09/12/2008

Não gostam dos cadernos culturais


Por Alberto Dines em 9/12/2008

O "Caderno B" do Jornal do Brasil – inventado por Reynaldo Jardim em meados dos anos 1950 – foi uma síntese do que hoje se chama "jornalismo cultural". Começou reunindo as magníficas sobras do dia anterior e aos poucos transformou-se num caderno de cultura.
Não era um suplemento literário, ensaístico, como os do Estado de S. Paulo, do Correio da Manhã e Diário de Notícias, montados em cima de rodapés assinados pelos "nomões" da crítica literária na boa tradição do feuilleton europeu. O "B" era uma pausa para o jornalismo de qualidade, grandes fotos, textos esmerados completos, grandes entrevistas, resenhas estimulantes, pausa para o prazer de ler e o dever de pensar.
O lado B do jornalismo é o seu lado verdadeiro, garantidor da sua sobrevivência ao longo de quatro séculos. Jornalismo cultural, cadernos de cultura e histórias bem contadas fazem parte do mesmo núcleo de resistência à homogeneização e à descartabilidade.
Este jornalismo cultural está sendo sitiado e lentamente esvaziado pelo comercialismo dos releases das editoras e produtoras, pelas lantejoulas do show-biz, pelas diferentes formas de charlatanice modernista e demais sub-subprodutos da sub-subindústria cultural.
Vanguarda da retaguarda
Inspirada e higiênica foi a reação da Folha de S.Paulo ao rememorar os 50 anos do seu segundo caderno através da publicação de Pós-tudo, 50 anos de Cultura na Ilustrada, de Marcos Augusto Gonçalves [ver remissões abaixo]. A iniciativa foi devidamente dimensionada pela coluna do ouvidor, Carlos Eduardo Lins da Silva, no domingo (7/12, pág. A-6), com duas referências lapidares: o romance As Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac e o antológico filme A Malvada ("All about Eve", 1950), com Bette Davis, direção de Joseph Mankiewicz e fotografia de Milton Krasner.
O Itaú Cultural forneceu para este salutar revival uma magnífica moldura com um evento que nada tem de eventual – o "2º Seminário Internacional Rumos do Jornalismo Cultural" (3 a5/12).
Movimentos deste tipo, frutos da cooperação entre jornais, jornalistas e grandes empresas, podem fazer mais pela preservação da qualidade jornalística e dos seus valores intrínsecos do que a política de patrocínios aparelhados empreendida pelas grandes estatais.
Esta salutar efervescência não pode deixar de ser examinada à luz das doutrinas reacionárias que prosperam à sombra das grandes entidades jornalísticas.
Na segunda-feira (1/12), o Estado de S.Paulo e o Globo publicaram em suas páginas de opinião (respectivamente A-2 e 7) o bestialógico regular assinado por Carlos Alberto Di Franco, o representante da Universidade de Navarra, braço midiático da poderosa Opus Dei na botucúndia. Diz Di Franco:
"Os jornalistas precisam escrever para os leitores. É preciso superar a mentalidade do gueto, que transforma o jornalismo num exercício de arrogância. Cadernos culturais dialogam consigo mesmos. O leitor é considerado um estorvo, um chato" (ênfase deste OI).
Insatisfeito com a bravata que o coloca na vanguarda da retaguarda e junto ao ideário do franquismo, o guru vai em frente: "O jornal precisa moldar o seu conceito da informação, ajustando-o às necessidades do público a que se dirige". O homem está à beira do delírio quando sentencia: "Os jornais precisam trabalhar com letras grandes".
Pistola na cinturaAntes o grupo de "consultores" navarristas defendia a tese de que uma imagem vale dez mil palavras, depois decretou que toda matéria precisa ser esquematizada através de um infográfico, caso contrário não será entendida, agora querem letras grandes. Amanhã defenderá um novo padrão retórico na base do "Ivo viu a uva".
Letras grandes, idéias pequenas, valores microscópicos – viva o mercado! Ao contrário da Companhia de Jesus tão bem representada pelo padre Antonio Vieira, a Opus Dei sempre apostou na simplificação e na filosofia de resultados. Não quer jornais melhores, mais densos, quer jornais esquálidos, esvaziados de indagações. Não quer letrinhas, nem cadernos de idéias. Quer o "tchan", a simplificação.
Dom Di Franco, ao contrário de Goering, não anda com uma pistola na cintura. Ainda bem, Mas quando houve a palavra cultura tem vontade de acender uma fogueira.

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