14/07/2009

Contradições conformadas num mesmo discurso.

O mundo em que vivemos é contraditório: cria carros que atingem mais de 220 km/h para andar em estradas que não permitem ultrapassar os 120 km/h; cria aparelhos de DVD pra automóveis nos quais motoristas não podem falar ao celular ou fumar, já que as mãos ocupadas podem prejudicar a direção. As criações trazem em si um convite para a infração ao oferecer possibilidades que, em tese, a lei contradiz. Leis servem para evitar estas infrações, mas a jurisprudência pode interpretar casos parecidos de maneiras diversas, punindo uns e outros não. Faz parte da sociedade ultrapassar estes limites, pois se vende e anuncia equipamentos que não deveriam se usar acima da metade de sua capacidade, quando poderiam ser usados.
A desconfiança pode se tornar generalizada quando pequenas infrações são cometidas, senão para que comprar motos que atingem 300 km/h? Nem todos os motociclistas dispõem de pistas particulares, mas muitos compram e os que não podem, no mínimo anseiam. Em linhas gerais, uma mãe pode desconfiar da direção do motorista que leva seu filho para a escola. Como solução para o impasse, a tecnologia mercantil oferece a saída, a monitoração ou vigilância. Câmeras são colocadas em todas as partes sem se oferecer resistência, afinal, existe certo consenso da necessidade de segurança. O pensamento majoritário é que máquinas podem vigiar e preservar a vida. Empresas, casas, escolas e ruas possuem amplos sistemas de monitoramento, muitos conectados à internet para acompanhar os acontecimentos à distância e em tempo real.
Um novo modelo dos conceitos de presença e ausência surge atualmente. Nunca se está totalmente distante e nem totalmente ausente. A dependência da tecnologia e das redes se faz necessária aos usuários, onde quer que estejam. Será sempre preciso um aparelho conectado à internet para acompanhar os filhos na escola ou o conserto do carro numa oficina. O ideário do vigiar para punir cria também novas formas de infringir. O motorista conhecedor das ruas freia próximo aos radares e acelera em demasia no restante do caminho. A vigilância nem sempre inibe a infração, em muitos casos acaba aprimorando-a no trânsito, na escola ou na empresa.
O registro diante de determinada ausência foi o que possibilitou a criação de símbolos, através dos quais nos comunicamos. A constante presença e ausência fragmentada da atualidade pode levar a não evolução da comunicação e pensamento, significando mesmo uma estagnação generalizada. Seremos cada vez mais dependentes das máquinas tecnológicas e incapazes de criar ou evoluir na sociedade, na arte e na política.
A vida como um todo sairá de seu domínio e se viverá sempre em aceleração para acompanhar as novidades da tecnologia e as novas formas de vigiar e punir. Talvez, o uso indiscriminado destas máquinas possa significar o fim do homem, enquanto não possuidor de suas escolhas e dificilmente caminhos de autonomia e evolução.

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