18/05/2009

O paraíso, o beco e o mendigo.

Veleiro Veloso pode ser saboreado desde a aproximação da entrada, onde se ouve o tilintar das taças de cristal acompanhando a melodia gentil dos nobres ao falar. Tudo de bom gosto, sem, no entanto, cansar olhos e ouvidos visitantes. Tanto prumo certamente tem preço, e não é para qualquer um. Na Zona Sul carioca, homens galanteadores e mulheres saídas de revistas de moda disputam mesas decoradas formando filas na porta de entrada. Não me lembro de um dia em que, estando aberto, não houvesse filas por ali.
- Venha navegar pelo paraíso com Veleiro Veloso! – diz a famosa atriz de novelas no comercial televisivo. Tudo, ao envolver Veloso, tem leveza, requinte, fama, dinheiro e sucesso. Nada se encontra por acaso e, se existe um paraíso, este é um prelúdio dele.
Perfeito, não fosse um detalhe: o beco por onde entram e saem funcionários, mantenedores do paraíso cheiroso, limpo e saboroso. Na verdade, um beco como outros tantos no Rio de Janeiro não estragaria o restaurante só por existir. Freqüentadores do Veleiro não imaginam ou ignoram este detalhe. O problema consiste em a via estreita e sem saída ser visitada por pessoas em condição de rua, ou seja, mendigos. Isto pode abalar a nau paradisíaca e deixá-la à deriva, por um motivo: humanos ricos e de bom gosto sorriem para quase tudo, menos para seu oposto pobre. Por vezes, um magnata joga moedas ao homem à margem social, mas o usual é não olhar, para que nem passe a existir, e assim, não incomode o frágil paraíso dos milionários.
Certo dia, no beco, um homem balbuciava sílabas desconexas enquanto dois gatos e um cachorro mínimo tentavam roubar suas conquistas alimentares. A barba se misturava aos cabelos desgrenhados e se fundiam ao rosto sujo. A gorda barriga ficava parcialmente descoberta pela camisa furada. As calças costuradas com concreto. Folhas de alface e tomates na mão esquerda para o alto, enquanto um bife na direita espantava e atiçava os animais esfomeados, que nem pensavam em abocanhar e fugir. A fome atrapalha os pensamentos. Da entrada do Veleiro não se cheira o mau odor da comida há pouco saborosa, nem mesmo se ouve a sinfonia desconexa do mendigo e três animais. O barbudo comandava a ópera dos sem vinténs. Os gatos pouco miavam atentando a comida e o cachorro não tinha forças para latir.
Naquela ária, surgem aplausos do garçom do restaurante, enxotando com a mesma educação os animais e o mendigo. Todos iguais diante do esbaforido. Isto não é um centro assistencial, é uma empresa de respeito. Os gatos somem de cena sem deixar rastros, mas o barbudo e o cachorro mínimo ficaram estupefatos. Por que gritas? A pobreza incomoda? O cachorro? Isto é apenas lixo.
Está surdo? Anda, caminha, vai embora. Retira os outros sacos de lixo atirando-os na direção dos dois. O mendigo balbuciante de outrora, perdera o resto da voz. Lágrimas nos olhos. Deixa cair os alimentos das mãos. O cão abocanha o bife e sai trotando. O silêncio marginal, dando pequenos passos para trás, estampava nos olhos palavras de injúria e ódio contido, amordaçado por humilhações e falta de força: tudo diluído nas lágrimas limpando a sujeira do rosto. Dane-se a comida. Dane-se o cachorro. Dane-se o garçom.
Cai fora esquisito. O uniformizado funcionário não parou de encarar o mendigo até que sumisse de seu campo de visão. O lado bom disto é ser bem pago, pois não é fácil aturar maluco e abestalhado o dia todo.
Mais três passos, sentou na calçada com sua pequena mochila azul desbotada. Cruzou os braços e alterou seu semblante violentamente. Um bife vai fazer falta para o babaca? Ele joga o lixo fora, almoça e ganha uns trocos. O mendigo choroso cedeu lugar para outro recalcado e raivoso. Avistou o cachorro devorando seu bife e sem pestanejar atira-lhe a mochila. Acertou em cheio as costelas em exposição. Filha da puta!
Poucos metros dali estavam dois policiais, correndo em sua direção. Você está maluco? Seu marginal. Fardados estapeavam o barbudo sem alface, tomate, bife e mochila. Vai caminhando seu velho sujo. Mais alguns metros noutra direção, na fila do Veleiro Veloso, havia uma belíssima mulher com seu vestido brilhante e bolsinha minúscula. Como vivemos num mundo tão violento? Nós, querendo almoçar em paz, e ali um marginal, estragando a paz de nossa refeição e a beleza desta cidade maravilhosa! Malditos marginais.
(Texto escrito por Marcelo A. D'Amico. Qualquer semelhança com a realidade, é mera coincidência.)

Um comentário:

  1. Adorei este conto! Um conto que não é conto mas é um conto.!
    Parabéns!

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