07/07/2009

O tambor africano e o folclore brasileiro

“Chora ngoma, ê Angola”, canta o capitão de Moçambique em festa do Rosário, lembrando dolorosa travessia do Atlântico. Ngoma é tambor entre povos bantos, mas a beleza musical africana não se limita a percussão: passa pelo vocal de som particular, além de instrumentos de diversos timbres. O tambor de um rei africano traz o dom da verdade e é usado não só para transmitir mensagens do Rei, como também dá afinação aos outros instrumentos.

Desde o século XVI, cronistas e viajantes pelo Brasil relataram os sons vibrantes que ouviam. Hoje, temos diversas manifestações como os Maracatus, as Congadas, os Candomblés, bumba-meu-boi, entre outras. Os batuques eram feitos nos poucos momentos de lazer. Presença marcada pela cultura Banto, trazida de Angola, Congo e Moçambique, apresentam formas vivas no Carimbó, no Tambor de Crioula, no Samba de Aboio, no Jongo, no Caxambu, no Batuque de Umbigada e assim por diante.


Nos versos metafóricos cantados pelos negros, oferecia-se ao branco um sentido mais literal, inócuo, deixando-o perplexo: diversão ou devoção? Condenados pela Igreja e tido como perturbadores pelos patrões, a maior parte dos batuques se manteve marginal em relação ao restante da sociedade. Com a migração da zona rural para áreas urbanas, as manifestações invadiram as cidades, locais onde a vigilância policial era maior. Por isso, muitos se confinaram em quintais e barracões, escondidos dos olhos alheios. A tênue fronteira entre sagrado e profano e o segredo dos versos, ainda confundem os alheios. Ainda hoje, a diversidade cultural e folclórica brasileira é ignorada pela grande mídia, limitada a registrar manifestações industrializadas e massificadas. Quem tomar ciência mais profunda destas manifestações, suas raízes e frutos, descobrirá um mundo que sempre esteve aqui e no entanto lhe parece novo.

O início das manifestações

Pela ordem social do período colonial, racista e escravista, podemos compreender a formação de movimentos negros para integração e legitimação de sua existência no Brasil, com base religiosa católica, como Irmandades do Rosário, tinham na figura de Nossa Senhora do Rosário verdadeiro motivo de adoração. Levada primeiramente à África como processo de catequese, impondo seu culto aos negros, foi depois introduzida no Brasil. Naquele longo período colonial, nenhuma religião podia se manifestar além do catolicismo apostólico romano.


“As associações do Rosário permitiam que o escravo e outros homens de cor se reunissem dando vazão às tendências gregárias ou lúdicas. Como as celebrações eram ordinariamente religiosas e assim abertas a toda população, qualquer festa católica poderia proporcionar tais oportunidades, mas era nas comemorações de seus santos protetores que o preto se torna o organizador, o dono da festa, patrocinando-a a seu gosto.” – Julita Scarano (vide fonte).


Moldados às formas católicas, os traços culturais africanos foram mantidos ou reconstruídos, vistos a distância pelos brancos. O controle social do catolicismo acabou se transformando em instrumento de solidariedade étnica e reivindicação cultural, ao tempo em que, para a Igreja Católica, as irmandades eram eficazes para converter grupos étnicos como os negros, índios e mouros, muitas ficando sob controle da coroa e fiscalização do poder eclesiástico até fins do século XVIII.

A formação da identidade brasileira

Origens da identidade brasileira se encontram em manifestações indígenas, portuguesas e africanas, que se influenciaram mutuamente. Outros povos que imigraram posteriormente, deram ares estrangeiros locais, sem alterar profundamente a identidade do povo, conforme relata Darcy Ribeiro em “O Povo Brasileiro”. Vejamos breve relato destas contribuições: indígenas (mitos como o Boitatá, Saci-Pererê, Curupira; danças como o Cateretê, Toré, Cururu; trançados artesanais; culinária com farinha de mandioca, peixe, farinha de milho); portuguesas (a língua como base cultural; festas e folguedos religiosos como Festa do Divino, Dança de São Gonçalo, Corpus Christi; artesanato com rendas e bordados; o entrudo); africanas (os batuques de tambores; alimentação condimentada, como vatapá, acarajé; vestimentas; religiões).


O período entre 1840 e 1890, marcado pelo progresso europeu e trazido ao Brasil, é importantíssimo para esta formação. Neste período, a mulher brasileira começa a se envolver na luta por direitos políticos, o escravismo no país entra em crise, principalmente pelos avanços industriais, enfim, é um momento de modernização lenta e gradual. Pouco a pouco, embora com resistência de setores da sociedade, a liberdade dos negros vai sendo conquistada pelos abolicionistas, até ter sua abolição completa em 1888.


Todo este processo possibilita o fortalecimento de inúmeras expressões brasileiras, principalmente pelos negros com afrouxamento da escravidão. A religião trazida pelos portugueses, misturada ao desejo africano de dar voz para sua etnia, misturada com hábitos indígenas, cria a identidade única do brasileiro, com sua vasta e riquíssima tradição folclórica.

O Bumba-meu-boi

Personagens diversos, morte e ressurreição, são elementos integrantes do bumba-meu-boi, que consiste em dançar, tocar e cantar em volta de uma carcaça de boi bailante, entre os brincantes e representantes de um auto popular. Sua origem remete às divergências de relacionamento entre escravos e fazendeiros, mostrando suas condições sociais. A sátira e a tragédia estão presentes na lenda, surgida no nordeste para depois atingir outros estados, como Amazonas, onde ficou famoso pelo Festival de Parintins, realizado desde 1913.
O desfile e a representação derivam de tradições ibéricas, de peças religiosas eruditas destinadas ao católico: costume introduzido no Brasil pelos Autos jesuítas para catequizar índios, negros e aventureiros. Considerado o auto de maior significação estética e social do folclore, originou-se no fim do século XVIII e se revestiu de caráter lúdico, com ênfase visual e constante renovação.


O público canta e faz apartes, ao que os intérpretes respondem improvisando. Começa com louvação, apresentação de personagens e entrada do boi (representado por um homem dentro de uma armação). Coberto de panos coloridos, o boi dança acompanhado de vaqueiros, adoece ou é morto, sob pretextos variantes. Entram em cena os que tentam curá-lo ou ressuscitá-lo.


A história se passa numa fazenda, com personagens fixos, aos quais pode-se juntar outros em diversas variações. O enredo gira na gravidez da Mãe Catirina, mulher do vaqueiro, ao cismar de querer língua de boi, o novilho estimado da fazenda. Nas variações, o código moral muda segundo condições de representação. O vaqueiro, de confiança do fazendeiro, tem a responsabilidade da fazenda. Exímio dançarino, mostra suas habilidades no encontro com o boi, formando um par indissociável do folguedo: um pela destreza arrebatadora, o outro pela persistência ao escapar.


O bumba-meu-boi ganhou variações, inclusive no nome: boi-bumbá, pavulagem, bumba; boi-de-reis; boi-de-mourão, boi-de-mamão e assim por diante. No Maranhão, envolve milhares de pessoas no ciclo festivo, mais concentrado em junho, e é representado por sotaques: de Zabumba ou Guimarães, com participação africana acentuada; de Matraca ou da Ilha, lembrando rituais indígenas; de Orquestra, de conteúdo europeu, e o de Pindaré e Viana (chamado de pandeirões), que, embora semelhante ao de matraca, se distingue pelo ritmo, instrumentos e guarda-roupa.

Congado

O Congado, também ligado a Nossa Senhora do Rosário, remete a lenda de Chico Rei, escravo que era Imperador no Congo. Durante sua vinda perdera mulher e filhos, restando apenas um. Instalou-se em Vila Rica e tempos depois comprou sua alforria e do filho. Para comemorar, dançou frente à igreja, celebrando a liberdade. Posteriormente, conta-se que Chico e outros súditos alforriados organizaram a Irmandade do Rosário e Santa Ifigênia.


Fruto sincrético, o Congado envolve dança, música, levantamento de mastros, coroações e cavalgadas no mês de outubro. Ao fim da festa, coroa-se o rei e a memória do folclore brasileiro. A respeito do nome correto, a pesquisadora Núbia Magalhães Pereira explica:


"Existe uma correspondência entre os termos congos, congada e congado. A denominação congo é mais usada no Norte e Nordeste, designando a totalidade do auto, mas pode também significar uma guarda ou terno, como em Minas Gerais e no Paraná. Quanto à variação entre congado e congada, trata-se apenas do uso de dois gêneros para a mesma palavra, ora na forma masculina ora na feminina. Já o Reinado é um dos componentes do congado, refere-se à coroação de reis e à constituição de uma corte. O termo Reisado, no entanto, se distingue como outro folguedo bastante diferenciado: a referência a reis está relacionada com os Reis Magos, figuras presentes no ciclo natalino."


O Congado teve relativa aceitação da classe branca, considerado como “diversão honesta” para escravos, além de importante difusor de conteúdo cristão nos enredos. Os cortejos formados por membros das Irmandades Católicas de negros – São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, Santa Ifigênia – instituições que historicamente lhes deram alguma participação na sociedade que os rejeitava, se constituíram importantes repositórios de tradições afro-brasileiras. Pelos grupos rituais ligados às Irmandades católicas – congado – africanos e descendentes participaram das festas públicas desde a Colônia. Particularmente em Minas Gerais, ainda desempenham papel fundamental na organização da vida religiosa entre os descendentes. O movimento parece crescer a cada ano, reunindo milhares de pessoas de diferentes localidades, além de ter grande diversidade no Estado, em termos do estilo musical e coreográfico, do instrumental e da indumentária.

Candomblé

Além de certo tipo de dança, o candomblé passou a significar também cerimônia religiosa dos afro-brasileiros. Nasceu dos aportes míticos e rituais de diferentes etnias, com influência preponderante dos sudaneses e nagôs. O candomblé tem complexa organização de crenças e rituais, realizados em terreiros de vários cômodos. Numa sala, se realizam danças públicas dos fiéis, possuídos por divindades. Em outra só entram iniciados ou pessoas em certas condições de pureza. As cerimônias abertas se realizam noite adentro, acompanhadas de percussão.


Uma das características fundamentais é o longo processo de iniciação. Inclui a lavagem de contas e o bori, que significa fortalecer e estreitar-se com o mundo sagrado. Depois da cabeça lavada com sangue animal, colar e bori, é chamada abiã. Há um primeiro grau de iniciação, após o qual se torna iaô. Depois de um a sete anos de obrigações, passa-se à categoria de eboni. O posto mais alto na hierarquia é ocupado pelo pai-de-santo ou babalorixá; quando mulher é mãe-de-santo ou ialorixá. Em seguida vêm a iiá kerere (segunda sacerdotisa), os ogans (sempre homens, os protetores do terreiro), o alabê (que toca e dirige os atabaques), entre outros.


Não obstante o preconceito e perseguições, terreiros preservaram práticas culturais africanas, como línguas rituais, um panteão e sua mitologia, instrumentos, ritmos e cancioneiro, culinária, objetos. Perpetuou-se entre os adeptos uma cosmovisão, que enxerga o mundo como teia de forças vitais, as quais devem manter-se equilibradas por ritos. O culto aos orixás adaptou-se, reinterpretou-se e misturou-se a outras expressões religiosas africanas e ameríndias, gerando formas miscigenadas como os Candomblés de Caboclo e a Umbanda.


Permanece o conceito de nação cultural relacionado à língua ritual, aos repertórios dos cânticos e aos estilos musicais. Nas festas dos Candomblés, a importância dos tambores e percussionistas rituais é decisiva para chamar divindades e bailar seu mito entre os mortais. Conhecem variedade de toques das nações e podem dominar repertório de centenas de cânticos. Traços musicais peculiares como escala de cinco notas (pentatônicas) permanecem praticamente restritas às casas de culto, enquanto o som do Candomblé, junto com batuques e cortejos, participa de um universo melódico e rítmico extra-religioso e brasileiro.
A música pode ser ouvida em ambiente público e profano através dos afoxés (bloco negro característico da Bahia), chamados “candomblés de rua”, e se diferenciam de outros blocos carnavalescos pelo sentido religioso e cultural.

Maracatu

Nascidos da tradição do Rei Congo, os Maracatus de Baque Virado ou os Maracatus Nação tem seu mais remoto registro no século XVII. O nome vem da língua indígena, na qual mara significa barulho e catu, bom: barulho bom. A dança é obrigatória em frente das igrejas, como homenagem a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Quando em terreiro, homenageiam Orixás.


O maracatu de baque solto ou rural, segundo pesquisadores, é manifestação da cultura afro com indígena, em que entidades são invocadas para propiciarem sucesso nas andanças. A apresentação agitada cresce com evoluções. Apresenta quatro tipos de cantoria: marcha (sempre de 4 versos), samba curto (4, 5 ou 6 versos, sendo, de 6 o tipo mais comum), samba comprido (geralmente de 10 versos, mas podendo variar para 12, 14, 16,18 ou 20), e ainda o galope (habitualmente de 6 versos).


Ao contrário do Baque Virado (origens em cortejos de reis africanos), o Maracatu de Baque Solto, Orquestra ou Rural, é uma fusão de elementos de folguedos, com características e colorido próprio, garantindo presença nos carnavais.


Ritmo rápido de chocalhos, percussão uníssona e acelerada do surdo, acompanhada de outros instrumentos, dão características musicais próprias e diferenciadas dos maracatus tradicionais. Desfila num círculo compacto, tendo ao centro o estandarte rodeado por baianas e outros personagens. Os caboclos de lança abrem espaço na multidão com saltos e malabarismos. Alguns grupos ainda em atividade são: Cruzeiro do Forte (1929), Águia de Ouro (1933), Leão da Aldeia (1935), Estrela da Tarde (1942), Estrela de Ouro (1963).


O Maracatu de Baque Virado ou Nação, tem os devotos dos cultos afro-brasileiros da linha Nagô. A boneca (Calunga), encarna a divindade dos orixás, recebendo axés e a veneração do grupo. A música vocal (toadas) inclui versos africanos. O cantador é respondido pelos integrantes e o toque, é constituído pelo gonguê, tarol, caixa de guerra e zabumbas.


Tem vários personagens em sua figuração, animais, corneteiro, baliza, lanceiros, batuqueiros, caboclos de pena e outros. Alguns grupos ainda em atividade: Nação Elefante (1800), Nação Leão Coroado (1863), Nação Estrela Brilhante (1910), Nação Indiano (1949), Nação Porto Rico do Oriente (1967).

A importância destas manifestações

A música, o folclore, a religião e até mesmo a cultura erudita, no Brasil, foram criadas, influenciadas ou modificadas por estas manifestações folclóricas, expressão da identidade única do povo brasileiro. Num dado momento histórico, o povo foi influenciado por culturas principalmente européias e, posteriormente, estes acontecimentos propiciaram (em forma e conteúdo), expressões singulares, influenciadas por fontes originais estrangeiras, mas amadurecidas em território e histórico nacional, numa espécie de antropofagia cultural, como descrita no movimento antropofágico por Oswald de Andrade.


Hoje, pode se considerar o Maracatu, o Bumba-meu-boi, o Congado e o Candomblé, assim como o tambor, patrimônio cultural do Brasil, além de fonte de parte da história do povo, mostra sua constituição étnica, vivência social, preconceitos sofridos, religiosidade. Embora seja difícil determinar o surgimento exato destas, traçando linha histórica definida dos acontecimentos, a importância das manifestações folclóricas não reside nas datas corretas, mas sim nas relações que as fizeram surgir e nas conseqüências e influências em nosso país.


Criar uma lista artística como Chico Science e Nação Zumbi, Lenine, Villa-Lobos, Gilberto Gil e outros mais, pode ser uma tarefa longa, quando se deseja listar os que foram influenciados por estas tradições. A música brasileira é profundamente marcada por estas tradições, seja nos ritmos, seja no lirismo. Praticamente impossível encontrar um brasileiro que não as ouça e adore, ainda que desconheça suas origens e reais significados. Estes patrimônios brasileiros estão impressos no sangue de todo aquele que nasce ou vive no Brasil.


Fontes

Texto escrito para apresentar a exposição “Comunidades do Tambor”, no SESC Vila Mariana, SP, durante evento “Percussões do Brasil”, em 1999 / Paulo Dias.

Ensaio: A todos que tocaram e tocam o tambor na esperança de harmonizar e humanizar as divindades / Jaime Sodré.

Mídia e experiência estética na cultura popular: o caso do bumba-meu-boi / Francisca Ester de Sá Marques. - São Luís: Imprensa Universitária, 1999.

Sociedade e Cultural - Enciclopédia Compacta Brasil - Larousse Cultural - Nova Cultural – 1995.

Devoção e Escravidão: A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII / Julita Scarano SP: Conselho Estadual de Cultura, 1975

Movimento Negro de Base Religiosa: a Irmandade do Rosário dos Pretos / Taynar de Cássia

Núbia Pereira de Magalhães Gomes e Edimilson de Almeida Pereira. "Negras Raízes Mineiras: Os Arturos". Juiz de Fora: Editora da UFJF/MINC, 1998.

ARRAIS, Raimundo. O Pântano e o Riacho: A formação do espaço público no Recife do século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2004.

Claudia M. de Assis Rocha Lima – Pesquisadora.


(Via Marcelo D'Amico)

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