17/06/2009

Os dois Brasis num só Brasil.

Existem dois Brasis dentro do Brasil.
Um deles é utópico.
O outro é impraticável.
O Brasil utópico é aquele das pessoas que minimamente dedicam a vida (ou parte dela) para construir um país melhor, uma cidade melhor, um bairro melhor ou uma rua melhor. Mesmo desgastados pela vida prática e falta de esperança continuam a fazer a única coisa que sabem, viver em acordo com a ética, o conhecimento, a reflexão. Viver lecionando, escrevendo, compondo, pintando, criando. E quando outros perguntam, "escreves poesia para quê, ninguém lê poesia neste país", ouve-se algo como "eu costumo ler e sempre". Já é alguém.
O outro Brasil é o impraticável. Quer dizer, é a parte do país que arruina o país nas práticas abusivas, apoiadas numa nação apática. Parece contraditório, mas este Brasil acaba com o outro Brasil na prática. E não se cansam de levantar bandeiras e discursos prolixos ou históricos que, no fundo, nada dizem. Pois este é o Brasil da prática, não do conhecimento, nem da reflexão, nem da ética, e sim da experiência, do Jeitinho Brasileiro, da malandragem.
O Brasil utópico sabe o que fala e o faz com propriedade, mas só tem o poder da fala. Sei que não é pouco, mas num país como o nosso é pouquíssimo. Enquanto isso o Brasil impraticável é o que mais fala, e quase sempre fala besteira. Mas o poder dele é outro: é o capital, o mandonismo, o coronelismo, o patronato e assim por diante. Embora fale muita besteira, este Brasil impraticável é ouvido por 3/4 de população incapaz de compreender o que ouve ou lê, isso quando ouve ou lê.
O Brasil utópico se emociona por viver num país onde o potencial humano continua sendo o único a não ser explorado. Sabe das belezas naturais, culturais e artísticas de seu país. O Brasil impraticável é o que desmata a natureza para plantar soja e criar gado, reduz o que acha que é cultura ao carnaval e massifica a arte brasileira, e ainda despeja um belíssimo discurso por cima de tudo o que faz, vangloriando-se de seus atos quase messiânicos.
O Brasil utópico chora em silêncio, escondido, ou apenas lamenta num livro seu profundo desgosto com o país para o qual tanto fez. O Brasil impraticável grita, vocifera e chora em rede nacional para dizer que é inocente e está sofrendo perseguição, que não merece tudo o que está passando em sua vida.
O Brasil utópico fuma, se não fuma então bebe e se não bebe ao menos tem úlcera, de nervosismo sufocado, de saber o que está errado mas só ter o poder da fala. O Brasil impraticável quase sempre fuma e bebe e nunca terá úlcera, pois sabe que é inatingível. Sabe que para algo lhe acontecer, haveria de ter uma revolução educacional em todo o país e até o povo mudar de vida seriam anos ou décadas suficientes para ganhar muito dinheiro, comprar castelo, emissora, jornal, empresas, envelhecer e fugir ou então morrer.
Estes são os dois Brasis vivendo num só país. O Brasil utópico nunca realizará seus ideais e o Brasil impraticável, embora se chame impráticavel, é o que perverte os nomes e a ordem e acaba praticando tudo o que quer.

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