13/05/2009

Maquiavel: o pensador

Acontecimentos históricos contemporâneos ao pensador Maquiavel
A península itálica estava dividida desde o século XIII, com Estados feudais e repúblicas independentes. Ao centro ficavam os Estados da Igreja, e ao sul, o Reino da Sicília. No fim da Idade Média, o norte tinha desenvolvimento e importante papel político, e o sul, descentralização política. Só no século XIX os Estados seriam unificados, formando a Itália. Maquiavel responsabilizou duramente o papado católico pela dificuldade de unificação. Roma manteve as glórias do Império Romano com um de natureza religiosa (Igreja Católica), sem que se preocupasse com unificação ou formação de um Estado, pois o principal elo da Europa Medieval era a fé. O ano de 1513 compreendia um período de intensas transformações no mundo, que começava a sair do escolasticismo e servidão aos príncipes e cardeais para entrar num período de ciências e de economia.
A teologia foi o conhecimento mais desenvolvido na Europa Medieval, influenciados pela filosofia grega – recuperada pelos árabes ibéricos – deram origens a teorias conhecidas por escolástica. Seus maiores representantes foram Agostinho e Tomás de Aquino. O Direito também fez grandes progressos no período conhecido como Baixa Idade Média. O saber era fortemente controlado pela Igreja. A decadência da escolástica frente às transformações que estavam surgindo, propiciou o aparecimento de uma nova filosofia, que já não era mais ligada a religião. Maquiavel assistiu e contribui para o Renascimento intelectual da época, destacando no pensamento social com “O Príncipe”, falando da aplicação da “razão de Estado” em detrimento das normas morais.
Na península da Itália, as rivalidades internas entre os diversos Estados propiciam invasões estrangeiras que, a partir de 1494, seriam constantes. Maquiavel tem como fundo o período de esplendor cultural de Florença, do mesmo modo como ocorre seu rápido declínio e grande vulnerabilidade. Marcado por instabilidade política, guerras, intrigas e desenvolvimento cultural dos estados italianos, presença da igreja e a disputa, juntamente com França e Espanha, na luta pela hegemonia européia. A alternância de poder na igreja, com papas se sucedendo entre famílias rivais bem como suas alianças com aliados e inimigos, reflete diretamente na vida política do estado florentino.

Fortuna, Virtú e Maquiavel
Importante salientar que existem diversas interpretações de fortuna e virtú, mesmo sendo conceitos muito utilizados por Maquiavel em suas obras. Estes conceitos são essenciais numa filosofia política, porque inauguram um novo modo de análise, nunca vista até aquele momento, pois a política estava sempre atrelada a moral e ética religiosa.
Entendida a fortuna não como riqueza, mas como espécie de sorte, exterior ao homem e dependente do ambiente ao seu redor, desafiadora das capacidades humanas ao lidar com os eventos. Virtú (traduzido erroneamente como virtude enquanto conceito), fala da capacidade de ação correta num dado momento, como chave para fortuna, ou aquilo que possibilita o acesso e o manuseio da fortuna. É a habilidade de conservação do poder que nada tem de transcendental (divino), mas faz referência ao ator político e suas qualidades necessárias para a liderança bem sucedida de todos os acontecimentos e possíveis acasos. A virtú deve estar sempre analisando a fortuna, e variando também conforme as variações da fortuna.
Por esta breve explicação, fica fácil entender o motivo de Maquiavel preferir a Virtú, enquanto sinônimo de habilidades necessárias para a manutenção e conservação do poder. A fortuna pode ser entendida como o acaso nos acontecimentos que nos cercam, que conta com uma espécie de sorte no andamento dos fatos e acontecimentos. A virtú significa o nosso destino em nossas mãos.

Ética, segundo Maquiavel
Ética da Consciência, segundo Maquiavel, “analisa as ações em função da hierarquia interna dos valores”, contrapondo-se à Ética da Responsabilidade que “é uma ética essencialmente política da ação eficaz”. A ética da consciência é individual. A ética da responsabilidade é a que deve ser aplicada a política; é a ação prática produzindo resultados, aos quais se deseja atingir; é também a ética que deve abandonar todos os vínculos religiosos. Para Maquiavel é importante preservar o sentido das ações. A ação política que visa criar o social é movida pela ética da responsabilidade. A ética da consciência, enquanto pessoal e individual, é geradora de uma ação em função de hierarquia de valores morais. Contudo, a ética da responsabilidade não implica necessariamente que ela seja altruísta e desinteressada, e por outro lado, também não quer dizer que seja má e egoísta: seria uma ética racional e objetiva na qual, sob quaisquer circunstâncias, serão os meios que definirão os fins como conseqüência lógica.

Conceito mais conhecido de Maquiavel: “os fins justificam os meios”
Dentre todos os conceitos de Maquiavel, é provável que “os fins justificam os meios” seja o mais incompreendido, ou melhor, o detentor do maior número de interpretações, além de ser possivelmente o mais citado. Talvez por este motivo é que exista tanta controvérsia em torno destas palavras. Para que os fins justifiquem os meios, numa correta tomada deste conceito, talvez ajude conhecer Bernard Mandeville, holandês que dizia que os homens, ao desejar saciar seus vícios, acabam por criar bons resultados na sociedade, fazendo analogia com as abelhas de uma colméia que eram egoístas, mas acabavam por produzir bons resultados em conjunto. Neste caso, o ocaso egoísta provocaria o bom acaso social. Neste caso, Mandeville dizia que o egoísmo do homem foi o que propiciou sua formação em sociedade e tudo o mais; se fosse por humildade e honestidade, não viveríamos socialmente como hoje. Já Maquiavel, em nome do bem popular e da integridade de uma nação, pregava que os caminhos para tal serão justificados por seus fins políticos, e nesta situação, não existem acasos: tudo deve ser vigiado, observado, planejado e alterado conforme a necessidade. A coerência, para Nicolau, estava na arte de governar e manter o poder, ou seja, na prática das ações políticas, que seriam justificadas por seus objetivos práticos e políticos. Longe de qualquer orientação moral e religiosa da época, Maquiavel considerava natural um político quebrar sua palavra, caso a Fortuna assim o exigisse. Distante de utopias e moralismos, o pensador florentino, na qualidade também de um grande observador, via a ordem prática. Mesmo após cinco séculos, sua obra continua provocando polêmica e as mais variadas interpretações. Porém, um olhar estudioso sobre Maquiavel, poderá tirar-nos do lugar comum de simples valorações errôneas sobre seus conceitos. “Os fins justificam os meios” significa: os caminhos para se atingir um objetivo podem ser alterados, desde que não se perca de vista suas metas finais. Esta posição firme e determinada de um ator político era o centro de seus pensamentos teóricos.

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