20/08/2009

Flash Mob sem gelo, por favor

Parece bebida, mas Flash Mob é a nova onda. Nem tão nova, pois notícias de meses atrás já vão para o museu na tal “era da informação”. De qualquer modo, as ditas palavrinhas significam “mobilização instantânea”, ou seja, o encontro de pessoas para determinado fim (mobilização). Os motivos são variados como a “guerra dos travesseiros”, o “no pants day” ou o recente “fora Sarney”. Acontece via internet, orkut, facebook, twitter ou algo do gênero (instantânea).
Embora esteja na crista da onda, o Flash Mob pode não passar de entretenimento como na “guerra dos travesseiros” ou de ingenuidade como no “fora Sarney”. Parece herança dos “caras pintadas”, quando a juventude acreditava ser a causa do impeachment de Collor. Diferente daquela politizada da década de 60, manifestando-se contra a Ditadura. São tempos e gerações diversas.
Atualmente creio haver uma confusão essencial nestas mobilizações. Comumente atraem a atenção para um evento despercebido do público, como índios que paralisam uma estrada, por exemplo, chamando atenção da mídia e povo para suas reivindicações. No caso do flash mob “fora Sarney”, mostrou-se indignação sobre fatos extensamente veiculados, na verdade, como reforço para a “mídia de uma nota só”. Neste sentido não trouxe nada de novo, nenhuma modificação, principalmente social ou política.
A falta de força de uma mobilização não está nela própria, mas em seus condutores, participantes, objetivos e no cotidiano de cada um. As verdadeiras mudanças ocorrem diariamente em nossas ações dentro de cada setor de nossa vida: família, escola, trabalho, espaço público e privado e outros. Temos primeiro de saber o que queremos para depois escolher um método eficaz para atingir o objetivo, mas parece que vivemos querendo apenas aquilo que a mídia quer.
Imagine 500 pessoas reunidas em Copacabana protestando contra Yeda Crusius, governadora do RS. O protesto pode aparecer no jornal local e, digamos, ganhe destaque no Jornal Nacional. Yeda está fora do governo? Não! Mas imaginemos que manifestações semelhantes surjam pelo país. Yeda estará fora do governo assim? Não! Então, estes movimentos servem para algo? Sim, quando somos conscientes da cidadania e a exercemos cotidianamente, mas ainda assim pode ser insuficiente. Se os intensos movimentos estudantis, artísticos, políticos e intelectuais de 1964 a 1969 não derrubaram a Ditadura, menos ainda derrubariam os atuais Yeda, Sarney, Virgílio ou Gilmar Mendes, pois por trás do Golpe Militar existiam fortes interesses e apoio dos norte-americanos. É preciso mais que mobilizações para se alterar uma nação.
A diferença política e social pode estar em nosso cotidiano, em cada ação realizada. A preocupação de melhorarias na escola em que estudamos ajuda a Educação Brasileira, embora não a determine. O respeito por professores e o interesse em tirar máximo proveito do ensino também. Na saúde pública, por exemplo, não adianta apenas reivindicar hospitais e atendimento, quando deixamos nas ruas bitucas, papéis e cães defecando. Cuidar destas pequenas coisas também é cuidar da Saúde Pública. Pouco útil é adotar modelos semelhantes ao da lei antifumo, estimulando o dedo-duro, o “vigiar e punir” e mais uma vez privilegiar o jeitinho brasileiro, pois só é punida a infração dedurada ou flagrada. Logo criamos métodos eficientes de burlar a lei. “Vigiar e punir” só auxilia a ocultação dos crimes, e não atinge suas reais causas. Sou a favor do respeito pelos não-fumantes, mas contra os moldes da lei antifumo. Como resolver os problemas? Com debates entre os diversos setores da sociedade (inexistente no Brasil) e não com medidas autopromocionais apoiadas pela imprensa.
Nada tenho nada contra qualquer tipo de mobilização e creio que em certos casos estas são essenciais, mas toda e qualquer mudança política ou social inicia-se no conhecimento dotado das corretas informações e guiado pelo livre pensamento. Fora disto, resta a quizumba midiática.
Por que dedicar texto tão grande ao flash mob? Bem, a questão não é a nova ou a velha onda, mas sim o eterno mar em que nos afogamos sempre. O mar da indignação manipulada ou de sua falta total. Ou a mídia nos manda ficar indignados ou permanecemos calados bebendo cerveja, sambando e vendo futebol. As transformações almejadas devem ser entendidas como um processo e não como um milagre Flash Mob. Lendo jornais e revistas periodicamente, informando-se através de blogues confiáveis, o cidadão adquire aos poucos a noção da realidade que o cerca, e poderá tornar-se atuante e não somente coadjuvante. Desconheço homens sábios e dotados de conhecimento que sejam apáticos e imóveis na sociedade. A correta atuação social decorre da obtenção de conhecimento. O resto é perfumaria.

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