24/02/2009

Crianças sem carnaval...

Alguém se lembra da menina jogada pela janela de um prédio ano passado? Aquela menina, classe média, que sensibilizou o Brasil? Ah, o nome era Isabella, mas o sobrenome? Ah, sim: Nardoni! Com certa dificuldade lembramos do caso exposto exaustivamente pela mídia, ocorrido no seio de uma família classe média, mas infelizmente, milhares de crianças pelo país continuam recebendo maus tratos, e na maioria, os agressores são os pais. Estas crianças, agredidas, abusadas sexualmente ou mesmo assassinadas, crescem aos milhares em solo tupiniquim, porém, não recebem o olhar atento da mídia.

No dia 17/02 passado, "O Estado de São Paulo" publicou:
"Quanto maior o poder aquisitivo da família, mais velada fica a violência doméstica contra crianças e adolescentes. Quando se mora num apartamento de classe média, a prática de denúncia não existe. Quando há denúncia, é a escola que encaminha. Na cidade de São Paulo, 307 crianças e adolescentes morreram vítimas de violência doméstica entre 2000 e 2007. Em números absolutos, foram assassinadas no Brasil 8.700 crianças de 0 a 19 anos – em 2006, segundo o Ministério da Saúde. Em 1995, eram 5.638 assassinatos".

Parafraseando Nelson Rodrigues, parece que o brasileiro só é mesmo solidário no câncer, e somente nos casos fatais. No mais, tudo acaba em pizza e carnaval. Um caso recente, divulgado pela imprensa foi noticiado assim:

"O gerente de projetos Jacques D´Arc Cristiano Elias e Silva, de 46 anos, foi preso em flagrante na noite de anteontem acusado de abusar sexualmente de uma garota de 10 anos no Brooklin, zona sul de São Paulo". Importante ressaltar que Jacques é pós-graduado em Tecnologia da Informação pela USP e pai de duas filhas, enquanto a garota de 10 anos fazia malabarismos na rua para ganhar uns trocadinhos. Lígia Martins de Almeida, em artigo publicado no Observatório da Imprensa, brilhantemente escreveu:

"Em poucas linhas, temos o retrato de uma tragédia que merecia um desdobramento até maior do que o caso Isabella: uma menina de 10 anos, que não frequenta escola e faz malabarismos na rua para ganhar uns trocados, agredida por um homem de nível universitário, que é pai de duas meninas da idade de sua vítima.
Talvez esteja na hora da imprensa fazer um pouco mais do que noticiar. A imprensa escrita pode discutir o assunto e cobrar das autoridades, ONGs, escolas e educadores uma atitude mais objetiva para tentar mostrar às crianças que podem e devem se defender. E a televisão, que gasta tanto tempo com bobagens, poderia começar uma campanha de educação dos pais, mostrando que até uma ameaça de pôr a criança para fora de casa é um ato de agressão, e deve ser evitado. O que a mídia tem a obrigação de fazer é mostrar que a violência contra as crianças existe – existe em todas as classes sociais e precisa ser combatida".

Concordo com as palavras da jornalista, mas Lígia, pedir para que a televisão deixe de passar bobagens e comece uma campanha de educação vai contra a essência da televisão brasileira, vai de encontro com as políticas nacionais de (des)educação nacional e, principalmente, contra todo este "fast-food" informacional que nosso jornalismo se tornou, no qual seu lema máximo é: "noticiar sem apurar". Apurar pra quê? Educar pra quê?

Se algo der errado, como no caso de Paula Oliveira na Suíça, a mídia deixa o caso pra lá, como fez com Paula, ou muda o foco da notícia, ao invés de se desculpar por criar desconforto entre dois Estados publicando notícias sem a menor apuração. Afinal, estamos no Brasil, terra de carnaval, samba, funk, futebol, mulheres, praias e cerveja, e a mídia tupiniquim nunca foi severamente punida nem cobrada por nada, com exceção de poucos jornalistas e cidadãos sérios deste país. Infelizmente, milhares de crianças em 2009 não chegarão a ver o carnaval de 2010, e o povo brasileiro continuará participativo apenas em Big Brothers e bobeiras afins. O Brasil é ufanista e analfabeto funcional, e milhares de crianças são vítimas sem voz deste mesmo Brasil.

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Um comentário:

  1. É a sociedade do Espetáculo, imagina a nossa sociedade sem esses acontecimentos, não teria razão para existir jornais de direite ou de esquerda, não existiria jornal. É preciso existir esse tipo de coisa para que o sistema funcione. Infelizmente.

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