21/09/2009

Diálogo sobre ideologia

Escrevi um Ensaio sobre violência poucos dias atrás. Meu caro amigo Emerson Sitta fez um comentário muito bom sobre o texto. Logo em seguida fiz uma correção, quero dizer, coloquei uma idéia diferente a respeito. Emerson treplicou e assim teve início um saudável embate de idéias, ainda inacabado.
Como este diálogo cresceu muito, achei justo criar uma postagem para ele.
Daquele pequeno ensaio nasceu um diálogo sobre ideologias. O espaço é aberto para outros interlocutores. O diálogo segue abaixo:
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Emerson Sitta disse...
Muito interessante a questão sobre o movimento e as consequentes relações que fez. De fato, pouco fizemos e, talvez, pouco fazemos para mudar esta situação social brasileira. Até que ponto podemos chegar ainda não sabemos. Parece que a cada dia avistamos um horror ainda maior. Crianças arrastadas pelo cinto de segurança, bala perdida acertando um caixão dentro de um funeral, um homem morre por uma bala de fuzil quando abastecia o seu carro em um posto de gasolina...
Tenho medo que isso se transforme em uma característica brasileira. Como se isso fosse a nossa cultura. Um pouco selvagem é verdade. Mas o Brasil é uma selva, não é mesmo?
Infelizmente, vou responder como podemos começar a reverter tal problema, com um clichê que nesse caso vale: temos que investir em Educação. Não há outra saída. Mas cuidado com aquelas propagandas do governo que diz "Venha ser professor". O problema não é só nosso.Investir em Educação também não é apenas construir escolas como tem apresentado o Presidente da FIESP falando sobre o SESI e o SENAI.
É preciso força para gerar e gerir ideologias. Um movimento de força interna. Antropofágico, como fizeram os Modernistas.
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M.A.D. disse...
Meu caro amigo Emerson, seu comentário é brilhante, mas faço uma correção no último parágrafo: é preciso força para gerar e gerir pensamento e conhecimento, pois ideologias e idelogismos existem aos montes, e se prestam mais para a deturpação do que para outra coisa qualquer.
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Emerson Sitta disse...
Quando disse ideologia, pensei certamente que ela é sim fruto de um profundo pensamento e que consequentemente gerá conhecimento.
Se não houver formalização desse processo pensamento-conhecimento, o que entendo que seja ideologia, não teremos mudança, revolução ou qualquer discurso de porta de fábrica. Também disse gerar, não disse seguir ideologias.
E dizer que existem ideologias aos montes e que elas mais atrapalham, me parece generalizar. Uma ideia aberta demais.
É preciso força para gerar e gerir ideologias sim, porque são elas frutos de pensamento apurado e conhecimento.Eu disse construir outra ideologia antropofagicamente. Entende?
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M.A.D. disse...
Dizer que existem ideologias aos montes e que mais atrapalham do que constróem pensamento e conhecimento não é generalizar.
Toda ideologia segue uma estrutura de pensamento e só encontra sua própria razão de existir dentro desta estrutura. Alterar esta estrutura, no caso de uma ideologia, é comumente entendida como deturpação de uma ideologia ou se está fazendo um adendo a determinada estrutura.
O conhecimento é aberto e necessita de tensões para continuar existindo. Ideologias eliminam as tensões. O conhecimento é evolutivo. Ideologias não; estão aí para serem compreendidas, adotadas ou não. A ideologia é uma interpretação da realidade, e muitas vezes utiliza-se de determinados conhecimentos. Mas o conhecimento contém as diversas realidades em tensão dentro de si, os diversos pensamentos pulsando dentro de si, e por isso evoluem.
O conhecimento permite estudar todas as ideologias e evoluir o conhecimento em si. As ideologias muitas vezes negam-se entre si, negam a evolução, porque são uma espécie de silogismo, no sentido clássico-filosófico.
As ideologias são generalizadoras da realidade e do próprio conhecimento. O conhecimento verdadeiro deve ser obtido através do pensamento complexo, de métodos para sua obtenção, da transdisciplinariedade, da comunicação entre as diversas formas de pensamento e conhecimento.
Ideologias reduzem tudo isto a um silogismo que, embora possa parecer incrível, encerra-se em si mesmo, distorce a realidade. Para mim, toda ideologia é apenas um ideologismo, obedece a um modelo e, mesmo inconsciente, nega outras partes importantes da realidade.
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Emerson Sitta disse...
Acho justo o pensamento ser entendido como complexo, mas sinto que tanta complexidade gera imprecisão, de forma natural é claro, pois nossa conduta é sempre imperfeita e insatisfeita.
Portanto, para mim se não fecharmos o pensamento, não decidirmos o que vamos fazer, e isto parece ciência, nada conseguiremos.
E é claro que não precisamos eternizar ideologias. Sempre podemos transformá-las. Caso contrário, ficamos assim: você diz daí e eu daqui. E não fechamos nada.
Bom, assim pelo menos aprendemos algo um com o outro. Isto é democracia. Me parece uma ideologia também. O que será que virá depois?
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M.A.D. disse...
Não creio que a complexidade gere imprecisão. A imprecisão é um elemento presente até na natureza. A música é a arte precisa da imprecisão. O ritmo, o tempo, estão nas mentes de cada instrumentista.
Ouvimos e tocamos juntos, ao mesmo tempo, e tudo é impreciso, jamais poderia ser perfeito, e mesmo assim, a música chega aos ouvidos da platéia com uma precisão imperfeita, ou com perfeita imprecisão.
Fechar o pensamento, para mim, é proibi-lo de crescer e evoluir. Os maiores filósofos do mundo nunca conseguiram encerrar nenhum assunto, e quando o tentam fazer, criam ideologias.A ciência, no sentido mais comum, pode ser entendida como incapacidade de lidar com a imprecisão.
A ciência não é capaz de pensar o movimento, ela tem de conhecer a partida e a chegada para imaginar seu caminho. Para efeitos de cálculo, a ciência tem que determinar certo momento e fazer cálculos a partir de então. Mas a física quântica é capaz de compreender este movimento, ou talvez ainda esteja bem no começo, mas com certeza é uma nova forma de se fazer ciência, admitindo a impossibilidade de ser preciso.
Quando se pára um elétron, ele deixa de ser um elétron. Elétron é movimento. Ciência não. Ideologia não.Mas pra quê vou querer uma ideologia, para depois transformar? Se podemos mudar, e muitas vezxes devemos mudar, é porque sua falha está em ser fechada. A imprecisão é sempre imprecisa. O conhecimento é sempre aberto. Você diz, eu digo, e assim construímos uma narrativa, um discurso. Assim é a história humana, ou teremos chegado ao fim da história?
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Emerson Sitta disse...
A ideologia que quero é de transformação e não de estagnação. Sem princípios não há revolução, não que isso seja seguro, é claro.
Mas é simples percebermos que a falta de ideologia nos torna perdidos, confusos e alienados. Tente apenas responder uma pergunta simples: Qual é a ideologia educacional do Brasil? Ou melhor: Qual ideologia o sistema educacional brasileiro segue?
Eu lhe respondo: um punhado de nomes importados que se parecem perfeitos mas em pleno desacordo com a realidade brasileira. Aceitamos essas e outros interesses do governo, porque nunca fomos capazes de nos reunirmos para pensar pedagogia, apenas para reinvindicar melhores salários.
Atrasados e muito atrasados, sequer pensamos em Educação. Que mudança podemos esperar. Nenhuma é claro.
Portanto, neste caso, se não houver um nome, um acordo de interesses, uma tomada de posição bastante definida, nunca haverá transformações. Talvez alguns ajustes.
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M.A.D. disse...
Precisamos de método, metodologia para gerar conhecimento.
O movimento (não significando manifestação) que gera transformação não está na ideologia. Transformação está no conhecimento. Uma ideologia envolve conhecimentos específicos, visões específicas, ao tempo em que nega outros. O conhecimento (em sentido amplo) compreende ideologias, sistemas, visões, percepções e muito mais. Por isso mesmo o conhecimento traz dentro de si a tensão necessária para gerar mais conhecimento e evoluir. Não desejo e não escolho para mim um sistema de idéias, mas estudo ideologias para aprimorar meus conhecimentos.
Será que o problema educacional do Brasil é a escolha de uma ou mais ideologias? O Brasil investe 4 vezes menos que a média mundial em ensino fundamental, e se isto tem algo a ver com ideologias, talvez seja a neoliberal ou capitalista. Ao mesmo tempo, em comparação com o investimento no fundamental, o Brasil investe cerca de 7 vezes mais em universidades públicas e ainda assim, este investimento está abaixo da média mundial. Agora veja: apenas 11% da população brasileira chega nas universidades e deste montante, apenas 30% estão em públicas. Aproximadamente 3,5% da população brasileira desfrutam dos maiores investimentos educacionais, que ainda são insuficientes. Num mundo capitalista, não há ideologia ou sistema educacional que tenha triunfo sem investimento.
Historicamente, antes os índios e agora brasileiros em geral, nunca tivemos a capacidade de unirmos esforços para reivindicar interesses comuns. Claro que numa sociedade somos diferentes, pensamos diferente, mas nem sequer conseguimos promover debates constantes para evoluir socialmente. Somos um sistema de exclusão acima de tudo, somos majoritariamente racistas, machistas, carnavalescos e analfabetos funcionais. É triste, porém real.
Popularmente, cariocas não gostam de paulistas, paulistas não gostam de nordestinos e assim por diante. Temos preconceitos sim, que não aparecem no Jornal da TV ou na novela, mas nem por isso deixam de estar latentes na maioria de nós. Esta talvez seja a ideologia dos colonizados.
Para qualquer área do conhecimento que se estude, irá se aprender um punhado de nomes em inglês, porque fomos colonizados por Portugal, França, Inglaterra e atualmente EUA. Isso quer dizer que não temos pensadores? Claro que temos. Mês passado perguntei para uma Pedagoga qual o tipo de abordagem e conteúdo que a universidade pública na qual se formou, fornecia sobre Paulo Freire. A resposta literal foi “alguns textos pequenos, picados”. Em minha concepção, deveria existir uma matéria só para os conceitos de Paulo Freire, mas enfim...
Tempos atrás, conversando com um formando em Publicidade, comentei que seria interessante se o curso dele tivesse uma matéria sobre Poesia Concreta, por vários motivos. A pergunta “o que é poesia concreta” pode nos dar idéia da educação no Brasil. Penso que existem muitos fatores essenciais na educação brasileira, e a ideologia é apenas um deles. A educação não deixa de ser um reflexo da sociedade na qual vivemos, assim como segurança, política et cetera. A sociedade está repleta de ideologias e não me é estranho que se pareça com o caos.

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