15/08/2009

Os Ceos da mídia

"Num trabalho de pesquisa magnífico, o jornalista Ali Kamel reúne as falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É o verbo a espelhar o homem.
Está no verbete Discurso(s): “Um dia vão ganhar dinheiro pela quantidade de discursos que eu faço todos os dias. Eu ficaria milionário”. É improvável que Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, fique rico com sua mais nova empreitada, Dicionário Lula - Um presidente Exposto por Suas Próprias Palavras, recém-chegado às livrarias." - publicado na Revista Veja desta semana.
Abaixo, comentários de Luis Nassif, publicado originalmente aqui.
Na série de Veja, o capítulo “Os Mais Vendidos” mostrava o indecente processo de autopromoção de Mário Sabino de seus próprios livros - promovendo resenhas elogiosas na revista e manipulando a lista dos mais vendidos.

Agora, o jogo continua, mas com algumas variações:

1. A Globonews entrevista Mário Sabino, da Veja, sobre o livro que vai lançar.

2. O neoEstadão dá uma página com entrevista sobre o Sabino falando de sua “magnífica” carreira, por ele próprio. Nem resenha houve. Apenas Sabino se autoelogiando.

3. Sabino faz uma resenha do livro de Ali Kamel na Veja, falando do “trabalho de pesquisa magnífico”. (Todas as resenhas de empregadores em potencial - Frias Filho, Kamel etc - são feitas pessoalmente por Sabino e todos os lançamento são invariavelmente tratados como “magníficos”). E coloca como chamada principal na página de índice da revista. É uma bajulação tão escancarada que ruborizei só de ler.

4. Os próximos passos serão uma resenha elogiosa da Folha a Sabino e uma da Veja ao último livro do Otávio Frias Filho.

Anos atrás, Veja deu duas páginas para o penúltimo livro de Kamel, também “magnífico” com a resenha assinada por Sabino.

Duas semanas depois, Kamel conduziu campanha contra um livro de uma editora concorrente da Abril, além da ampla cobertura a livros de dois escalões inferiores da revista, os colunistas escatológicos.

O deslumbramento dos CEOs

Esse clube de autoajuda é uma das características maiores desses tempos de jornalismo insano.
Nos anos 90 as empresas brasileiras experimentaram o deslumbramento dos CEOs, administradores que assumiam papel de comando em multinacionais ou em grandes grupos familiares brasileiros e se deslumbravam.
Nos últimos anos esse fenômeno de repetiu, agora na mídia. A ideia do diretor de redação, o jornalista experiente, grande comandante, com enorme tarimba jornalística, contatos com todos os setores e domínio do ofício, foi substituida pela do CEO de redação.

Veja gerou Eurípedes Alcântara e Mário Sabino. O Estadão, em crise, abriu mão do DNA Mesquita e indicou Ricardo Gandour. A família Marinho resolveu não se dedicar tanto às empresas quanto a geração anterior, e delegou poder para Ali Kamel e Merval Pereira.

Sobrou apenas a Folha, que permaneceu sob controle de um Frias mas que, por falta de parâmetros, acabou entrando nesse jogo, sem se dar conta de que era o único jornal que poderia ter jogado em raia própria e se beneficiado da grande pausterização da mídia, gerada por esse conciliábulo de CEOs.

Esses CEOs passaram a ter em comum o poder - exercido de forma mais ou menos deslumbrada, de acordo com a personalidade de cada um - e a insegurança típica de quem, não tendo o DNA da família no sangue, não tem a estabilidade no cargo.

Para fugir à sina da última escala - o jornalista que, atingindo o ponto máximo na sua redação, não tem mais para onde ir, devido ao mercado exíguo - uma das estratégias desse pessoal foi buscar uma âncora externa, política, tentando repetir o movimento dos chefes de redação dos anos 70 e 80, que tinham sua ancoragem em Golbery. O Golbery desse pessoal é o governador José Serra. Se cair fora do jogo presidencial, perdem uma das pernas.

O segundo movimento defensivo foi o da autoproteção, um veículo protegendo outro de eventuais besteiras cometidas, no afã de tentar reverter a queda de tiragem a qualquer custo. Essa defesa - “me repercutam que eu repercuto, por mais absurda que seja sua matéria” - visava fortalecer os CEOs não em relação aos leitores, mas aos próprios donos das empresas. Todo esse lixo e desgaste da mídia, produzido nesse período, foram varridos para fora dos olhos dos donos de empresas, por esse processo de apoio recíproco. Mas o lixo ficou acumulado do lado de fora, aos olhos dos leitores. A consequencia foi a desmoralização disseminada da própria mídia como um todo.

A troca de favores estendeu-se ao terceiro movimento, de tentar conferir imagem pública aos CEOs, invertendo a lógica anterior dos chefes de redação influentes, porém discretos.

Assim, Kamel tornou-se “intelectual” de peso, Sabino conseguiu vender o peixe de que fez carreira internacional “magnífica”. Procurei no Google, havia uma menção em uma editora estrangeira, anunciando como best-seller no Brasil - best-seller com 3.500 exemplares vendidos.
A troca de favores faz parte do mutualismo, do seguro coletivo dos que sabem que, encerrado esse ciclo de barbárie jornalística que comandaram, serão defenestrados para que outros jornalistas comandem o próximo ciclo.

O único jornal que poderia ter caminhado em raia própria, se diferenciado dessa cobertura unificada, seria a Folha. E o único escritor genuinamente talentoso dessa leva é Otávio Frias Filho. Mas o que lhe sobrava em talento faltou em termos de inteligência estratégica e emocional.

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