quais benefícios ou mudanças ele trouxe para você.

Guilherme Salla – Caro MAD (suas iniciais vêm bem a calhar), o prazer é todo meu! Figurar entre o rol de entrevistados deste blog é algo que me envaidece. Aliás, creio que a vaidade seja a única que lucrou com o prêmio do Mapa Cultural Paulista. O tal prêmio objetiva “mapear” a atividade artística, nas mais diversas modalidades culturais, no interior do estado, algo que realiza com êxito. O passo seguinte, isto é, o fomento e publicidade dos trabalhos, deixa muito a desejar. Talvez, pelo grande número de modalidade e categorias; talvez, por não incluir a grande São Paulo e perder em visibilidade; talvez, por ser organizada por uma “fundação” que só está interessada no repasse das verbas estaduais da cultura, talvez...
O que sei é que "Abandono do Lar" cumpriu o seu papel, e para mim isso significa o aval crítico de uma nova etapa em meu trabalho poético, uma volta à “atividade”.

Comunica Tudo – Falando ainda de poesia, a série de "Poesias Tabagistas" publicada em teu blog causa certa polêmica: alguns acham absurdo abordar um tema como este, enquanto outros adoram e aplaudem. Por quê escolheu este tema e o que pensa da reação dos leitores?

GS – Os temas nos escolhem, acho que é por aí, pois, na realidade, eu vinha me sentindo incomodado com a propaganda e a histeria anti-tabagistas. Sou um fumante e não um contraventor (ao menos neste aspecto) e me sinto patrulhado e desrespeitado enquanto consumidor de tabaco. Pago altos impostos para exercer meu vício e creio que deva ter tratamento imparcial, tanto do estado, quanto da iniciativa privada. Não posso aceitar que as infames “áreas de fumantes” sejam reles buracos ao relento! Isso sem tocar nas questões antropológicas que o tema suscita. Veja a arte, por exemplo, quantas obras (na música, cinema, poesia, artes plásticas, literatura) deixariam de existir por “questões de saúde pública” ou do “politicamente correto”? Quanto aos leitores, meus principais são os não e ex-fumantes militantes. É divertido!

Comunica Tudo – Para um escritor, no caso específico do Brasil, o melhor caminho seria participar de Concursos Literários para "melhorar" seu currículo e só depois buscar editoras de grande porte? Como você enxerga a publicação de livros em nosso país?

GS – Há os que demonizem os tais concursos literários, mas a verdade é que dar a cara à tapa, anonimamente, a um júri é, no mínimo, excitante. Os concursos ou prêmios literários não são apenas certames para iniciantes, veteranos também se beneficiam deles pela publicidade e pela grana, vide Milton Hatoum e Cristovão Tezza. Autores já publicados também buscam upgrades em seus currículos e assim estes prêmios cumprem seu papel, no Brasil e no mundo.
Quanto á publicação, ela não é mais algo tão complexo e caro, difícil é bancar todas as outras funções da cadeia editorial (divulgação, distribuição, marketing, etc.). Além do que, a publicação em si, me parece não ser algo imprescindível, muitos novos autores nasceram em um suporte web (blogs, sítios, e-fazines). Mais do que livros, precisamos de leitores, e esses, a internet pode trazer primeiro. Novos tempos, amigo!

Comunica Tudo – Falando um pouco de artes. Décio Pignatari, em entrevista para a Folha de São Paulo em 2007, falou que a "única vanguarda que houve nesses últimos tempos, por incrível que pareça, e que me espantou, foi a moda". Você acredita que, de certo modo, a arte brasileira ficou para trás?

GS – Outro dia, lia no blog do Antonio Cícero ele afirmar que não existem mais as tais vanguardas, na medida que, não há mais caminhos interditados para a arte, portanto não há mais necessidade de “batedores” que nos abram os caminhos obstruídos por concepções estéticas hegemônicas. As hegemonias, hoje, o mercado é quem define. Moda é mercado, música é mercado, literatura é mercado. A arte é consumo.
Acredito que a pirataria seja hoje uma espécie de vanguarda, mas isso não é exatamente uma novidade, antropofagia e tropicalismos que o digam...

Comunica Tudo – Ensino Público x Ensino Privado: existem diferenças entre eles, tanto para o professor quanto para o aluno? Você tem alguma preferência?

GS – O senador Cristovão Buarque formulou uma lei que faz obrigatório a matrícula de filhos de políticos (executivos e legislativos) na escola pública, a lei vai para o congresso e, imagine você o rebuliço que isso não causará... A situação que uma lei como esta ressalta é a seguinte: acaso, em uma democracia, pode haver duas escolas, uma para os pobres e outra para os ricos? Enquanto a realidade for esta, a escola pública nunca vai ter os investimentos necessários para oferecer qualidade mínima.
Eu tenho minha opção, ela é ideológica, sou e sempre serei educador do ensino público. É quase um voto de pobreza...

Comunica Tudo – No texto "Que significa dizer: Não há filósofos no Brasil?", Júlio Cabrera diz que "filósofos brasileiros não são estudados nos currículos de filosofia, nem mesmo mencionados, nem são apresentados em congressos e conferências". Você concorda com esta citação?

GS – Não há como discordar deste diagnóstico quando nos referimos ás graduações, fico imaginando como seria a ementa de um curso de “filosofia tupiniquim”... Contudo, posso estar enganado, mas com exceção nas letras e nas ciências sociais, pouco se valoriza o pensamento nacional em suas mais diversas áreas, das humanas às exatas. Parece que o caso não é de falta de interesse por parte dos pesquisadores, mas sim, de determinações e acordos firmados entre nossos alcaides e os bancos mundiais de fomento, que determinaram, de antemão, a “vocação” técnica de nosso país.

Comunica Tudo – Na última vez que nos encontramos, na Bienal do Livro de São Paulo, eu e você compramos livros de Gilles Deleuze, que criticava a psicanálise, o Estado, a política, entre outros. Nestas contribuições filosóficas, qual importância você credita a este autor?

GS – A crítica a estas instituições, talvez seja, atualmente, a única coisa importante a se fazer. Deleuze é crucial para crítica da contemporaneidade, ele atualiza Nietzsche e sua artilharia no novo campo de batalha da modernidade: a psicanálise, o indivíduo. A arte, a importância da estética na obra destes dois filósofos, faz deles autores fundantes da minha formação acadêmica.

Comunica Tudo – Atualmente você tem planos de lançar um livro de poesias? Existe algum projeto em andamento?

GS – Meus “planos” possuem relevo acidentado... Meus projetos estão em um andamento mais rápido do que meus passos. Espero alcançá-los no próximo ano... estou sem pressa.

Comunica Tudo – Bem, muito obrigado pela entrevista. É sempre muito bom trocar palavras contigo. Mas para quem quiser conhecer e ler mais a teu respeito: onde te encontrar?

GS – Atualmente estou dando plantão lá no meu blog, o MIOPIA, ando animadíssimo com esta experiência! Vez ou outra, coloco um poema inédito meu por lá, e, com mais freqüência, poemas e poetas que me impressionam, ainda, fotos, resenhas críticas, desabafos e, é claro, música. Stanley (será que fiz mal em revelar sua identidade secreta), foi um prazer prosear assim, de longe, mas, quando estiver por estas bandas, venha cá, buscar seu abraço! Só não se esqueça de trazer o violão!


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Um comentário:

  1. Muito bom! Divulgada a entrevista em meu blog, pela qualidade da mesma e admiração que sinto pelo poeta.
    Abraços
    Pam Orbacam
    http://www.pampoeta.blogspot.com

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