11/12/2008

A Era do Espetáculo - inspirado em Guy Debord


“Sociedade do Espetáculo” é um livro escrito por Guy Debord, lançado na França em 1967 e tem seus conceitos vinculados aos acontecimentos de “Maio de 68”. Por axiomas, o autor conceitua a sociedade como espetáculo, transformada num processo facilitado pelo surgimento da comunicação de massa. O espetáculo se faz presente na história do homem desde a Grécia Antiga, mas hoje ganha força, forma e poder muito diferentes. Debord diz que “o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, isto é, social, como simples aparência”. A transformação do espetáculo como razão de nossa sociedade é apenas a confirmação de uma cultura dominante, industrializada, prescrita por Adorno em “Indústria Cultural”.

As consciências são sutilmente condicionadas a consumir aparências constantemente. A aceitação do espetáculo não se resume a questão de gosto ou preferência, podendo significar a própria inclusão social de um indivíduo. A síntese da cultura do espetáculo está na máxima “o que aparece é bom, e o que é bom aparece”, ignorando-se o que estiver fora do círculo da mídia, como produto desinteressante ou ruim. A idéia de veracidade só é atestada quando mostrada por veículos de comunicação e quando não, torna-se alvo de dúvidas e abordagens de falsidade. A mídia tornou-se a linha condutora do que é tido como realidade, da mesma realidade criada por ela.

A espetacularização social atinge todas classes e esferas, com a mídia elegendo e derrubando seus personagens principais. Casos recentes como o “Seqüestro de Santo André”, o “caso Nardoni” e outros antigos como a “Escola-Base” e o “Bar Bodega”, são provas concretas do Espetáculo de nossa sociedade. No seqüestro de Santo André, um diretor do São Paulo Futebol Clube, após Lindemberg ter pendurado uma camisa do time na janela do banheiro, foi ao local para oferecer oportunidade de se tornar jogador, caso libertasse as reféns. Repórteres entrevistaram o seqüestrador e as reféns ao vivo na televisão, além de exibirem imagens da movimentação policial e jornalística durante cinco dias. O seqüestro passional poderia ser resolvido rapidamente longe das câmeras, mas ganhou proporções imensas por conta da transformação em mero espetáculo da mídia, e teve desfecho trágico. Até as reféns receberam convites para ingressarem numa escola de modelos quando ainda se encontravam no apartamento usado como cativeiro. O primeiro advogado do seqüestrador ligava e oferecia as entrevistas com Lindemberg para todos os canais de televisão, o mesmo defensor que abandonou a causa após o desfecho, alegando quebra de acordo. Todos estes detalhes foram expostos por jornalistas no site “Observatório da Imprensa”, mostrando a quem queira saber como atua a mídia do espetáculo.

O assassinato de Isabella Nardoni é outro exemplo, no qual o apelo público, que já tinha seu veredicto, só fez apressar o real julgamento dos prováveis culpados, além de influenciar no processo de investigação. Na reconstituição do crime, a polícia de São Paulo utilizou uma boneca construída especialmente para este fim, custando US$ 2.500,00 e teve ainda as cenas exibidas por vários canais. (Importante fazer um paralelo com o seqüestro de Santo André, onde a polícia do mesmo estado alegou, como um dos motivos para o desfecho trágico, a falta de recursos financeiros para comprar equipamentos.) São detalhes despercebidos pelo público, acostumado a não ter raciocínio crítico, provido de memória curta com fatos que lhe parecem desconexos. O espetáculo é o invólucro de qualquer acontecimento atual: seja ele social, artístico, esportivo, político, financeiro, tudo passa necessariamente por esta aparência que transforma o sentido real dos fatos e conceitos.

(Via Marcelo D'Amico)

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