06/07/2009

O sistema speculum.

Os indivíduos da sociedade na qual vivemos parecem não distinguir entre espetáculo e realidade, pois o real surge no espetáculo producente de realidade, como um ciclo sem fim. A distinção entre as duas esferas já foi desdobrada e pervertida. Assim, o espetacular é combatido falsamente por críticas igualmente espetaculares, integradas no mesmo pensar, porém com supostos objetivos distintos.
Alguém que se arrisque a questionar a realidade pode ser facilmente cooptado por ideologismos de todos os tipos, como salvacionismos a predestinar um futuro tão brilhante quanto irreal. Discurso e contra-discurso engolidos pelo speculum. O espetáculo tem tática tão intrincada quanto teia de aranha, na qual uma linha de pensamento (simbolizada aqui por um fio de teia) se entrecruza com outras e todas, como sistema, prendem o indivíduo a uma mesma aranha. As falsas “linhas de pensamento” prendem em seu sistema, ao invés de libertar. É comum se afastar de pensamentos complexos e optar por verdadeiros atos de veneração e idolatria. Muito do que se apresenta como pensamento é tão espetacularizado quanto falso, tão previsível que permite ao real pensador prever conseqüências pela lógica.
A realidade material, invadida pela contemplação idólatra, se tornou extensão da imagem ilusionista atual. Seus valores e funções reais foram perdidos em troca de outros falsificados pela “onipresença” do espetáculo. Tudo parece seguir a lógica disfarçada em discursos supostamente diversificados. Livros pretensamente críticos poderiam ser substituídos por um único parágrafo, visto que servem à veneração inconteste, idolatria e fascínio em constante estado de novo.
A realidade e o espetáculo podem ser compreendidos quando passados ao seu oposto, configurando-se uma relação dependente na qual o discurso sustentador se fundamenta nos contrários. É a lógica pervertida e, portanto, ilógica. Neste intrincado sistema de alienação e dominação reside a sociedade para a qual qualquer tentativa de rompimento já foi desdobrada, desvirtuada, e acaba traduzindo parte do discurso dominante.
Buscar a linha de fuga deste sistema requer conhecimento, pensamento crítico e analítico, os quais não se conquistam sem exercício, leitura e dedicação plena. A “era da informação” atira seus “tijolos” informativos constantemente, com os quais se é incapaz de construir algo, pois a organização crítica e estruturada das informações é o que constitui o saber. Neste simples modo, estar bem informado e conhecer as notícias “em tempo real” não tem valor, semelhante a um analfabeto que possui uma biblioteca em sua casa, mas dela não desfruta nada além de sua posse.
Por Marcelo A. D'Amico.

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