26/03/2009

Conto – Sangues e páginas

Tenho um amigo letrado que vive me recomendando certas leituras. Ler às vezes me distrai, quando não estou com a cabeça cheia de confusões. O Fred, este meu amigo, também é metido a poeta. Digo “metido” porque não sou muito entendido desta arte, mas gosto de ler algumas poesias. A maioria me enche o saco falando coisas que só o próprio poeta entende. Imbecil.
Um dos livros que me mandou ler foi de um tal de Rubem Fonseca. Gostei do cara: cheio de maldade e com histórias que me faziam viajar, até certo ponto. Digo “até certo ponto” porque estava lendo “O Cobrador” e parei quando li o nome da moça, Ana Palindrômica. Porra, sacanagem. Não tenho dicionário e não vou pedir um emprestado. Devolvi o livro e disse que achei uma merda, mas me identifiquei com ele. Não sou matador profissional, mas já empacotei uns caras. Digo "não sou matador" por causa do livro do Fonseca, cheio de sangue. Trabalho com a lei, mas muitas vezes a lei não ajuda em nada, e nesses casos o cano resolve.
Outro livro que meu amigo emprestou, não lembro o nome do autor, mas sei que termina com Poe. Tinha umas coisas interessantes. O cara também parecia ser dos meus: meio nebuloso e sarcástico. Apaixonei mesmo num conto da Lygia Fagundes Telles, tanto que até decorei o nome dela. A descrição que tinha de uma menina, que acho que era meio retardada, foi fantástica, inesquecível. Gosto de ler para distrair a mente.
Meu trabalho não ajuda muito: é um fardo pesado. Não tenho como arrumar outro emprego, sinceramente não. Faculdade, não fiz. Estudo, o que tive, esqueci. Resta-me mesmo a arte das ruas, a luta das realidades em confronto. Claro que nunca deixo nenhum de meus colegas perceberem que carrego livros comigo: todos iriam rir. Seus cérebros adoram apenas assuntos bestiais: sexo, sangue, sacanagem e dinheiro. Digo “bestiais” com propriedade. Basta ouvir suas conversas pra entender. Não me considero um cara sanguinolento, mas tem vezes que é preciso agir, e o sangue é conseqüência das besteiras que o cara faz. Na maioria das vezes procuro terminar tudo na paz. Eu adoro a paz.
Voltando aos livros, Fernando Pessoa é um cara maneiro. Ele enganou muita gente, dizendo que tinha outros nomes e lançando livros, e isso já faz tempo. Hoje em dia, com a internet, iriam descobrir as artimanhas do cara rapidinho, mas naquela época, passou. “O poeta é um fingidor”, só decorei este verso. Digo “decorei” porque eu o utilizo nas vezes que preciso usar o cano, pois eu digo para mim mesmo, em silêncio: eu também sou um fingidor, e pá! Já era. Esse não incomoda mais ninguém.
Semana passada fui na casa do Fred. Olha só: o meu amigo estava lendo um livro chamado “O Anticristo”, e disse que era filosofia. Eu falei pra ele: cara, tira isso de perto de mim, pois minha vida já é um inferno e não gosto de diabo, nem fodendo. Todo dia, quando saio de casa, peço pra Deus me proteger. Sempre que me despeço de alguém eu digo: vá com Deus irmão. Cara, o Rio de Janeiro tá foda. Nada impede de a gente estar andando por aí e tomar uma bala na cabeça. Nessa cidade tem muito cara que não está nem aí. É por isso que gosto do meu amigo Fred, um irmão pra mim, e de alguns livros que ele me empresta. Agora ele me emprestou um livro chamado “Blecaute”, mas eu vou devolver. A história se passa em São Paulo, e eu não gosto muito de paulista.
(Conto escrito por Marcelo Augusto D’Amico)

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