11/03/2009

Eu,
Por nome
Tenho Virgílio.
Surgi num canto,
Qualquer canto,
Qual encanto
Rasgando a terra...
De cada fissura do chão
Saía uma célula,
E de todas em união,
Formou-se uma perna,
Outra perna,
Meus braços,
Antebraços:
O corpo todo então!
Belamente formado,
Já sabendo que o tempo
Lhe criará toda espécie
De deformação...
Abri meus olhos
Quase mudos de expressão.
Era o campo
E o contra-campo da visão.
O branco e o preto,
O homem e a mulher,
A luz e a sombra dentro de mim:
Informação
Em formação.
Deformação engendrada
Para evolução sem fim...
Olhei o mundo ainda perplexo,
E deixei cair
Num doce amplexo,
Uma espécie de oração:
(Silêncio)
O silêncio estendido
Torna-se o sol desta canção.
O som mais quente
Aquece o frio da solidão.
O vento amortecido
Jorra em mil ouvidos
Palavras com paixão.
Todos coram suas cores e
Bebem felicidade...
Permitam, sem imitação,
O homem
Tornar-se alguém,
Caindo em braços,
Caindo,
Segurando mãos,
Lindas ou não,
Sem afundar ou submergir
Na dor da incerteza!
Acue os erros pelos quais farei chorar.
Com tudo,
E sem mais,
Permita-me (se) também amar...
Meus olhos suplicantes,
Sócios inebriantes,
Seguem sonhando
Até o amanhecer...
E no amanhã sendo,
No acordo dando entre vida e morte
Um aspecto fugaz e eterno
Do ser a sonhar...
Sonhar pode ser
O primeiro passo de quem surge
Para a vida real.
Nascer
Pode apenas dizer
Sobre escorrer pelo canal vaginal.
Eu, Virgílio,
Surgindo,
Tenho sentido completo.
e EU surgi complexo,
Mesmo sem histórias originais,
Feito pecados adquiridos...
Tinha pouca memória de mim.
(Hoje tenho mais.)
E nem me lembrava de infância.
(Hoje tenho mais.)
No corpo reside a alma
E nisso reside minha crença.
Todo o resto são lendas...
Governo, não tenho.
Sou descomediado
Ao que
Concerne o peito.
Tenho idéias, pensamentos:
Se ontem fui peixe,
Hoje sou mais...
Não faço promessas
Mas conto estórias;
Tenho sangue de vitória e possuo vontades:
Se a força é o teu quorpo (santo)
Melhor dramatizar...
Abstrato e surdo!!!
Vejo asas
Caindo
Como palavras
Correm em minhas mãos.
Dançam e
Giram intencionalmente
Pelo ar do chão...
Crescem
(Quase tudo cresce),
Mas a vida
Não pode voltar, parar, chorar, ficar, anular, cansar, soltar, sugar, faltar,
titubear, apropinqüar, pontuar, pular, calar, marcar, plastificar, tampar...
Enfim...
Novas palavras novas palavras novas...
...Em mim...
Acumularam-se,
E seus sentidos
Multiplicaram-se.
“Virgílio
Tu cresceste tanto,
Em tanto tempo aos poucos
Que me pareces louco
Ao distanciar-se do fim”.

(Poema retirado do livro "Pantopoema", escrito por Marcelo D'Amico e publicado no endereço: http://recantodasletras.uol.com.br/e-livros/630086)

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