28/07/2009

A falsa democracia e liberdade na rede.

Relacionar democracia com a internet pode ser comum, mas é preciso avaliar antes de repetir qualquer frase ouvida ou lida. Democracia significa sistema de governo em que o povo exerce a soberania direta ou indiretamente. Para um sistema democrático é necessário termos a população igualmente representada em suas vozes e pensamentos e ainda dispor de iguais possibilidades. Pode-se imaginar a rede envolvendo conceitos (limitados) de democracia e liberdade, mas está distante de ser democrática e livre.
(Imagem: Democracia, de Siqueiros)
Internet é comunicação. A língua e a linguagem são elementos de poder. Quem domina a língua possui poder sobre os outros. Na rede mundial não é diferente. Acreditar que uma pessoa parcamente letrada dialogue de igual para igual com um Doutor em Literatura é ingenuidade. O mesmo ocorrerá de operário para empresário, de fiel para pastor e assim adiante. O que somos, nossos papéis sociais, a linguagem e capacidades não desaparecem instantaneamente por se conectar à internet. A atrofia democrática da sociedade atual não desaparecerá magicamente pela rede; é preciso fazer uso adequado dela para que um processo de mudanças através da história possa modificar o cenário do qual falamos e vivemos.
Para a democracia ser presente é preciso que todas as pessoas usem a internet ou tenham sua possibilidade, e mais, este uso esteja além da diversão efêmera, dominando em alto grau a língua e as linguagens virtuais disponíveis e conhecendo a realidade atual. Democracia implica em soberania e sua simples possibilidade não a determina como real.
A informação enquanto produto não se faz menos capitalista por circular na internet, mas continua sujeita aos modos de dominação, simplificação e deturpação existentes. A possibilidade potencial da livre expressão deve ser precedida do real e livre pensamento, sem o qual não há expressão realmente livre que assim se faça por mágica.
A rede possuí circulação livre de conteúdo (China e Cuba?), mas na prática vemos novidades efêmeras em demasia, horas de diálogo consumido aleatoriamente, poucos debates concretos e quase nenhuma movimentação política efetiva (além dos discursos de ideologismos). As manifestações de 1968 marcaram a história sem a internet para fomentar idéias expressivas. Naquela época, comunicar-se era algo bem mais difícil. Neste início do século XXI, com toda a tecnologia, rede e equipamentos que dispomos não fomos capazes de promover algo semelhante ao maio de 68, por exemplo. Conseguimos apenas poucas reuniões estúpidas movimentadas pela rede como a “guerra de travesseiros”, exibição de roupas íntimas em público ou o manifesto dos “sem-namorados”. Este é o zeitgeist que define nossa época?

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