23/08/2009

Desdobramentos da crise

A mídia passa a entrar em xeque quando o saco de irregularidades políticas é aberto e o público passa a entender os critérios de seleção de escândalos.
Exemplos muitos simples.
1. Na semana passada, a Folha deixou escapar uma matéria em que mostrava que uma empresa - possivelmente ligada ao ex-governador de Goiás Marcone Perillo - participou de licitações fraudadas de instituições estaduais paulistas. Houve evidências - segundo a matéria - de que a Casa Civil de Serra atuou diretamente para retirar o nome da empresa do inquérito. Se confirmado, é crime.
2. Um mês atrás, nas gravações feitas pelo Ministério Público Estadual gaúcho contra a governador Yeda Crusius, aparecem indicações de que empresas envolvidas em manipulação de licitações de merenda escolar, em São Paulo, estavam atuando junto ao esquema Yeda.
3. No relatório publicado pelo Estadão desta semana - sobre a Satiagraha - os emails de Roberto Amaral envolvem políticos, autoridades e reguladores tucanos. O tema não mereceu chamada de capa nem será aprofundado.
4. O caso Camargo Correia sumiu completamente do noticiário. A que custo?
5. O caso Safra-Madoff sumiu completamente do noticiário.
Nenhum desses fatos será aprofundado pela mídia. Antes, não se saberia dessas omissões; agora, se sabe.
“O Caso Veja” foi apenas o primeiro episódio de desvendamento desse jogo. Mas a cada dia cada manobras, vendas de matérias, negócios com Secretarias de Educação, perdão de dívidas de impostos, jogadas de mercado virão à tona.
Não se inverta a lógica da mídia e se passe a achar que toda corrupção é tucana. Ela é intrínseca ao modelo, é do PT, do DEM, do PV, do PSB.
Se se for escarafunchar os negócios da Eletrobras com a Cemar, no governo Lula, os do Collor com o Canhedo, os de Itamar com José de Castro e Eduardo Cunha, os de Sarney com Machline, Saulo e companhia, os de FHC com os fundos de pensão, em benefício a Daniel Dantas, se verá que ninguém escapa.
A diferença entre eles foi o tratamento dado pela mídia, quando ainda tinha o monopólio da notícia e da denúncia. A capacidade da mídia de selecionar o escândalo e ter o monopólio da escandalização lhe conferia um poder que a fazia pairar acima dos partidos e dos demais poderes.
Agora, não tem mais.Mais que isso, nos próximos anos, outros grupos entrarão no mercado da comunicação e da informação, de novas empresas, mais ágeis e criativas, aos grupos de telefonia - imensas vezes maiores do que os grupos jornalísticos - além de todo o universo que transita na Blogosfera. No final desse processo, dos grupos atuais provavelmente restará apenas a Globo.
É essa perspectiva pouco otimista que explica a loucura que tomou conta dos grupos tradicionais de mídia, levando-os a ultrapassar qualquer limite prudencial.


(Escrito por Luis Nassif e publicado aqui).

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