08/04/2009

Memórias de minha janela: o velho no mundo das novidades.

Não é furo de reportagem, pois são antigas e amplamente divulgadas matérias com este tema. A maioria já presenciou cenas semelhantes: é uma velha e conhecida história num mundo idólatra de novidades tecnológicas e sensoriais, além das posses capitais. Difícil escolher palavras para acompanhar tais imagens, sem correr o risco de ser superficial ou clichê. Difícil ver estas cenas e não as esquecer no momento seguinte, quando elementos como tempo, trabalho, estudo e vida cotidiana inundarem nossos lábios de argumentos líquidos e terminarmos uma breve conversa com o famoso: fazer o quê?
As fotos foram realizadas hoje, por volta das treze horas e trinta minutos, no mesmo cenário de Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Na verdade, estava me preparando para sair de casa quando flagrei estas cenas. Poucos momentos antes, quando os peixes estragados e espalhados pelo chão ainda não eram disputados por ninguém, meu pensamento foi: qual o motivo destes feirantes não utilizarem sacos de lixo? A resposta não foi o momento seguinte, do registro fotográfico, pois se o fosse, seria no mínimo estranho. Em verdade, a pergunta ainda carece de resposta lógica.
De repente, uma senhora e outras duas mulheres se aproximaram dos peixes jogados e abertos no chão, juntos com a água que escorria pelo meio fio. A água era resultado de chuva, limpeza e lavagem de um dia de trabalho na feira. A pergunta sem resposta de momentos antes havia se diluído na cena e nenhuma outra questão ousou se apresentar. Em mim, apenas indignação, tristeza e desejo de registrar o que eu via. Diante disto, até mesmo meu compromisso teve de esperar.
Como dito, a história é antiga e não representa novidade (estado de novo, sempre novo) e, portanto, não deve interessar para as pessoas que vivem neste mundo falsamente renovado, bombardeado de notícias como o sumiço de tal jogador, o ganhador e mais novo milionário do BBB, a farra financeira do Congresso, entre outras. Em certos casos, pode acabar gerando comentários com a simples conclusão de “fazer o quê”? Afinal, todos nós temos dificuldades nesta vida. Manchetes como esta, num jornal, talvez não vendam tanto como o resultado de um clássico de futebol, ou o novo namorado da atriz “x”, ou o aniversário da apresentadora “y”. Vivemos o desejo insaciável da novidade efêmera, talvez, para não defrontarmos socialmente com velhas questões, e enquanto isso, algumas pessoas fazem o que podem para se livrar de uma crise que não é só financeira, mas certamente mundial.
(Fotos e texto por Marcelo A. D'Amico).

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