16/12/2008

Qual sua imagem sobre o tema?


Desde o surgimento da fotografia, depois do cinema e televisão, as sociedades se tornaram baseadas em imagem, em “estar visível”. A imagem separada do objeto real guia ações, anseios, e aparências. A representação imagética ganha valor acima de outros. A influência fotográfica na publicidade desde o século 19, o cinema popularizando hábitos questionáveis como fumar, são apenas dois exemplos.

A supervalorização da imagem cria distorções, nas quais se expor torna-se mais importante que qualquer feito social, artístico ou intelectual. A imagem em si, não é maléfica e nem benéfica: é apenas uma ferramenta que terá seu uso marcado por nossas intenções. Mas a supervalorização imagética criou a perda de valores próprios, incorporando novos que são determinados por números ou idéias abstratas, sem pensamento ou desejo construído conceitualmente: é a imagem pela exposição e a exposição pela imagem. Concedemos tempo aos mais vistos e acessados e deixamos de ouvir, ver e ler os de pouca visibilidade. Basta a notícia do filme como “a produção mais cara da história” para corrermos ao cinema, ou o anúncio do “livro mais vendido da atualidade”, para se tornar depositário na estante. Fixamos diferenças individuais em aparência, espetacularmente e imageticamente, mas continuamos essencialmente iguais: sujeitos formados pelo controle e distorção social.

A visibilidade midiática guia até mesmo o jornalismo. Não concebemos tribo indígena como parte integrante da raça humana, com defeitos e qualidades; só compreendemos como real os índios que vemos na mídia empunhando facas e ameaçando os brancos. A exibição midiática se torna inquestionável: "li no jornal, assisti na televisão e confirmei num portal da internet". Fora deste circuito, qualquer realidade será passível de contestação. Mesmo a realidade microcósmica, ao nosso redor, pode ser encarada como exceção diante da “realidade” esmagadora exibida pelos veículos de comunicação: basta um carioca dizer que nunca foi assaltado para ser chamado de exceção (e conheço muitas exceções).

A exposição de qualquer indivíduo e sua visibilidade deveria ser conseqüência da realização de um trabalho em qualquer Área de Conhecimento, trazendo evolução social ou artística, e não se tornar o objetivo em si: estar exposto, por qualquer motivo, com intuito de se tornar celebridade. A cada dia, valores de dignidade e êxito somente são conferidos aos que se exibem na mídia, como se antes não existisse indivíduo e o trabalho anterior fosse mero passatempo ou caminho para o “real” sucesso: estar na mídia. 

Na manhã do dia 02 de dezembro de 2008, no programa de Ana Maria Braga, um pretendente a participar do Big Brother Brasil revelou eufórico: “eu quero ser famoso”. Porém, a afirmação parecia incompleta: famoso como ator, professor, cientista, cantor, compositor, médico, publicitário, jornalista, cozinheiro, costureiro. Nada disso, espantosamente a resposta não estava incompleta (ao menos para ele), pois em língua portuguesa, famoso deixou de ser adjetivo para se tornar substantivo (ocupação profissional), e isto deve ser verossímil em inglês, francês, espanhol, assim por diante. A “era imagética” transformou o invólucro em substrato: a embalagem mais bonita e exposta passa maior confiança de um produto melhor. O mesmo raciocínio aplica-se ao indivíduo que além de ter “boa aparência”, deve estar de acordo com o estereótipo de seu cargo profissional ou personalidade, pois isto facilita a “engenharia do consenso”, descrita por Peter Berger:

“O profundo desejo humano de ser aceito é o que nos conduz ao consenso. Esse desejo pode ser manipulado com toda eficiência, como bem sabem os terapistas de grupo, os demagogos e outros especialistas desta engenharia”.

A supervalorização da imagem criou ainda verdadeiras aberrações: assistindo ao documentário “Ônibus 174” (o assunto merece tratamento mais profundo noutro texto) ficou claro que não mataram Sandro frente às câmeras porque ninguém gosta de ver um cérebro explodir, mas depois da atitude inesperada, ao sair do ônibus, e do incidente trágico da morte da refém, quando dentro do camburão (onde não estamos vendo), sua morte nem foi questionada (pois era também desejada pela maioria). Assim, não gostamos de ver um homicídio (pois a imagem “choca”), mas gostamos de saber que este homicídio aconteceu quando se trata de um criminoso (uma espécie de pena de morte informal, consensual e arbitrária). Até para pedir a opinião de alguém dizemos: qual a sua imagem sobre este assunto? Estamos repletos de imagens e escassos de conteúdo.

(Via Marcelo A. D'Amico)

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Um comentário:

  1. Especialmente a leitura tem sofrido bastante com a imagem, a era da imagem.
    Estamos transformando obras geniais como Dom Casmurro em mini séries, o que parece que a leitura a partir disso se torna dispensável.
    Infelizmente, no meu trabalho como professor posso atestar que a maioria gosta das figuras, das letras grandes, das fotos. No caso do cinema, o que já é uma imagem, eles preferem cenas de ação. Quando há ação, especificamente mortes, tiros, sangue, o interesse deles é outro.
    Acredito, tento acreditar que estamos numa época de transição. Porém, não vejo pontos de encontro entre essas transformações, apenas o caos completo.
    Ou nos ajeitamos, nos organizamos, ou a leitura e a sociedade será apenas um fenômeno de mídia, nada mais.

    Excelente artigo!

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