04/12/2008

Entrevista com Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho, 28 anos, é graduado em Filosofia e especialista em Literatura e História, é autor de quatro romances, do best-selling "Guia Nova York para mãos de vaca”. Escritor colaborador em alguns sites, nasceu no Brasil e hoje vive em Nova Iork. Em entrevista fala sobre a Oficina Editora, Samizdat, propriedade intelectual, literatura e outros assuntos.
Marcelo Augusto D’Amico – Primeiramente, é com enorme satisfação que faço esta entrevista. Tenho muitas perguntas, mas selecionarei algumas, caso contrário esta entrevista se tornará um livro (risos). Comecemos pelo "Guia Nova York para mãos de vaca”, com matérias publicadas no Globo, portal Terra, enfim: como foi a repercussão do Guia e como surgiu a idéia do formato em livro?
Henry Alfred Bugalho – Ao contrário dos meus outros livros, o guia de Nova York foi obra do acaso. Eu mantenho blogs desde 2004, mas a maioria sempre permaneceu naquele limbo dos blogs, alguns poucos leitores fiéis e muitos perdidos que chegam lá acidentalmente. Mudei-me para Nova York em 2006 e logo descobrimos, eu e minha esposa, que aquele papo de que Nova York é a cidade mais cara do mundo era um mito. Desta descoberta, surgiu a idéia de criar um blog para contar nossas descobertas sobre esta cidade maluca, voltado para aquele turista que sabe qual é o valor do dinheiro. Então comecei a falar de museus, restaurantes, passeios, lojas, ou qualquer outro assunto que se encaixasse no perfil do viajante econômico, denominado por nós como "mão-de-vaca". Após um ano mantendo o blog, os leitores insistiam para que nós lançássemos um guia, compilando as dicas que já estavam no blog. Quando demos uma olhada no conteúdo que possuíamos, o livro estava praticamente pronto. Só adicionamos mais algumas dicas e mandamos para a gráfica.
No entanto, a primeira grande dúvida nossa foi: tentar publicar por uma editora comercial ou por conta própria?
Entramos em contato com as editoras e algumas demonstraram interesse, no entanto, apenas para testarmos a repercussão, lançamos também uma edição independente e o sucesso foi tão grande e inesperado que desistimos de publicar por uma editora comercial, e isto por duas razões principais: 1 - poderíamos continuar divulgando o material através do blog, sem custo algum para os leitores; e 2 - o nosso lucro é muito maior, enquanto que com uma editora comercial nosso lucro seria de 10% do preço de capa, com a venda dos e-books nosso lucro é de 100%.
Assim, o blog se tornou a vitrine do guia, e quem o adquire sabe muito bem o que está comprando.
Apesar de ter começado como um projeto despretensioso, logo descobrimos que o "Guia Nova York para Mãos-de-Vaca" estava suprindo um nicho quase inexistente no Brasil e isto é, em boa parte, o segredo de sua aceitação.
MAD – Além do Guia, você também participa da revista Samizdat: como surgiu o projeto? E mais, no blog, o texto “Por quê Samizdat?” lembra algo de Foucault e Adorno (autores que estou lendo agora). Existe alguma relação teórica na concepção da revista?
HAB – A Revista SAMIZDAT é a terceira etapa duma idéia que começou numa comunidade do Orkut, a "Escritores - Teoria Literária".
A verdade é uma só: todo escritor quer ser lido. E a internet propiciou a uma legião de autores que jamais seriam lido em outra época a oportunidade de mostrarem seus trabalhos. Antigamente, os textos de autores inéditos iam para o fundo da gaveta e de lá para o lixo; hoje, eles vão para um blog, ou para um site de relacionamentos. Por isto, ficou muito difícil para o leitor separar o joio do trigo; são tantas as opções, que acabam sendo opção nenhuma. Quando criei aquela comunidade do Orkut a intenção era evitar esta mendicância literária - "leiam-me, por favor!" -, lá, só poderia haver debates sobre o fazer literário, sobre como escrever bons textos. No entanto, após algum tempo, percebi que apenas isto não bastava, por isto abri uma segunda comunidade, para realizarmos uma espécie de oficina literária virtual, onde poderíamos escrever e analisar os textos uns dos outros. E o nível foi tão espantoso, com autores tão talentosos e com uma produção tão diversa - pois lá há autores de vários estados brasileiros e de várias cidades portuguesas -, que concluímos que precisávamos expor os resultados para outras pessoas. Foi quando surgiu a SAMIZDAT.
O nome da revista foi selecionado através duma votação. Eu o propus após ter lido uma biografia sobre Alexandr Solzhenitsyn e como ele, durante os tempos da repressão soviética, distribuía seus romances através de publicações clandestinas, conhecidas como samizdats. O princípio era simples, qualquer um que recebesse um samizdat - que poderia ser ficção, crônicas, ou crítica ao governo - deveria fazer uma cópia, ou cópias, e passar adiante. Então as samizdats se proliferavam pelo submundo da USRR, através de cópias datilografadas ou mimiografadas.
A relação que você estabeleceu entre Foucault, Adorno e a SAMIZDAT procede, pois hoje não estamos, pelo menos no Brasil e em Portugal, sob um regime repressor, mas estamos dominados por um processo de exclusão determinado pura e simplesmente pelas leis de mercado.
Vende? Então é publicável.
Só que existe um problema sério neste raciocínio: como saberemos se uma obra literária é vendável se ela não for submetida ao crivo popular?
Então a Indústria Cultural acaba por se auto-alimentar, sempre arriscando em assuntos, gêneros e autores confortáveis, cujo retorno financeiro será certo, vetando assim qualquer renovação.
A proposta da SAMIZDAT é a proposta da própria revolução cultural que tem surgido através da internet: esta renovação das artes tem de vir de fora, tem de surgir pelas mãos de quem está fora do processo. Aquele criador que desde sempre esteve relegado às sombras, agora pode ser visto, conhecido e lido, sem precisar se pautar por princípios mercadológicos. Quem quiser ler, leia, é de graça; e é de altíssima qualidade!
MAD – Um livro podendo ser comprado ou “baixado” gratuitamente na internet, como por exemplo “O Covil dos Inocentes”, faz alguns escritores encararem esta atitude como um “suicídio financeiro” do autor. Esta também é a proposta da “Oficina Editora”. Você acha que um formato pode prejudicar o outro?
HAB – Este é um problema sério e algo que as novas gerações de escritores terão de solucionar.
Tanto "O Covil dos Inocentes" quanto o "Guia Nova York para Mãos-de-Vaca" partem do mesmo fundamento: a cultura deve ser livre. Ambos podem ser lidos gratuitamente em blogs, mas há uma única diferença, o e-book do guia é comercializado, o e-book do romance é baixado gratuitamente.
Isto não é por acaso.
Quando um autor desconhecido escreve um romance, ele está buscando um espaço entre vários outros autores conhecidos e milhares de outros desconhecidos. São muitas obras para poucos leitores, então as editoras fazem uma primeira triagem, as livrarias uma segunda, e, por fim, o leitor é quem decide. Agora, imagine a seguinte cena: numa prateleira há um livro meu, outro do Paulo Coelho e um terceiro de Luís Fernando Veríssimo. O leitor não me conhece, mas conhece muito bem aos outros dois. Qual será a dúvida dele: Paulo Coelho ou Veríssimo? O autor desconhecido está fora do páreo. O leitor tem uma expectativa, e ele escolherá aquele livro que provavelmente a suprirá. Ele não tem como saber se a obra do autor desconhecido é tão boa, ou melhor, quanto as dos outros autores.
Eu até tentei vender "O Covil...", mas só conseguir vender 2 exemplares. Livro custa caro; o leitor não vai se arriscar. No entanto, desde que disponibilizei o e-book para download gratuito, foram baixados quase 300 exemplares num curto espaço de tempo. E teve leitor me contatando para elogiar a obra. Quer dizer, neste caso, "suicídio literário" seria tentar competir em pé de igualdade com quem já é estabelecido.
Já o guia de Nova York, ele é único em língua portuguesa, não há nada parecido com ele no mercado. Logo percebi que eu poderia torná-lo rentável. Além disto, houve uma lógica muito básica nisto tudo: "um indivíduo vem a NY para fazer turismo. Ele vai gastar tranqüilamente 3 ou 4 mil dólares na viagem, que mal vai lhe fazer gastar 12 reais num livro que pode cortar seus gastos pela metade?"
Ou seja, no final das contas, eu vendo o que é vendável, assim posso distribuir gratuitamente o que ainda não é. E mesmo se um dia for, pela minha experiência, livre acesso à informação e à cultura só ajuda na comercialização duma obra.
A Oficina Editora é, de certo modo, uma expressão disto. Os autores que fazem parte dela sabem das dificuldades de se vender um livro, mas também não querem abrir mão de serem lidos. É uma troca: um livro gratuito por um pouco de atenção do leitor. Talvez, este mesmo leitor seja aquele que comprará um livro nosso quando este estiver na livraria. Assim, a dúvida será: o livro do Paulo Coelho, do Veríssimo ou o meu?
MAD – Ainda relacionado ao mundo virtual, existem muitos debates sobre direitos autorais, Creative Commons, propriedade intelectual; principalmente questionamentos sobre dispor uma obra na internet e ficar desprotegido de seus direitos de autor. O que você pensa deste assunto?
HAB – O momento em que estamos é duma crise paradigmática. Em breve, muitos daqueles conceitos que nos eram patentes se tornarão obsoletos. Os direitos autorais, ou melhor, os copyrights, foram criados para proteger o autor, para resguardá-los em seus direitos sobre a obra literária, isto numa época em que o mundo editorial era um "oba-oba". Vale lembrar que o próprio Cervantes foi plagiado. No entanto, os copyrights acabaram se tornando uma arma para excluir uma parcela gigantesca da população de ter acesso à cultura. O que era uma proteção do criador, tornou-se uma maneira de penalizar os leitores e aumentar o lucro das editoras. Tudo passou a ser dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Mas a era digital inaugurou uma nova mentalidade.
A primeira grande mudança tem sido a relação entre produtor cultural e receptor. Anteriormente, os limites eram muito distintos. Havia os produtores, no topo duma pirâmide cultural; eles determinavam o conteúdo, o que as pessoas queriam consumir. Agora, qualquer um é um produtor cultural. Fulano vai no youtube e põe um filme caseiro; cicrano vai no blog e posta um conto; beltrano grava um mp3 caseiro e milhões de pessoas ouvem sua música. Está havendo uma democratização da arte, não apenas no sentido de acesso a ela, mas de possibilidade de todos se tornarem também criadores.
A segunda mudança tem a ver com os modos de divulgar o trabalho. Antes, para um autor inédito, a única saída era distribuir o manuscrito entre amigos. Com a internet, qualquer um pode ser visto por milhares de leitores numa questão de segundos. E esta interatividade é crucial em nossos tempos. Os escritores sempre reclamaram que a escrita era um ofício solitário. Hoje, não é mais. O autor que não dialoga com seus leitores, que não respeita seus comentários, que não tentar compreender seus anseios, está fadado.
E a terceira, e talvez a mais importante, está se instaurando uma nova relação entre o autor e sua obra. Os escritores aos poucos estão começando a perceber que não são donos de seus textos, que o que fazem pertence a uma grande trama de outros textos, de outras referências, mais ou menos aquilo que Foucault chamou de "a morte do autor". E esta noção de que "o que é meu, também é de todos" está gerando uma rede de produção coletiva e a Wikipédia talvez seja o maior exemplo disto. São milhares de pessoas colaborando para criar uma gigantesca enciclopédia, e ninguém ganha nada com isto, nem mesmo notoriedade. É um anonimato colaborativo que permite o surgimento de algo grandioso.
Ou seja, nós estamos no olho do furacão. Todas estas mudanças ainda nos causa aporia, enche-nos de questionamentos. Estamos vendo a queda dos velhos paradigmas, mas ainda não podemos vislumbrar quais serão os novos. Certamente que o autor do futuro breve terá de encontrar novas formas de gerar renda, talvez através de anúncios publicitários (que têm migrado da mídia impressa para a internet), ou através de patrocinadores. Mas algo mudará, e seremos talvez menos ambiciosos, mais conscientes da nossa pequena participação numa enorme engrenagem cultural.
A cultura que se originará deste processo estará em oposição à cultura de massas, não será mais algo voltada para todos, mas sim para nichos, para pequenos grupos, para pequenas comunidades. Todos terão de encontrar seus leitores, e todos terão de encontrar também seus autores.
MAD – Costumo abordar com escritores a falta de hábito da leitura nos brasileiros. Você, como morador da “Big Apple”, nota diferença entre Brasil e EUA neste aspecto?

HAB – Eu escrevi um artigo sobre isto, chamado "O Medo do Livro". No Brasil, os programas de alfabetização surgiram simultaneamente ao advento da TV. O brasileiro possui uma TV em casa, mas nunca leu um livro na vida. Estamos diante duma competição desigual. E livro é um artigo de luxo, custa caro, é um entretenimento com prazo de vencimento (o ponto final) e individual. A TV é coletiva e sempre apresenta novidades.
Nos EUA e na Europa, por outro lado, as revoluções tecnológicas na área de cultura ocorreram aos poucos. Primeiro a imprensa, depois o rádio, o cinema, a TV, o videocassete, a internet, e assim por diante. Foram etapas, e quem aderiu a uma não perdeu o hábito da outra. E as empresas investem pesado para não perder seus consumidores. Livro nos EUA é baratíssimo - algo em torno de 10 dólares -, se você comprá-lo num sebo, pode sair por centavos. Eu, em pouco mais de dois anos, tenho mais livros do que nos 26 anos que vivi no Brasil. Aqui, cultura não é inacessível. Você vai num biblioteca pública e pode emprestar até 30 livros duma só vez, e tem uma biblioteca por bairro. Quer dizer, há uma infraestrutura cultural que abarca desde quem tem grana até quem não tem. Isto facilita o acesso.
Além disto, os americanos já compreenderam que você tem de saber qual é o seu leitor, e por isto existem linhas editorais para vários segmentos da sociedade: para negros, para homossexuais, para mulheres, para estrangeiros. Deste modo, a leitura passa a se tornar também um posicionamento ideológico, uma demonstração de identidade.
MAD – Hiperficção: constitui-se de histórias repletas de bifurcações e com várias escolhas de seqüência narrativa. Você já se aventurou por este gênero, e como fica o processo de criação num gênero não linear de história?
HAB – Eu arrisquei neste formato por um breve período, mas o planejamento duma narrativa longa é algo extremamente complexo. E o público é muito limitado. Acaba não valendo muito o esforço, no final das contas.
Cheguei até a escrever um manifesto para defender o formato, mas descobri que eu estava sendo ingênuo, pois acreditava que ninguém mais estava se arriscando em produzir hiperficções. Recentemente, li um livro teórico de Aarseth sobre aquilo que ele batizou de "literatura ergódica", ou seja, aquela literatura que rompe o fluxo tradicional de leitura - e a hiperficção é uma forma de literatura ergódica - e descobri que isto tem sido feito por milhares de anos. O I-Ching é usado como um exemplo, um livro que é consultado através dum oráculo e que não foi feito para ser lido de cabo a rabo.
A internet provou ser um ambiente bastante propício para a criação de hiperficções, pois é um universo tridimensional, ao invés da "bidimensionalidade" do livro físico. Atualmente, estou escrevendo um romance não-linear, mas não ando muito motivado...
MAD – Quais autores ou livros, para você, são essenciais na literatura? Quais obras você considera geniais?
HAB – Esta é uma pergunta muito difícil. Eu posso pensar nos autores que são "essenciais para mim", mas a lista é tão grande que eu nem saberia por onde começar. Mas só para citar alguns: Jorge Luis Borges, Kafka, Dostoievsky, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Pushkin, Balzac... Posso dizer que, na minha vida, existem três abismos literários, que são aquelas obras que mudaram minha concepção de literatura: "Ulisses" de James Joyce, "Ficções" de Jorge Luis Borges e "O Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa. Para mim, é muito difícil criar tendo tais sombras sobre mim. É uma luta página após página.
MAD – Por fim, agradeço muito por esta entrevista, e gostaria que deixasse aqui seus principais endereços para quem quiser lhe conhecer mais.
HAB – Só de blogs eu tenho quase uma dúzia (risos). Bem, o trabalho literário que mais me tem dado satisfação é a Revista SAMIZDAT (www.samizdat-pt.blogspot.com). Há o meu blog no qual traduzo algumas dicas para escritores iniciantes e posto ensaios meus, que é o "Blog do Escritor" (www.blogescritor.blogspot.com) e o meu pessoal, com contos, "Miríades" (www.miriades.blogspot.com). Por fim, mas não menos importante, é o meu trabalho mais distante da Literatura e o que mais tem rendido frutos, o "Nova York para Mãos-de-Vaca" (www.maosdevaca.com). Há outros, mas ficam pra próxima...
E eu sou quem agradece pela atenção, Marcelo.


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