02/04/2009

Conto - Carta aos amantes, de um homem que nunca amou.

Para identificar-me, use Otacílio, nome fictício. Dispensarei aqui formalidades comuns a uma carta. Como adulto, exponho mínima parte de minha pessoa, a qual julgo necessária. Meu assunto é o amor, ou melhor, sua ausência: não dos outros para mim, mas sim, o inverso. Não sou dado a escrever, mas meu português será correto (na medida do possível), e o assunto, necessário, visto que causa confusões.
De início, o fato de nunca ter amado não me incomodava, mas depois de certo tempo, de tantas pessoas com indagações mil, resolvi expor (ainda que em condição fictícia), minha ausência incomum. Existe uma verdade em mim que muito incomoda: nunca amei ninguém. Sem mistérios, sem poéticas e sem literatura. Simplesmente, nunca amei. Surpreendo-me com novelas, filmes e livros que tecem enorme dramalhão acerca do amor com suas dores e saudades. Já pratiquei, e ainda pratico, o sexo, regularmente. Desconheço, porém, qualquer sentimentalismo atribuído ao amor. Pensar o dia todo numa pessoa, chorar de saudade, casar, para mim, é impensável, fora de questão.
A ausência plena de amor nunca me incomodou, mas a insistência chata de pessoas questionando incessantemente sempre que exponho este assunto, realmente me enerva: a ponto de parir estas palavras. Engraçado é que as pessoas me provocam raiva, e dizem que a cólera é o oposto de tão nobre sentimento (amor), mas só conheço, então, um dos extremos. Convivi com mulheres maravilhosas, seres de rara sensibilidade, mas nunca deixei minha vida estagnar para ficar olhando o céu e amando platonicamente. Num certo período de minha vida, cheguei a pensar em ser padre por conta disto, mas logo desisti, pois não amo ninguém, e não amaria também meus fiéis, nem a Deus.
Chega a ser hilária, não fosse tão trágica, a comoção alheia para com minha ausência de amor: tão sentimentais e questionadores e indignados com minha condição. Ao mesmo tempo, matam e atropelam e espancam milhares de pessoas todos os dias. Atos estes, possuidores de um mesmo gênero de autoria: o ser humano que tanto ama. Isto sem contar o genocídio, suicídio, estupro, roubo, vícios e assim por diante. Como podem indignar-se comigo? Eu é que lhes dou minha indignação plena e consciente, homens de todo amor, seres que de tão possuídos do nobre dom, cometem atos impossíveis de explicação. Mesmo assim, explicam tudo, como verdadeiros advogados de si próprio e acusadores das culpas alheias. Homens de tanto amor, inundados que estão de sentimentos belos, por favor: deixem-me em paz.
Poderia, eu, concluir meus parcos pensamentos no parágrafo anterior, mas ainda falta-me algo importantíssimo para abordar: os ricos patrões religiosos com suas fotos de família por sobre a mesa. Estes sim, possuem os mais belos e requintados discursos sobre amor: amor aos filhos, amor à família, amor à carreira de sucesso, amor a Jesus, Jeová, amor, amor, amor. Pois bem: eis que nunca recebi um único ato de amor ou compaixão com os tipos pertencentes ao gênero descrito. Nunca. E saibam todos: quanto mais religiosos e apegados à família, tanto mais inescrupulosos e usurpadores dos direitos alheios. Tanto amor transforma-se em aço que apunhala o peito dos desavisados. E antes que alguém relacione minha ausência de amor com ressentimentos, quero deixar claro que inexiste qualquer relação entre as duas coisas. Não amo porque desconheço o sentimento descrito por poetas, músicos e escritores, e a convivência com os seres que tanto bradam ao amor, só me fez pacificar qualquer dúvida que viesse ter a respeito. Mais uma vez: homens inundados de tanto amor, deixem-me em paz.
(Escrito por Marcelo Augusto D'Amico)

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