23/02/2009

Carnavália, Globália e afins...

Por força maior, neste carnaval não viajei, e quebrei o objetivo de não passar carnavais no Rio de Janeiro. Diante do impasse, resolvi acompanhar o grande evento popular carnavalesco carioca global da Sapucaí. Não fui para a avenida e limito-me a acompanhar desfiles em casa, entre trabalhos e estudos.

No sábado assisti pela CNT os desfiles da LESGA (Liga das Escolas de Samba do Grupo de Acesso), uma espécie de segunda divisão. Fiquei impressionado com a ótima cobertura, e pela primeira vez consegui assistir aos desfiles e compreender linearmente as histórias pretendidas pelas Escolas. Parabéns pra CNT.

No domingo, resolvi assistir pela Globo o desfile da LIESA (Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), o grupo especial, e não posso deixar de lamentar a cobertura global, inferior se comparada com a CNT, uma emissora menor que a Globo e com menos recursos. Isto, por si só, foi suficiente para me dar desconforto. Sem contar com a alegria e preferência dos repórteres e locutores da Globo pela Beija-Flor, preferência esta que pode ser um pouco explicada pela imagem de Boni, da Globo, com camisa de "Diretoria" no desfile da Beija-Flor. Caso o leitor queira saber um pouco mais, basta acessar o blog, http://bloglog.globo.com/boni/ e conferir esta "tendência" global pelas palavras do Boni. Deste modo, fica fácil entender a mega-exposição da Beija-Flor nos programas "Mais Você", Big Brother, etc.

Falando em cobertura jornalística, faltou a Globo citar que o presidente de honra da Beija-Flor, Aniz Abrahão David, mais conhecido como Anízio (nome citado muitas vezes por Neguinho durante o desfile), está em prisão domiciliar, sob acusação de comandar quadrilha de caça-níqueis e lavagem de dinheiro no Rio e Natal/RN, além das suspeitas de compra de votos dos jurados no carnaval passado: assuntos esquecidos pela maioria da população. E por falar em dinheiro e carnaval, vale relembrar de uma notícia publicada em 4 de fevereiro de 2008, no jornal O Globo:

“Apesar da sucessão de processos na Justiça, os bicheiros parecem ter cada vez mais prestígio com os órgãos públicos. Comandada por contraventores, a Liesa receberá neste ano R$ 85 milhões em contratos com órgãos públicos e a iniciativa privada. A Liga recebe recursos dos governos federal, estadual e municipal, totalizando R$ 25 milhões. São R$ 12 milhões da União, através de patrocínios da Petrobrás e de empresas da qual a estatal é sócia; R$ 4 milhões de subsídios do governo estadual; e R$ 8,8 milhões da prefeitura. Segundo as investigações da PF para a Operação Hurricane, a Liga era usada para atender os interesses de uma quadrilha. Em 2006, além do Sambódromo, a Liga passou a administrar um patrimônio de R$ 100 milhões: a Cidade do Samba”.

Ainda em 2008, uma CPI na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, investigava as relações entre a Globo e a LIESA:

— O contrato entre o Município e a contratada (Liesa) permite, ainda, que a mesma negocie, direta e livremente, o milionário direito de imagem com as emissoras de televisão. Nesta questão, causam estranheza dois fatos: o de a Liesa realizar e assinar um contrato válido por cinco anos com a REDE GLOBO (até 2009), quando o contrato firmado entre a Liga e a Prefeitura é realizado anualmente; e o da coincidência do término deste contrato entre a Liesa e a REDE GLOBO e o término do mandato da atual administração municipal, considerando que o contrato entre a Prefeitura e a contratada para o Carnaval de 2009 é firmado ainda em 2008.

Um de meus professores na Faculdade de Jornalismo, o Ivo Lucchesi, fez importante comentário em 2005 sobre o monopólio global:

— Qualquer tipo de monopólio, principalmente em se tratando de meios de comunicação, é nefasto. A Rede Globo assim procede não apenas em relação ao Carnaval, igualmente o faz quanto à Copa do Mundo, extensivo a todos os profissionais que lá atuam. Portanto, as implicações dessas estratégias de controle, no melhor estilo do que conceituou Gilles Deleuze, são graves. Elas favorecem o congelamento de modelos, deixando a falsa sensação de que outros não há. Há tédio maior do que assistir ao desfile das Escolas de Samba com aqueles sucessivos cortes narrativos?

Além da Beija-Flor, a Rede Globo nitidamente privilegia a Grande Rio e a Imperatriz Leopoldinense no desfile do Rio de Janeiro, que recebe apoio municipal, estadual e federal, tendo as presenças do prefeito e governador do Rio, e também do Presidente da República, Lula, na Sapucaí. O mesmo Presidente da República que foi beijado por Neguinho da Beija-Flor, que casou-se na Avenida, e teve o casamento transmitido pela Globo, que por sua vez interrompeu o desfile da Mocidade para transmitir o casório. A mesma Mocidade que já teve as bençãos de Castor de Andrade, o bicheiro que já foi amigo de Boni, o mesmo Boni que desfilou com camisa de Diretoria pela Beija-Flor e hoje é amigo de Anyzio, que foi preso por...

Só pra finalizar, falando em Globo, Samba e Rio, lembrei-me da Cidade da Música, obra faraônica de César Maia na Barra da Tijuca, inaugurada sem mesmo estar acabada e que recebia o nome de Roberto Marinho. Acontece que existem indícios de faturamento exagerado nos custos da obra (que ainda está em obras), além do pedido da família Marinho para retirar o nome de Roberto Marinho desta Cidade da Música. O fato é que este nome já existe desde agosto de 2003 e somente em dezembro de 2008, uma semana antes da inauguração da obra que ainda está em obras, a família Marinho achou que o nome poderia prejudicar as relações da Rede Globo na obtenção de patrocinadores. Por quase seis ano nunca atrapalhou em nada, mas depois das suspeitas e trapalhadas envolvendo a Cidade da Música, parece que a história mudou. Bem, hoje tem mais carnaval. Boa folia para todos, porque aqui no Rio de Janeiro, é folia de Janeiro a Janeiro...

Um comentário:

  1. Parabéns pelo relato sobre este o tantas outros carnavais.
    Realmente, é muito chato assitir ao desfile pela Globo.Uma porque só ela transmite e outra, a cobertura é horrível, os comentários são pobres e os comentaristas ruins (lembrando que Cleber Machado E Glenda bla bla bla são da área esportiva).
    A cobertura da LESGA foi muito bacana pois consegui sentir um carnaval de verdade, em que as pessoas fazem tudo com muito esforço e pouco dinheiro ( e prestigio ) se comparado aos desfiles de Domingo.
    Me causa desconforto ver os desfiles de Domingo e Segunda-feira. São escolas compradas, que perdeu a essência da história dos desfiles cariocas. Parece que to vendo Amaury Jr. que só mostra parque de diversão pra rico. Engraçado este comentário pois as Escolas de Samba também conta com a pressença massante da comunidade, que neste caso, torna-se acessório.
    E olha o neguinha ai geeente, chora cavaco...
    A bateria da Mocidade é e sempre foi nota 10 e o desfile não foi tão bonito mas isso não é motivo pra Rede Globo fazer a pior cobertura da noite. Não consegui ver a escola que gosto na sequência do enredo. e antes ue o últio carro cruzasse a linha de chegada, tive que ver o casamento do Neguinho. Puta pau no saco né..

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