Entrevista exclusiva: Conrad Pichler

Conrad Pichler é graduado em Letras, especialista em Literatura. Natural de Mogi das Cruzes/SP, criado em Ferraz de Vasconcelos/SP, r...


Conrad Pichler é graduado em Letras, especialista em Literatura. Natural de Mogi das Cruzes/SP, criado em Ferraz de Vasconcelos/SP, reside hoje no edifício Copan (famoso projeto de Niemeyer) em São Paulo capital, de onde edita o blog Dr?. Literatura. Escolhido por Emerson Sitta para escrever sobre o livro “O Melhor é Sempre”, Conrad nos conta suas experiências como professor, editor de material didático para a Editora Abril, escritor, palestrante, literatura, entre outros.

Comunica Tudo – Como de costume, agradeço por estar aqui e por toda atenção concedida. Mas nos conhecemos através do poeta Emerson Sitta, e nos encontramos brevemente na Bienal de São Paulo. Aliás, Emerson me ajudou muito nas pesquisas desta entrevista. Enfim, como foi participar de “O Melhor é Sempre” e o que sua poesia significa para ti?

Conrad Pichler – Emerson é um grande amigo, poeta, estudioso e um professor muito consciente, quando ele me fez o pedido de escrever o que seriam as orelhas do seu livro, eu fiquei muitíssimo feliz, por fim o meu texto foi para a contracapa; eu já conhecia o projeto “O Melhor é Sempre” desde o começo de 2005, quando estive em Itu, li uma das primeiras versões e acho que o projeto evoluiu enquanto Emerson caminhava nos estudos do mestrado. Corro o risco de ser repetitivo com o que escrevi para o livro, mas acho que as muitas influências do material em contraste com os temas universais (amor, vida, constância, etc.) exigem e merecem mais de uma leitura e que a gente rumine por um bom tempo aquelas poesias. Como diria Ezra Pound, toda a grande poesia é carregada de significados ao mais alto grau possível e o texto de “O melhor é sempre” chega a essa latitude.

Comunica Tudo – Você foi criado em Ferraz de Vasconcelos, um município da grande São Paulo com um dos PIB’s mais baixos da região. Nesta cidade, foi professor substituto por aproximadamente seis anos, posição pouco adorada pelos profissionais de educação. Conte-nos um pouco como foi esta experiência.

CP – Eu cresci em uma cidade do interior que foi se transformando em “periferia”. Inicialmente, o espírito que pairava era o das relações comunitárias e coletivas, todos se conheciam, todos se visitavam, todos se ajudavam; e foi nesse espírito que decidi ser professor na escola em que estudei, era um modo de contribuir com minha comunidade, porém, como disse, em questão de anos, a “cidade grande” (São Paulo) engoliu a cidade de interior e tudo ficou muito descaracterizado. Quanto a ser professor “eventual” foi uma necessidade e não tanto por escolha, no início da carreira não se encontra escolas particulares para conseguir aulas e a concorrência para aulas no Estado é muito grande; porém, depois de um tempo, ser professor eventual foi um grande coringa, me permitia aceitar e criar projetos que eram novidades ou ofereciam boas possibilidades de continuar aprendendo, enquanto eventualmente davas aulas curriculares para todos os seguimentos e faixas etárias, por vezes, dando mais aulas em algumas turmas do que os professores regulares.

Comunica Tudo – Após se formar na PUC/SP, começou a lecionar numa escola particular de São Paulo, o que motivou sua mudança. Hoje, você mora no Copan, famoso edifício da capital, num dos pontos mais movimentados do centro da cidade, com 1.160 apartamentos. Como foi esta mudança? Como é escrever num lugar famoso e agitado?


CP – Foi uma mudança necessária e muito bem-vinda, a cidade de São Paulo, especialmente o centro, oferece muitas atividades artísticas, culturais e, claro, gastronômicas. Porém, a cidade é fria, as pessoas não se reconhecem nem se importam tanto com as outras. Vou te contar um “causo” engraçado: outro dia tive a infelicidade de rasgar a bermuda de um jeito vergonhoso, peguei um ônibus, atravessei a cidade para chegar a minha casa e ninguém sequer percebeu o acontecido ou, talvez, percebendo não se importaram ou interessaram pelo destino adverso vivido por mim. Não à toa, desde os Decadentes poetas franceses do século das XIX (e antes deles, os nossos e os outros árcades), a cidade é um ambiente opressor, frio e doloroso de se viver. Porém, há também toda polifonia – de vozes, linguagens, culturas, etc. –, como você disse, só no Copan são mais de mil apartamentos, mais de mil vozes em um coral sinuoso trepidando no centro da cidade. Por isso vale à pena morar em São Paulo e o Copan me permite ficar de olhos e ouvidos na cidade, tem sido uma experiência estranha e singular e, por si só, essencialmente poética.

Comunica Tudo – Você conseguiu um cargo como professor de inglês pelo governo do estado de São Paulo, mas depois de um tempo decidiu abandonar esta posição. O que motivou esta saída? Como foi esta experiência?

CP – A experiência como um todo não foi agradável, primeiro por não poder lecionar a disciplina que escolhi: português, mais precisamente, literatura. Mas, o que tenho sentido como maior perigo para a educação pública – e o que faz acender os sinais de alerta – são as salas dos professores que um dia foram fervilhantes e cheias de idéias, estejam empobrecidas; o trabalho colaborativo se perdeu e, em minha opinião, sem trabalho coletivo não há qualquer chance de reverter uma cultura escolar incipiente e pervertida. Para explicar, “incipiente”, pois a escola laica e “para todos” é novidade em nosso país, tem apenas 40 ou 50 anos; “pervertida”, afinal hoje as escolas são responsáveis pela formação moral, pessoal e, até, “sentimental” das crianças, o que um dia foi função das famílias. Fica difícil saber qual a função da escola, ou melhor, difícil é saber o que não é responsabilidade da escola e como ela não está preparada para assumir essas demandas. Há, ainda, toda uma política de Estado que vem se tornando “policial”, não se pode falar em greve ou criticar abertamente o Governo pelas decisões desastrosas que toma, sem que um supervisor ou diretor o ameace de “exoneração”, o que em minha opinião é uma reedição do “ame-o ou deixe-o”. Dentre as decisões e escolhas pouco confiáveis, posso citar a substituição do material didático, escolhido pelo professor, por um que é redundante e reduzido, claramente voltado para obter resultados em exames preparados pelo próprio Estado; e a insistência de que o contexto do aluno é o único que deve ser levado à sala de aula, impedindo-o de conhecer possibilidades e novas oportunidades de vida. Para finalizar, a escola pública de hoje é aquela que impede – e muitas vezes força – o professor e a comunidade de ter direito de falar, o grande Roland Barthes diria que esta é a pior forma de fascismo.

Comunica Tudo – O que significa ser graduado em Letras num país em que 70% da população absorve conteúdo pela televisão e lê, em média, apenas um livro por ano?

CP – Um desafio. Principalmente porque a população foi levada a acreditar que realmente “absorve” as coisas e não “digere”. Às vezes, penso no que dizia aquele movimento Antropófago dos Modernistas de 22, em suma, eles evidenciavam que nossa cultura é digestora e não meramente absorvedora, digerir implica em ação e não osmose. Mas, nesses últimos 40 e tantos anos, principalmente por ser fruto de uma época de repressão, o Brasil não consegue mastigar sozinho, quase sempre clamamos por uma sonda, um funil ou alguém que mastigue para nós o “alimento”. Veja o exemplo da minissérie Capitu, que a Rede Globo exibiu em Dezembro de 2008, com cinco capítulos, ela não era em nada “mastigada”, ao contrário, exigia ação contínua de atenção e de “leitura”, era polifônica e pedia diálogo, cumplicidade do leitor/espectador, ou seja, é televisão sem ser “reducionista”, mas, conclusão: esse programa teve baixíssimos índices de audiência, enquanto a novela das 9h, que reedita o mesmo formato, história, personagens (que só mudam de nome) e atores/atrizes de sempre, é um dos programas mais visto no país com milhões de espectadores. Não é diferente com a literatura, ao pedir a leitura do romance “Dom Casmurro” de Machado de Assis, sempre ouço que seria melhor trocar por um “Harry Potter” ou Paulo Coelho do momento (que é tão somente uma reedição e redução de tudo que já se fez); temo que as pessoas foram ensinadas culturalmente a preferir “contos da carochinha” em vez de uma verdadeira narrativa.ensinar gente a sair desse paradigma é minha função, o que não é nada fácil.

Comunica Tudo – Atualmente, você escreve material didático para professores na Editora Abril. Como surgiu esta possibilidade e que material você produz exatamente?

CP – Eu presto assessoria pedagógica e escrevo projetos e planos de aula de literatura e leitura para Abril Educação, mais especificamente para o Portal Ser (www.ser.com.br). Essa oportunidade me chegou através de amigos, depois passei por um teste e fui aceito.

Comunica Tudo – Recentemente você esteve em Natal/RN, para dar palestra para outros professores. Neste contato com outros profissionais, é possível sentir as maiores dificuldades deles? O que buscam estas pessoas?

CP – As palestras fazem parte do trabalho para o Portal, vou às escolas assessorá-las em como usar conteúdos do Ser em suas atividades diárias, além de ouvir suas críticas e sugestões. Eu tenho sentido que a grande preocupação dos professores dos diferentes estados é a mesma: uma cultura escolar que está se desmanchando, porém, ela é ainda mais necessária para nosso país. Porém, o mais interessante é que essas escolas estão procurando saídas próprias, evitando espelharem-se no eixo sul-sudeste, principalmente São Paulo-Rio. Mas, me dá medo quando ao olhar para os alunos, em qualquer localidade que eu esteja, os vejo tão parecidos com os de São Paulo, fones de ouvido, roupas de marca, pouco repertório cultural e de leitura, talvez seja só pessimismo, mas acho que a idéia de globalização está planificando as culturas, isso me amedronta.

Comunica Tudo – Você tinha um projeto inicialmente chamado de “Doces Revoluções” que aparentemente se transformou blog Dr?Literatura. No que consiste este projeto?


CP – “Doces Revoluções” era um empreendimento para transformar amigos estudantes de literatura e um site na internet em um grande movimento literário, publicando estudos, análises, poesias e prosas, etc., mas, o mundo prático nos atropelou, tive problemas com o servidor e deixei de ter o site em meses, depois perdemos o pique. Criei o blog para retomar o trabalho de um modo mais intimista, para publicar coisas minhas e de quem mais quisesse, porém, um blog é sempre mais restrito que um portal. Mas, gosto de pensar que o DR não está morto, apenas encontra-se em estágio larval.

Comunica Tudo – Para finalizar, gostaria de agradecer uma vez mais por esta entrevista. Para quem quiser entrar em contato, basta acessar o blog Dr?Literatura, e para finalizar gostaria que indicasse alguns títulos ou escritores que considera essenciais na literatura.

CP – Eu tenho medo que minha lista seja a mesma de tantas pessoas, mas gostaria de registrar minha paixão por Machado de Assis, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Mário e Oswald de Andrade, Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto, são sempre os primeiros que aparecem em minha mente, são essenciais na prosa e poesia de nossa língua. Mas, também não podemos nos esquecer de Dostoievski, Joseph Conrad, Kafka e Goethe.
Minhas leituras mais corriqueiras estão me levando a outros autores como Caio Fernando Abreu, Raduan Nassar e Mia Couto, sem falar das poesias de Ana Cristina Cesar, Adélia Prado, Hilda Hilst e, voltando um tanto para o passado, Charles Baudelaire.
No mais, tenho de agradecer a você, Marcelo, obrigado! Parabéns pelo blog e pelo apoio que vem oferecendo às pessoas.

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