14/01/2009

Caetano Veloso X Alexei Bueno - notas sobre a polêmica da vez

(Escrito Por Leandro Jardim, Rio de Janeiro (RJ) · 13/1/2009 e publicado no Portal Literal)

Duas ou três notas preliminares: é muito bom ver que ainda pode haver polêmica¹ no mundo da poesia, em especial quando pode questionar os cânones. Melhor ainda que ela possa ser estampada na contracapa do caderno de cultura de um dos jornais mais importantes do país. Apesar de algum conteúdo jornalístico, este texto se pretende mais pessoal e opinativo.

Para quem está conhecendo o assunto agora, primeiro aos fatos:

Fato 1 O livro "Uma história da poesia brasileira" (G. Emarkoff, 2007) de Alexei Bueno dá um tratamento claramente crítico e irônico ao movimento concretista brasileiro. Essa semana, conforme relatou a coluna Gente Boa d'O Globo de terça-feira, tal passagem foi atacada pelo compositor tropicalista. "Caetano Veloso, em seu blog 'Obra em progresso', saiu em defesa dos poetas concretistas criticados por Alexei Bueno no livro 'A² história de poesia brasileira'. 'É simplesmente abominável', diz Caetano. 'Já na introdução embirrei com o português desse poeta respeitado e erudito. Parece coisa ruim.'"

Fato 2 A mesma nota do jornal dá direito de resposta a Alexei, que diz "O Caetano sempre foi uma espécie de aliado desses concretistas num esquema uma-mão-lava-a-outra. Eles lhe davam certa aura erudita - da qual ele nunca precisou - e recebiam em troca certa aura popular. Crítica não se faz embirrando com tal ou tal coisa, mas com acuidade e análise. O que não entendi mesmo é o 'Parece coisa ruim'. Será alguma coisa de Candomblé?". Estabelecida a divergência, uma interessante reportagem de Leonardo Lichote na contracapa de sexta-feira do mesmo caderno do jornal prova que a polêmica reverberou. Além de nova voz aos envolvidos, a matéria traz a opinião de outros integrantes da classe, como os poetas Ferreira Gullar, Eucanaã Ferraz e Décio Pignatari (um dos fundadores do movimento concretista), além do também Editor Sérgio Cohn, só gente de primeiríssima.

*** Tendo em vista que eu li (e recomendo³) todas as 433 páginas do referido livro do Alexei com muito gosto, e que sou fã de Caetano Veloso (seguramente uma das pessoas mais importantes - e incríveis - da música popular brasileira de todos os tempos, e meu cantor favorito), não é de admirar que a polêmica tenha me causado enorme excitação e a necessidade de me manifestar.

À ela: minha opinião é que ambos tem parcela de razão e são astutos polemistas. A passagem que comenta os concretistas no livro "Uma história..." realmente comete um daqueles deliciosos pecados. Ao criticar (com fundamentos) o movimento concretista abusando do sarcasmo, Alexei oferece ótimo entretenimento ao leitor, mas não reconhece o devido respeito conquistado pelos concretistas tanto na academia nacional quanto internacionalmente (uma das principais marcas que o Brasil deixou na arte mundial). Caetano percebeu isso e, como se sente diretamente envolvido (o que não deveria), não gostou da ofensa e quis defender o movimento que apoiou (e apóia). Isso sobre o tal fato 1. A réplica do Alexei, porém, também foi alvo de comentários na matéria de sexta-feira. Como ficou claro, é bem notória a diferença de princípios entre a tropicália e os concretos, convergindo apenas na postura de vanguarda. Mas é natural que artistas contemporâneos, mesmo que de estéticas distintas, se apóiem mutuamente na promoção de suas obras e idéias. Normalmente nesses casos (embora nem sempre, é preciso frisar) há verdade (é possível - e louvável - admirar algo diferente do que se faz) e há igualmente troca de interesses (artistas unem-se para auto-promoção conjunta desde sempre). Isso só é problema se feito com falsidade, por puro oportunismo. O que não é o caso dos concretos, dada a importância que o próprio Augusto de Campos tem no estudo da canção brasileira, em que pese o basilar Balanço da Bossa, de sua autoria.

Do embrólio, ficam a necessidade e o sabor das provocaçãoes e pensamentos críticos.

1 - Em tempo: Ainda que de forma indireta - prática e intencionalmente - é possível interpretar a atitude do Alexei por uma lado positivo: ela ataca uma certa bandeira branca intelectual existente no mundo atual da poesia e - de certa forma - no âmbito artístico geral. Claro que ele não é o primeiro, nem o único, arrisco dizer que (felizmente) já é um movimento crescente, mas o fato (que acredito) é que tanto a evolução quanto a divulgação da nossa literatura ficam prejudicadas quando os autores adotam uma posutra de relativismo total, onde tudo é válido e pertinente: "sempre haverá um nicho específico, quem sou eu pra criticar". A partir de agora corro o risco de confunfir o leitor, mas prossigo. E isso até é verdade, o mundo atual comporta espaço pra qualquer vertente que exista ou venha a surgir. Mas, se perdemos a capacidade de dizer o que não gostamos, o que nos parece ruim, fraco ou falso, se não apontarmos a roupa do rei nu, estamos cometendo a omissão. E aí qualquer praga (para usar um termo do meu blog) se desenvolve.

2 - O erro no título do livro descrito na reportagem tem seu peso. Ao escrever "A história" (e não "Uma história", como é o título correto) omite-se a postura autoconsciente a respeito da parcialidade do conteúdo do livro, que Alexei deixa bem clara.

3 - O poeta Eucanaã Ferraz, que admiro e respeito, discorda de mim, opinando que o livro "não tem importância alguma".

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