10/04/2009

A parceria Globo-Protógenes

(Escrito por Luiz Weis e publicado no OI )
Um investigador do FBI usou jornalistas da rede de televisão americana CBS para flagrar em um restaurante de Nova York um encontro entre Bernard Madoff, o megrafraudador confesso que se apropriou de US$ 50 bilhões de milhares de investidores incautos, com um agente federal que fingiu que aceitaria ser subornado por ele. O vídeo, mostrando o suborno, foi distribuído pouco depois à imprensa como material produzido pelo FBI.
A notícia acima é falsa da primeira à última palavra. Foi inventada para dar ao eventual leitor deste blog uma ideia do terremoto que provocaria nos Estados Unidos se fosse verdadeira. Não há na história do jornalismo americano, ou pelo menos na história da grande mídia americana, registro de nada remotamente parecido com essa fabricação.
Mas até o momento em que este texto é redigido, não há notícia de que tenha desabado o teto da maior rede brasileira de televisão e uma das maiores do mundo, em consequência da matéria do jornalista Rui Nogueira, publicada no Estado desta quinta-feira, 9, sob o título “Delegado usou cinegrafista da Globo para dar flagrante”, com o sub “Relatório de 88 páginas de corregedor da PF detalha como foi a colaboração da emissora com Protógenes”.
A ver se a imprensa e o público se darão conta das proporções desse escândalo – e se reagirão à altura da enormidade.
Os principais trechos da reportagem (negritos acrescentados):
“A quebra do sigilo telefônico do delegado Protógenes Queiroz provou que foi ele mesmo quem telefonou para a reportagem da TV Globo para acertar a filmagem da prisão do ex-prefeito Celso Pitta, do investidor Naji Nahas e do banqueiro Daniel Dantas, na madrugada do dia 8 de julho do ano passado, na Operação Satiagraha. Além de provar o vazamento de informações, a investigação do delegado corregedor Amaro Vieira também sustenta que uma equipe da TV Globo de São Paulo foi usada por Protógenes para prestar um serviço tipicamente policial na operação: a emissora filmou, a pedido de Protógenes, o flagrante no restaurante El Tranvia, em junho, em que o delegado Victor Hugo Alves Ferreira recebeu R$ 50 mil dos empresários Hugo Chicaroni e Humberto Brás para tentar evitar o aprofundamento das investigações em cima de Dantas.
Informada sobre os detalhes da investigação de Amaro Vieira, a Central Globo de Comunicação disse ao Estado, por e-mail, que a emissora não se pronunciaria sobre o assunto.
O relatório de 88 páginas do delegado detalha como foi a colaboração da TV Globo com Protógenes. Na ânsia de trabalhar sempre fora do controle dos diretores da PF, o delegado "se encarregou de providenciar uma equipe para realizar a filmagem do encontro" no El Tranvia. Os extratos telefônicos de Protógenes mostram que no dia da gravação ele fez pelo menos 22 telefonemas ou tentativas de ligação para o cinegrafista da Globo Robinson Cerantula, a fim de fazer os acertos da filmagens.
O cinegrafista, segundo o relatório da PF, foi orientado pelo agente federal Amadeu Ranieri Bellomusto sobre a melhor maneira para gravar o encontro no restaurante. "Além de recepcionar os jornalistas no local dos fatos (restaurante El Tranvia) Bellomusto indicou-lhes as posições que deveriam ocupar para capturar melhores ângulos, tendo posteriormente recebido as gravações que, após editadas de modo a suprimir evidência da participação dos jornalistas, teriam sido utilizadas na instrução processual."
As imagens usadas pela PF abasteceram depois o noticiário e foram apresentadas como "um trabalho policial". A íntegra do trabalho da Globo foi encontrado em um pen drive que estava entre os objetos de Protógenes apreendidos na busca realizada pela corregedoria da PF no Hotel Shelton, em São Paulo. Bellomusto chegou a dizer que fora o autor das filmagens, mas foi desmentido pela análise da íntegra das imagens que estavam com o delegado.
A relação Protógenes-TV Globo também ficou evidenciada pelo extrato das ligações telefônicas do dia 8 de julho, quando as equipes da PF saíram às ruas para efetuar as prisões da Operação Satiagraha. O delegado fez pelo menos sete ligações para o jornalista Cesar Tralli, quando as equipes da Globo se postavam para filmar as prisões de Pitta e Naji Nahas.”

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