30/05/2009

São Paulo, mídia, povo e a falta de educação.

Uma vez mais, meu caro amigo Guilherme Salla produz pensamentos que, no mínimo, devem ser lidos. Jornalisticamente, inverti ordens, desobedeci regras e apresentarei o tema depois.
O assunto é a poesia utilizada em livro didático no estado de São Paulo. O autor é Joca Reniers Terron, e a poesia é esta:
Manual de auto-ajuda para supervilões
Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica.
É melhor não deixar testemunhas.
Não vá se entusiasmar e matar sua mãe.
Até mesmo supervilões precisam ter mães.
Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.
Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.
Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira,
assim sua técnica evoluirá.
Não se preocupe. Patos abundam por aí.
Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo.
Ou Malcolm.
Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.
Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não
podem mais abrir a boca.
Odeie. Assim, por esporte.
E torça por time nenhum.
Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia.
Principalmente brincar de dama.
Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração,
pedra no rim em vez de alma.
Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.
Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.
Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.
Nunca ame ninguém. Estupre.
Execre o amável. Zele pelo abominável.
Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.
[ in, "Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora", org. Leandro Sarmatz, Ática, SP, 2008 ]
A inversão jornalística não foi uma escolha dadaísta. Tem razão de ser, pois apresenta primeiro os elementos, depois a abordagem, para deixar o leitor livre, caso ainda não esteja infectado. A Folha de São Paulo [28/05], trouxe chamada em primeira página sobre livro inapropriado para crianças paulistas.
Neste caso, "inapropriado" pode ser entendido como sinônimo gentil de censura. Nós, seres pensantes, temos dever de orientar a educação das crianças, ou pelo menos, assim pensa parte da sociedade. Até este ponto, faz sentido.
O assunto: a poesia acima não é apropriada para crianças. Correto? Nem todos pensam assim. Meu amigo, Guilherme, é um deles. Num artigo publicado no Observatório da Imprensa, mais do que o artigo, chamou-me a atenção os comentários sobre o assunto:
Um deles faz analogia entre Joca e Nelson Rodrigues (autor que trouxe o modernismo para o teatro), e de certa forma diz que os dois são "aberrações literárias". Neste momento, literalmente parei. Como argumentar contra? Aliás, este e tantos outros argumentos lidos, não são argumentos, mas sentenças surdas.
Numa sociedade como a do Brasil, em que recente pesquisa diz que 13% dos professores são despreparados, leva-nos a concluir que 87% estão preparados. Porém, nossa educação produz 75% de analfabetos funcionais. Então pergunto: quantos professores estão preparados para quê?
A poesia de Joca me fez recordar recentes aulas na faculdade e de certo desconforto com Rubem Fonseca. Alunos queixaram-se sobre os textos violentos, afinal "a vida já é muito violenta". Mas penso que poucos entenderam a proposta: repensar a realidade por outra ótica, através dos belíssimos escritos de Rubem; mas não, não queremos outra visão além da nossa. Já compramos nosso estereótipo e mudar dói muito.
A poesia de Joca me fez lembrar de "Tropa de Elite", de José Padilha, e de seu novo filme, "Garapa", que provavelmente, segundo palavras do próprio diretor, não fará tanto sucesso como o antecessor, pois o filme trata da fome, da miséria, de uma parcela da população que está distante até do IBGE, pois nem documentos possuem. Não iremos ao cinema ver "Garapa", pois não queremos sentir aperto por sermos tão medianos e levianos com nossos semelhantes.
A mesma poesia de Joca me fez lembrar o também recente episódio entre Silvio Santos e Maísa, ali sim, um "verdadeiro exemplo de respeito e educação" (aspas aqui significa ironia), para com nossas crianças, no qual o apresentador e a platéia de mulheres e mães gritavam em coro "medrosa", ao ver a menina chorando muito assustada. Basta procurar o vídeo no Youtube e, além de ver, também ler os comentários abaixo, dentre os quais lembro-me de um lapidar: "ela (Maísa) ganha pra isso". Nem é preciso comentar.
Discutir problemas de criminalidade com arte e orientação, segundo pensam muitos brasileiros, não se faz na escola. Aliás, em que lugar se deve fazer? Na rua? Ou com os próprios criminosos? Discutir problemas sociais como a fome e a miséria, em que lugar se deve fazer? Qual ótica será abordada em cada um destes lugares? A escola deve educar ou apenas aparentar? A escola deve ensinar que o mundo lá fora é lindo, mesmo que a maioria dos alunos não viva num mundo lindo? Deveríamos contextualizar a poesia de Joca no referido livro? Não, é mais fácil usar uma abordagem simplista e inflamar o sentimentalismo analfabeto e funcional. Vamos queimar Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues, Joca e tantos outros, para que possamos continuar brasileiros medianos (ou seja, medíocres).

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