11/06/2009

Confissões sobre a USP

Sou culpado por toda a violência destes últimos dias na USP. Sou culpado também por esta movimentação de greve que se arrasta desde o início do ano. Sou culpado pelas ações da polícia e também pelas ações estudantis, sindicalistas e dos funcionários. Sou culpado por um governo como o de Serra, que faz de tudo para estar na mídia por questões imbecis (cigarro e outros), quando na verdade o que está em jogo é a USP, a UNICAMP, a educação.
Sou culpado também pelo silêncio de todas as outras universidades do país, pois os mandos e desmandos de Serra, Lula, Aécio e tantos outros com a educação brasileira não é de 2009. Sou culpado também por termos sindicatos que aumentaram significativamente sua arrecadação no governo Lula reivindicarem através de piquetes e invasões. Sim, pois afinal estamos na era da comunicação e poderíamos nos movimentar socialmente o ano todo, o tempo todo, estando em permanente debate na sociedade, simplesmente para não permitir que coisas tão preciosas deste país se percam nas mãos de meia dúzia de interesses.
Mas o tempo passa, e com toda a tecnologia e comunicação que temos a disposição, parece que a mídia só se movimenta diante de piquetes e invasões; além disso, as universidades e a educação parecem não interessar. Aliás estes temas não interessam para a mídia e para o povo, mais interessado em saber da escalação de Dunga, dos parzinhos românticos da novela, do casamento de Alexandre Pato com uma atriz, ou do casamento de outra atriz com outro jogador e assim por diante. Se fôssemos socialmente mais responsáveis por nosso país, intelectualmente ativos e em constante movimento, talvez não chegássemos a extremos e nossos debates não seriam truculentos. Mas parece que só nos interessamos pela Petrobras. Sim, eu e tantos milhões de brasileiros somos culpados por este cenário.
Somos alienados e inertes e permitidos ano após ano que a educação no Brasil produza um contingente de 75% de analfabetos funcionais. Com o fim da Ditadura Militar (e não ditabranda) a promessa de uma democracia promissora parece nunca ter se concretizado, e continuamos incapazes de reivindicar nossos direitos de modo constante, justo e equilibrado. Se ganhamos estabilidade econômica nos últimos anos, nada fizemos para diminuir efetivamente as enormes diferenças sociais que assolam o país, nem a falta de infraestrutura tão secular.
No Congresso Nacional Deputados e Senadores fazem o que bem entendem, e nós apenas lamentamos durante a ocorrência dos escândalos. Mas em cada eleição, ratificamos a atrofia política de um país viciado em desmandos, autoritarismo disfarçado, sujeição econômica e alienação. Somos todos culpados, com raras exceções. Sinto saudades da genialidade de Henfil, Betinho, Gilberto Freyre e tantos outros que fizeram muito por este país. Sinto saudades de uma nação que nunca existiu.

Um comentário:

  1. É possível viver assim? Parece que não. Com tanta culpa, devíamos nos matar, no entanto sorrimos, fazemos samba.
    É urgente o lamento deste artigo, mas não podemos fingir que não somos ninguém. Há muito ainda a ser feito é verdade. Porém, em outros tempos, estaríamos presos ou expulsos do país por falar o que falamos.

    A culpa é da democracia, da ditadura, da cultura, da colonização, do aquecimento global, das multinacionais...

    Há tantas culpas e ao mesmo tempo tantas saídas, soluções, invenções, possibilidades, projetos, programas, gana...

    Nem sei mais como terminar...

    A culpa é nossa mesmo. Mas eu tenho feito um pouco para me livrar dessa culpa. Você tem feito mais do que eu, nossos amigos também.

    Por que essa culpa não se transforma em vitória?

    Vamos pelo menos celebrar a nossa possibilidade de cantar o que queremos, de vivermos livres da censura, de vivermos num país livre...

    em alguns momentos eu tenho essa sensação...

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