26/08/2009

Suplicy, Dolabella, Deus e Zweig.

(Escrito por Marcelo A. D'Amico)
Existe uma espécie de tríade que compreende o homem: sentir, pensar e agir. Tudo o que fazemos passa por esta tríade, nesta ordem. A maior influência de um ou outro existe, mas diante de um evento primeiro sentimos, depois pensamos para só então agirmos. Os problemas surgem quando analisamos cada aspecto separadamente, ou seja, quando começamos a perceber a complexidade de cada um em nós, o que é mais determinante para cada pessoa, sem que se exclua a tríade do ser.
Todo homem tem sentimentos, ainda que não os saiba compreender ou expressar. Mas um homem que tenha nascido e vivido isolado do contato de outros não desenvolverá seu pensamento. Ficará desprovido de linguagem, cultura, conhecimento e abstração nas formas como as entendemos, pois estes atributos surgem do contato e convívio com outros homens. Mesmo ações básicas, como andar, poderiam ficar comprometidas neste isolamento. Teria este isolado seus sentimentos primários, mas estaria desprovido de pensamento e linguagem. De qualquer forma, agiria para sua sobrevivência, com determinada eficiência ou não.
O exemplo acima serve para ilustrar um caso no qual a tríade sentir, pensar e agir ficaria comprometida, enfraquecida, servindo-nos de base para compreender o povo brasileiro, majoritariamente analfabeto funcional (75% da população). Na prática, significa que 3/4 de nosso povo tem o pensamento (principalmente os mais complexos e estruturais) altamente comprometido. Sendo assim, a base essencial de suas ações fica no plano sentimental, emocional. Sem dúvida que os sentimentos são importantes e possuem uma lógica, mas é uma lógica tão própria que beira a falta de lógica quando não complementada por pensamentos.
Por sermos um povo majoritariamente sentimental, emocional, somos movidos por energias mais primárias que não são lapidadas ou trabalhadas pelo pensamento; por isso somos egoístas, hipócritas, machistas, racistas, religiosos, carnavalescos e fragmentários.
Fragmentários por não sermos capazes de compreender o todo. Carnavalescos porque somos dados a alegrias e festejos. Religiosos porque somos enfraquecidos de civilidade, cidadania, sociedade e política, pedindo para Deus o que os homens do poder deveriam nos fornecer. Racistas porque julgamos não só pela cor da pele, mas pela condição social, pelo credo, pela origem, pelo trabalho, pelo sotaque. Machistas porque adoramos as mulheres que exibem seus corpos (ou bundas e peitos) e nada mais: homens adoram mulheres por seus corpos e mulheres exibem seus corpos para serem adoradas. Hipócritas porque saímos para as ruas exigir moralidade política dos mesmos homens que elegemos por décadas e décadas; porque nos dizemos religiosos mas somos coniventes com uma polícia que mata bandidos e traficantes; porque maldizemos autoridades que roubam dinheiro público mas fazemos de tudo por nossos próprios benefícios; porque estamos entre os países mais consumistas do mundo, sujamos vias públicas, soltamos balões, mas pedimos para salvar a Amazônia.
Neste ambiente social, de homens enfraquecidos ou desprovidos de pensamentos, vivem os brasileiros. O mesmo país que “condena” (pelo menos em discurso) a agressão física contra mulheres (Lei Maria da Penha) mas dá um milhão de reais para um ator de dotes artísticos duvidosos e processado por agressão física, inclusive filmada. O mesmo país no qual a mídia (CQC, Pânico na TV, Brothers e afins) adora políticos como Suplicy que cantam musiquinhas no Congresso, apresentam cartão vermelho na tribuna, mas nos últimos anos tem tido pouquíssima atuação política relevante (85% de projetos com pouco ou nenhum impacto). Tudo se tornou um imenso circo sentimental neste país, um discurso tão absurdo que fica difícil contra-argumentar, dado o nível intelectual de nossos interlocutores.
Semana passada vi alunos saindo bastante confusos de uma aula na qual o professor havia dito que era ateu. Pronto! Foi o suficiente para odiarem este professor, sem sequer ouvir os motivos ou razões que o levam a PENSAR desta maneira. Nada contra quem não conceba um mundo sem Deus, eu mesmo acredito em Deus, mas ter uma reação tão emotiva diante de um professor que, em minha opinião é o melhor que já tive, parece-me absurdo, ou melhor, tipicamente brasileiro. Não se ouve um discurso como um embate de idéias, mas sim como ofensa pessoal. Somos sentimentais demais, frágeis demais, ofendidos e ufanistas demais. Nossa tríade (sentir, pensar e agir) está completamente comprometida com discursos ilógicos e sentimentais, com debates calorosos sobre coisa nenhuma, defendendo argumentos fragmentários e hipócritas. Sem um sério e amplo projeto educacional, nosso país jamais será o país do futuro, como escreveu na década de 1940 o escritor austríaco Stefan Zweig.

5 comentários:

  1. Emerson Sitta26/08/2009 17:14

    Uma bela reflexão. Infelizmente, o resultado está correto. Prejudicados em nossa formação intelectual, somos sim movidos pelos sentimentos. Evidente que não podemos ser uma montanha de pedras, no entanto, o recurso sentimental deve ser equilibrado pelo racional.

    Olhando assim, até parece que não há mais o que fazer.

    Mas deve haver, sim, deve haver.

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  2. A resposta esta na última frase:
    "Sem um sério e amplo projeto educacional, nosso país jamais será o país do futuro".
    Sem isso, continuaremos patinando nas mesmas ladainhas de sempre, como tem ocorrido atualmente. Um bando de oportunistas fabricando discursos hipócritas, enquanto o povo continua na mesma falta de condições de vida.

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  3. Ana Paula Fernandes D'Amico26/08/2009 22:55

    Caramba! Que mega reflexão! Muito Obrigada! Seu texto está magnífico. Escreva sempre! Faz um bem danado! Te amo!

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  4. Sem dúvida um ótimo texto! Só não sei se isso tem cura, não. Talvez nem com educação. Estas características não estão mais só nos países miseráveis como o nosso. Penso que o mal já se espalhou para pelo menos 3/4 do mundo. Um mundo inteirinho de idiotas, melhor começar do zero rsrs

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  5. Não sei, mas acho que educação, cultura e pensamento podem mudar este cenário. Ainda creio nisso.

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