João Cabral e o verso livre

Em 1953, o poeta João Cabral de Melo Neto declarou em entrevista a seu colega Vinicius de Moraes: "Acho o verso livre uma aquisiçã...


Em 1953, o poeta João Cabral de Melo Neto declarou em entrevista a seu colega Vinicius de Moraes: "Acho o verso livre uma aquisição fabulosa e que é bobagem qualquer tentativa de volta às formas preestabelecidas. Abrir mão das aquisições da poesia moderna seria, para mim, como banir a poesia do mundo moderno".

Trinta e cinco anos depois, em 1988, ele afirmava a Mário César Carvalho que "uma das coisas fatais da poesia foi o verso livre. No tempo em que você tinha que metrificar e rimar, você tinha que trabalhar seu texto. Desde o momento em que existe o verso livre, todo o mundo acha de descrever a dor de corno dele corno se fosse um poema. No tempo da poesia metrificada e rimada, você tinha que trabalhar e tirava o inútil".

Como se explica tal inconsistência? Teria João Cabral mudado radicalmente de idéia sobre esse assunto? Certamente houve uma mudança. Creio, porém, que, por trás de uma mudança apenas superficial, encontra-se a profunda coerência da sua concepção de poesia.

Cabral costumava dividir os poetas em dois grupos. O primeiro é o daqueles para quem tudo o que não é espontâneo -logo, tudo o que dá trabalho, tudo o que é difícil- é falso. O segundo, no qual ele mesmo se colocava, é o daqueles para quem tudo o que é espontâneo -logo, tudo o que dispensa o trabalho, tudo o que é fácil- é falso. Para ele, o fácil e espontâneo jamais passava de eco ou repetição inconsciente de vozes alheias. Como se verá, tanto ao defender o verso livre em 1953 quanto ao atacá-lo, em 1988, ele estava tomando posição contra o fácil, espontâneo e repetitivo, e a favor do difícil, trabalhoso e único em poesia.

"O poeta", disse Cabral uma vez em entrevista a Arnaldo Jabor, "é aquele que nunca aprende a escrever". Poderíamos também dizer que o poeta é aquele que está sempre aprendendo a escrever. Nas palavras do famoso "O Lutador", de Drummond: "Lutar com palavras / É a luta mais vã. / Entanto lutamos / Mal rompe a manhã". O poeta luta para dar forma a um poema, isto é, a um objeto estético memorável -ou seja, a um objeto que mereça existir em virtude de seus próprios méritos, mesmo que não sirva para nada ulterior- feito de palavras.

A predileção pelo fácil e espontâneo pode manifestar-se de dois modos. Em primeiro lugar, ela pode manifestar-se como o desprezo por todo trabalho e toda técnica. A "poesia" fica assim reduzida a uma expressão pessoal em que a língua é usada, não para dar forma a um objeto de palavras, mas para dizer alguma coisa, como na vida cotidiana. Não ocorre a luta com as palavras ou a produção de um objeto estético memorável.

Em segundo lugar, a predileção pelo fácil, espontâneo e repetitivo também se manifesta como o artesanato de escrever versos em formas tradicionais. Através de estudo e exercício, o versejador adquire destreza em, entre outras coisas, escrever redondilhas ou decassílabos, rimar versos, compor em formas fixas etc. Com a prática, ele aprende, por exemplo, a improvisar sonetos adequados às mais diversas ocasiões. Para o versejador que atingiu mestria em determinadas técnicas, nada parece mais fácil ou espontâneo do que fazer um "poema", através da repetição do que é convencionalmente "poético". Tampouco nesse caso ocorre a luta com as palavras ou a produção de um objeto estético memorável.

Cabral achou um modo próprio de evitar tanto a facilidade dos versos livres e sem rimas quanto a facilidade do uso convencional das técnicas tradicionais. Entre outras coisas, ele usava métrica, mas procurava evitar os ritmos associados a ela; e usava rimas, mas não perfeitas, e sim toantes. Naturalmente, essas soluções foram úteis para ele, e não são universalizáveis. Elas indicam, entretanto, que, na prática, ele não estava tão preocupado em rejeitar os procedimentos tradicionais quanto em usá-los na medida em que aumentassem, e não, como o versejador, na medida em que aliviassem, a dificuldade do seu trabalho.

Frente às tendências contemporâneas de dissolver e diluir a poesia e a arte, talvez os poetas -e os artistas em geral- devam refletir sobre essas idéias de Cabral. Longe de rejeitar toda regra ou de apelar a regras que facilitem a elaboração ou a recepção da obra, será talvez mais produtivo que o artista imponha a si mesmo determinadas condições -pouco importa se por ele inventadas ou se tomadas de empréstimo à tradição- que, dificultando o seu trabalho, tomem-lhe mais tempo e exijam dele um maior esforço de pensamento e elaboração.

[Texto publicado na "Ilustrada" do jornal Folha de S.Paulo]

Escrito por: Antonio Cicero - nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Formou-se em filosofia na Universidade de Londres. Poeta, tornou-se conhecido em finais dos anos 70 como o letrista das canções de sua irmã, Marina Lima. Publicou os livros de ensaios, O mundo desde o fim. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995; Finalidades sem fim. Ensaios sobre poesia e arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005 e os de poesia, Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996. (Prêmio Nestlê de Literatura Brasileira); A cidade e os livros. Rio de Janeiro, Record, 2002.
Blog: http://antoniocicero.blogspot.com Site: http://uol.com.br/antoniocicero


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