Indústria das Escolhas ou será que somos tão livres quanto pensamos?

De certo modo, hoje, ou está na mídia ou é excluído da sociedade. A participação efetiva e a influência no “fazer social” ficam restr...


De certo modo, hoje, ou está na mídia ou é excluído da sociedade. A participação efetiva e a influência no “fazer social” ficam restritas aos grupos dominantes e organizados. A exploração sistemática transformou bens culturais em mercadoria, fazendo a arte perder o valor essencial e transmitir apenas sensações efêmeras. Cinema, música, televisão: tudo está transformado em veículo de uma ideologia compromissada com interesses econômicos. A razão humana, prescrita pelo Iluminismo, cedeu lugar para a razão técnica, e até valores humanos foram trocados por financeiros. A lei de mercado rege não só as artes, mas o jurídico, a política e a sociedade. Vincular na terminologia cultura e indústria (Indústria Cultural) não foi aleatório, mas um meio de Theodor Adorno evidenciar a arte como produto mensurado por valores estéticos e econômicos, em detrimento de outros valores que poderia conter.

O capitalismo privilegia o ter (material), o individualismo e o acúmulo de riquezas, usando a “Indústria Cultural” como veículo massificador, em indivíduos que, estejam na classe média ou baixa, vendem força de trabalho para manter uma parca condição de vida. A dominação social é tamanha que o lazer (tempo livre) ganha importância cada vez maior. Vivemos um dilema: para desfrutar das maravilhas do tempo livre (entretenimento), precisa-se de dinheiro, e para ganhar dinheiro é preciso trabalhar. Assim, o lazer se torna não só extensão do trabalho, mas também seu motivo principal e força motriz. O alívio catártico proporcionado pela diversão, propositadamente efêmera, cria um ciclo insaciável: para ter lazer é preciso trabalhar e quanto mais se trabalha, mais se precisa de lazer. Pelo tempo livre se veiculam ideologias reforçadoras do individualismo, competição e posse material, de modo sempre sutil, numa espécie de auto-manutenção do sistema estabelecido. A repetição destes conceitos de consumo faz tudo parecer natural (próprio do ser humano) e, enquanto natural, inquestionável; assim como o sono (vontade de dormir) é atividade natural do homem e ninguém dúvida de sua necessidade. A Indústria Cultural faz da arte o sono dos homens: naturalmente inquestionável. A grande mídia encobre o tempo livre com certo ar místico e envolvente, como uma forma subliminar de educação comportamental, de consumo desenfreado, aceitação e entrega.


No Brasil, a censura extinta oficialmente com a ditadura foi recriada de forma na qual ou se está inserido ideologicamente – ou seja, socialmente conivente – ou se é excluído, de muitas formas, da sociedade. Para viver livre da ideologia baseada na aparência do espetáculo, seria necessária a independência econômica suficiente para não ser subjugado ou colocado em condição de desemprego (sem dinheiro e sem participação econômica e social). O mercantilismo globalizado é veiculado como bom conselho: “consuma e seja feliz; o dinheiro compra o que você quer”. No entanto, o esquema engendrado para esta conquista remete-nos ao mitológico Tântalo: sentenciado a não saciar fome e sede, ao aproximar-se da água esta escoava e ao erguer-se para colher frutos das árvores, os ramos moviam-se pra longe de seu alcance. Os grupos dominantes tentam manter até o pensamento como hábito privado e exclusivo de seus partícipes. A maioria da nação busca apenas minimizar as condições degradantes de alimentação, saúde, ensino, habitação e lazer. 


Para melhor compreensão, Armand Mattelart em História das Teorias da Comunicação explica: “aparelhos significantes (escola, igreja, mídia, família etc.) têm por função assegurar, garantir e perpetuar o monopólio da violência simbólica, que se exerce sob o manto de uma legitimidade pretensamente natural”, isto é, a garantia deste monopólio não se limita ao setor artístico.

As novas tecnologias propiciaram ainda novas formas de trabalho e cultura, mas também criaram novos meios de controle e vigilância, resultando em manipulação mais eficaz, sutil e oculta. A maximização da mídia aumentou também seu poder de atuação enquanto veicula idéias alienantes da realidade, divulgando uma espécie de cultura com propósito de perpetuar um sistema previamente estabelecido.


A massificação de um evento cultural nas mídias como, por exemplo, o carnaval, engendra no indivíduo a sensação de universalidade e a idéia de recusa participativa pode significar exclusão social ou isolamento durante a ocorrência do evento. Não acompanhar a evolução de um campeonato futebolístico significa excluir-se de alguns assuntos de capa dos principais jornais do país. Hoje, é comum em debates ou conversas, perguntas como: “mas isto é mesmo arte?”, pois perdemos o real conceito histórico e social de música, literatura, poesia e afins.


O aumento dos meios de comunicação pelas novas tecnologias oferece a idéia de liberdade de escolha ao indivíduo, idéia vinculada principalmente à internet. Usuários têm a sensação de buscar suas fontes de informação e “criar livremente” seus pensamentos. Mas a mídia continua massificando assuntos abordados e até opiniões falsamente opostas sobre um acontecimento, pois continua hábil em esconder os temas que não lhe interessam. Mas com toda esta aparente liberdade de escolha continuamos ouvindo apenas estilos musicais veiculados na mídia, lendo best-sellers e comentando sempre os mesmos assuntos. Por isso, devemos perguntar: “será que sou tão livre quanto penso?”.


Não podemos considerar uma escolha qualquer como certa e outra errada, desde que saibamos os reais motivos de consumir, conscientemente, e questionar seu real valor em nossas vidas. Muitas de nossas atitudes são movidas culturalmente, ou seja, pelas mãos da Indústria Cultural, e tomamos importantes decisões baseados em “por que as coisas são assim”. Em contraponto, não precisamos deixar de ouvir Beatles por ser a banda mais famosa do mundo, mas basta que esta escolha (influenciada culturalmente) seja acompanhada de raciocínio crítico, tento em mente que questionamento e pensamento não se adquirem numa banca de revista ou site da internet, pois isto depende de exercício prático, leitura, informação e conhecimento.


(Texto escrito por Marcelo Augusto D'Amico)

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