21/05/2009

Temas pendentes com a China

(Escrito por Luis Nassif e publicado aqui).
Essa questão das relações com a China merece ser mais bem avaliada.
Toda potência emergente - como foi o caso da Inglaterra no século 18, dos Estados Unidos no século 20 e, agora da China - ambicionam um modelo de relações comerciais com países mais fracos: adquirir matérias primas e vender manufaturados.
É a regra clássica, que constrói nações ou as mantém meramente como fornecedoras de matérias primas.O incentivo à manufatura significa agregação de valor, melhoria tecnológica, melhoria no nível do emprego e do desenvolvimento econômico e social.
Uma das características das nações com vocação de Império é a obsessão ampla em se fixar nesses pontos. Muitas vezes através de acordos falsamente vantajosos para os parceiros comerciais.
É clássico o exemplo do Tratado de Methuen, entre Inglaterra e Portugal, em 1703.
Os ingleses deram vantagens óbvias para uma parcela influente da elite empresarial portuguesa, os produtores de vinhos. Em troca de redução nas alíquotas de importação de vinhos portugueses, os ingleses conseguiram a manutenção das tarifas de importação para seus produtos - especialmente os têxteis.
Do lado inglês, não houve perdas. Apenas a substituição de vinhos franceses por portugueses. Do lado português, um desastre. Primeiro, a destruição do setor têxtil nacional. Depois, os enormes superávits ingleses provocaram uma grande apreciação da moeda portuguesa, acabando de destruir a incipiente manufatura local.
Por sua vez, os ingleses conseguiram acumular grandes reservas em ouro portugues. Com ele, adquiriam produtos têxteis na índia - que tinha uma indústria têxtil mais desenvoilvida. Mas não deixavam entrar na Inglaterra, para não prejudicar a indústria local. Compravam, vendiam para outros países da Europa em troca de matéria prima. E completaram o ciclo exigindo que todo o comércio internacional fosse feito em navios ingleses.
Os chineses têm muito claro a sua estratégia. Querem garantir fornecimento de matéria prima para sustentar seu desenvolvimento nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, continuam mantendo câmbio desvalorizado e recorrendo a toda sorte de expedientes para inundar o mundo com suas manufaturas de baixo custo.
Esse é o risco maior. De um lado, o Brasil (e o Mercosul) permitindo a invasão cada vez maior de produtos chineses, tanto pela leniência em definir barreiras extra-tarifárias quanto pela imprudência em relação ao câmbio. Do outro, aceitando investimentos na exploração da matéria prima, mas com a produção antecipadamente adquirida pela China - podendo reduzir substancialmente a margem de manobra futura do país.
São esses temas que necessitam ser melhor discutidos. Está na hora do país começar a incluir a economia política em suas análises estratégicas e diplomáticas.
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(Leia outro artigo, de André Araujo, sobre o acordo China-Petrobras clicando aqui).

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