19/06/2009

O Rei e o Maldito

Há quem diga “Cachoeiro do Itapemirim é a capital secreta do mundo”. O estranho título teria surgido como respeitosa brincadeira, quando o poetinha e carioca Vinicius de Moraes, com a criatividade que sempre lhe foi peculiar, conversava com o cronista Rubem Braga, nascido em Cachoeiro. Na verdade, a exata origem se perdeu, virou história, mas sua fama percorre o mundo e suas lendas envolventes permanecem no imaginário tupiniquim.
Em princípio, a cidade seria apenas mais uma dentre milhares do país e passaria despercebida de milhões de pessoas, não fossem seus filhos ilustres. Um Rei, um Maldito, uma Nudista, um Cronista, um Produtor e Ator, um Pintor, um Compositor, um Economista: tantos carregam seu nome através dos tempos. A lista não acabaria aqui, caso desejássemos continuar. A pequena capital secreta guarda histórias mil; narrativas percorrem os ouvidos do povo.

Hoje é possível ouvirmos: “a capital é mais conhecida por conta do Rei, o Roberto Carlos”. O Rei, apelidado na infância de Zunga, após o sucesso, foi pouco visto por lá, mas ajudou a perpetuar sua fama. Um acidente lhe tirou parte da perna, ali mesmo na cidade natal, o que lhe fez viajar várias vezes ao Rio de Janeiro, para abandonar a muleta e usar uma perna mecânica. Mais tarde, alguns críticos veriam nisto um fator de sorte, pois o Rio lhe ofereceria o suporte para a vida que lhe esperava. Mesmo assim, ele prefere não falar sobre o assunto.
Quando tinha nove anos, fez sua primeira apresentação na Rádio Cachoeiro do Itapemirim, a mesma emissora na qual, vinte e três anos depois, outro ingressaria como locutor. Sérgio Sampaio, cantor e compositor conterrâneo do Rei, mais tarde foi apelidado de Maldito da MPB. Seguindo quase todos os ilustres cachoeirenses, vieram para o Rio de Janeiro, o Rei, como dito, tratando da perna e depois fazendo carreira, e o Maldito, tentando a vida como locutor ou compositor.
Roberto conquistava fama a passos lentos e Sérgio trabalhava e, muitas vezes, dormia na rua. Passava noites com fome e outras em profunda boemia. Certo dia, um produtor da CBS, conhecido como Raul Seixas, impressionou-se com sua música. Não demorou a contratarem o Maldito, mas somente o ano de 1972 lhe daria fama repentina, colocando seu bloco na rua. Raul (mesmo nome do pai de Sérgio) certa vez escreveu, numa foto em que aparecia com o Rei, “nós não gostávamos do que Roberto fazia”. Escreveu para esclarecer sua opinião. Talvez, tenha feito pose por fazer, porém Sampaio teria feito poses ao lado de Zunga com satisfação.
Sonhava em ter uma música gravada pelo Rei, o afamado conterrâneo, mas não se acreditava capaz. Ou se diria como tal apenas para não exibir seu descontentamento? Possivelmente não se acreditaria incapaz, mas dizia isto para não desagradar seu ídolo. O Maldito tinha gestos de realeza. Mais tarde compôs uma canção com uns versos de elogio e outros nem tanto. Num misto de flores e espinhos, cantava “e agora que esses detalhes / Já estão pequenos demais / E até o nosso calhambeque / Não te reconhece mais”. A música “Meu Pobre Blues” é venerada por fãs, e até o Rei deve ter ouvido.
Neste ano de 2009, o Rei comemorou cinqüenta anos de carreira num show muito esperado na capital secreta do mundo. À sombra do ídolo, completando quinze anos de falecimento, o Maldito deve ter cantado na praça da cidade, um dia antes de Roberto, junto de quase duzentas pessoas reunidas para relembrar Sampaio. Também cantaria “Meu Pobre Blues”? Sonharia ainda ser gravado pelo Rei no século 21?
Alguns fãs devem repetir aos ventos “seria fabuloso o Rei gravar algo de Sérgio Sampaio”. Seria mesmo uma homenagem merecida. Outros talvez arrisquem a dizer “Reis não gostam de Malditos”, e o amigo de Raulzito, aos poucos, pelo Brasil, foi esquecido. O Rei poderia (e pode) fazer ressurgir o doce Maldito a qualquer momento, e quem sabe cantar “eu quero é botar meu bloco na rua”. Seria a realização de sonhos, mas há quem diga que eu não sei de nada, que eu não sou nada e não tenho desculpas.

(Texto em estilo jornalismo literário, escrito por Marcelo A. D'Amico)

Um comentário:

  1. Fala cara!
    a idéia da parceria é boa mesmo...agente dá os créditos de piada e ilustração, pq como vc disse...a grana tá curta...
    Mas tudo bem, eu já to preparado pra no futuro próximo, receber como ordenado uma mariola e 3 paçoquitas.

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