16/09/2009

Ensaio sobre a violência

Existir é o eterno movimento. Buscamos existir o tempo todo, seja uma existência social, artística, cultural, financeira, sexual ou religiosa; mesmo um suicida quer existir para ser ouvido pelo que antes não fora, para o último suspiro ou para fora da masmorra em que se crê viver.
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No nascimento começa nossa existência, ao recebermos nome próprio, identidade. A partir de então, a vida se inundará de particularidades. Mas a existência precisa ser reconhecida pelos demais que nos cercam, caso contrário, estaremos isolados pelo mesmo mundo ou esfera da qual desejamos participar.

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No Brasil, os negros trazidos da África aos montes, amontoados, não tinham a existência reconhecida pelos que tinham voz ativa na sociedade. Depois de séculos e como os últimos no mundo, o Brasil aboliu a escravatura. Ainda assim, os negros não tiveram a existência reconhecida. Foram se amontoar nos morros do Rio de Janeiro ou em diversas favelas no restante do país. 
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No Rio de Janeiro, até a década de 1950, os morros não existiam para a imprensa e sociedade. A polícia já subia lá nesta época, matava e ganhava seus extras financeiros, num tempo em que tráfico, cocaína e crack não eram conhecidos por ali. Na década seguinte, após a implantação da Ditadura Militar, a violência se transformou barbaramente.
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As instituições que deveriam promover a segurança pública tornaram-se agentes de uma violência desmedida, descabida, imoral e sem escrúpulos. Meia dúzia de bandidos dos morros foi enjaulada com dezenas de presos políticos. Revoltados com o tratamento e as condições recebidas, se organizaram e assim nasceu o Comando Vermelho, organização em atividade até os dias atuais.
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A violência, a droga, a fome, o homicídio e as condições de miséria não se contiveram mais e desceram os morros. Só então, a sociedade passou a perceber sua existência de fato, embora isto não signifique compreensão ou auxílio.
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Anos e anos se passaram. A sociedade e a imprensa quase não mudaram a respeito da inclusão social. O tráfico, a cocaína e o crack já se espalham por todos os lugares. A elite e a classe média continuam clamando por existir num mundo de paz. O morro ainda quer existir neste mundo mesmo.
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Imaginemos que por um milagre, neste momento, traficantes, vapores, falcões, soldados do tráfico e viciados desistissem de seus delitos. Todos, aqui e agora, resolvessem viver num mundo de paz, largando armas, enterrando drogas e a pressuposta “natureza má” que lhe atribuem. Chegariam aos microfones da imprensa e diriam, “chega, a partir de agora viveremos num mundo de paz”.
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Como iríamos inserir essa massa na sociedade, além de um milhão e quatrocentos mil que vivem em condição de miséria só na capital carioca? Ainda sem contar os milhares de desempregados que aqui sobrevivem, como lhes reconheceríamos a tão sonhada existência? Qual é, ou seria, nosso projeto social para eles?
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Será que, por não termos projetos de inclusão social funcionais, muitos gritam pelas ruas “vagabundo tem que morrer”? Na prática, escolhemos inclusão social ou genocídio conivente com o Estado? Será este o motivo que faz apresentadores de televisão (ditos jornalistas) bradarem “tem que meter bala na vagabundagem”? Será por isto que bandidos preferem atirar e matar ao invés de morrer, enquanto ficamos apenas contando os corpos produzidos por nossa incompetência social?
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Hipocrisia e demagogia são os amálgamas de nossos discursos nos jornais e escolas, entre familiares e amigos? O que temos de melhor para oferecer são balas? E quando a violência se volta para nós ou algum familiar, só então, mudamos nosso discurso? Os jornais mostram um Rio de Janeiro, as novelas exibem outro, mas nós aqui vivemos em vários outros que quase nunca são abordados. Por que estrangeiros têm a impressão de que o Rio é o Brasil, de que somos selvagens e dedicados ao sexo? Somos assim, exibimo-nos assim ou nos tratamos deste modo?
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Neste incompleto ensaio sobre a violência, a melhor pergunta que consigo fazer e oferecer como conclusão é: qual é nosso projeto para concretizar a existência de milhões de pessoas que vivem à margem de nossa sociedade? Como nos mobilizamos por eles?

7 comentários:

  1. Emerson Sitta17/09/2009 09:38

    Muito interessante a questão sobre o movimento e as consequentes relações que fez.

    De fato, pouco fizemos e, talvez, pouco fazemos para mudar esta situação social brasileira.

    Até que ponto podemos chegar ainda não sabemos. Parece que a cada dia avistamos um horror ainda maior. Crianças arrastadas pelo cinto de segurança, bala perdida acertando um caixão dentro de um funeral, um homem morre por uma bala de fuzil quando abastecia o seu carro em um posto de gasolina...

    Tenho medo que isso se transforme em uma característica brasileira. Como se isso fosse a nossa cultura. Um pouco selvagem é verdade. Mas o Brasil é uma selva, não é mesmo?

    Infelizmente, vou responder como podemos começar a reverter tal problema, com um clichê que nesse caso vale: temos que investir em Educação. Não há outra saída.

    Mas cuidado com aquelas propagandas do governo que diz "Venha ser professor". O problema não é só nosso.

    Investir em Educação também não é apenas construir escolas como tem apresentado o Presidente da FIESP falando sobre o SESI e o SENAI.

    É preciso força para gerar e gerir ideologias. Um movimento de força interna. Antropofágico, como fizeram os Modernistas.

    E basta.

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  2. Meu caro amigo Emerson, seu comentário é brilhante, mas faço uma correção no último parágrafo: é preciso força para gerar e gerir pensamento e conhecimento, pois ideologias e idelogismos existem aos montes, e se prestam mais para a deturpação do que para outra coisa qualquer.

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  3. Emerson Sitta18/09/2009 21:42

    Quando disse ideologia, pensei certamente que ela é sim fruto de um profundo pensamento e que consequentemente gerá conhecimento.

    Se não houver formalização desse processo pensamento-conhecimento, o que entendo que seja ideologia, não teremos mudança, revolução ou qualquer discurso de porta de fábrica.

    Também disse gerar, não disse seguir ideologias.

    E dizer que existem ideologias aos montes e que elas mais atrapalham, me parece generalizar. Uma ideia aberta demais.

    É preciso força para gerar e gerir ideologias sim, porque são elas frutos de pensamento apurado e conhecimento.

    Eu disse construir outra ideologia antropofagicamente. Entende?

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  4. Dizer que existem ideologias aos montes e que mais atrapalham do que constróem pensamento e conhecimento não é generalizar. Toda ideologia segue uma estrutura de pensamento e só encontra sua própria razão de existir dentro desta estrutura. Alterar esta estrutura, no caso de uma ideologia, é comumente entendida como deturpação de uma ideologia ou se está fazendo um adendo a determinada estrutura. O conhecimento é aberto e necessita de tensões para continuar existindo. Ideologias eliminam as tensões. O conhecimento é evolutivo. Ideologias não; estão aí para serem compreendidas, adotadas ou não. A ideologia é uma interpretação da realidade, e muitas vezes utiliza-se de determinados conhecimentos. Mas o conhecimento contém as diversas realidades em tensão dentro de si, os diversos pensamentos pulsando dentro de si, e por isso evoluem. O conhecimento permite estudar todas as ideologias e evoluir o conhecimento em si. As ideologias muitas vezes negam-se entre si, negam a evolução, porque são uma espécie de silogismo, no sentido clássico-filosófico. As ideologias são generalizadoras da realidade e do próprio conhecimento. O conhecimento verdadeiro deve ser obtido através do pensamento complexo, de métodos para sua obtenção, da transdisciplinariedade, da comunicação entre as diversas formas de pensamento e conhecimento. Ideologias reduzem tudo isto a um silogismo que, embora possa parecer incrível, encerra-se em si mesmo, distorce a realidade. Para mim, toda ideologia é apenas um ideologismo, obedece a um modelo e, mesmo inconsciente, nega outras partes importantes da realidade.

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  5. Emerson Sitta19/09/2009 17:12

    Acho justo o pensamento ser entendido como complexo, mas sinto que tanta complexidade gera imprecisão, de forma natural é claro, pois nossa conduta é sempre imperfeita e insatisfeita.

    Portanto, para mim se não fecharmos o pensamento, não decidirmos o que vamos fazer, e isto parece ciência, nada conseguiremos.

    E é claro que não precisamos eternizar ideologias. Sempre podemos transformá-las.

    Caso contrário, ficamos assim: você diz daí e eu daqui. E não fechamos nada.

    Bom, assim pelo menos aprendemos algo um com o outro.

    Isto é democracia. Me parece uma ideologia também.

    O que será que virá depois?

    VALEU

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  6. Não creio que a complexidade gere imprecisão. A imprecisão é um elemento presente até na natureza. A música é a arte precisa da imprecisão. O ritmo, o tempo, estão nas mentes de cada instrumentista. Ouvimos e tocamos juntos, ao mesmo tempo, e tudo é impreciso, jamais poderia ser perfeito, e mesmo assim, a música chega aos ouvidos da platéia com uma precisão imperfeita, ou com perfeita imprecisão.
    Fechar o pensamento, para mim, é proibi-lo de crescer e evoluir. Os maiores filósofos do mundo nunca conseguiram encerrar nenhum assunto, e quando o tentam fazer, criam ideologias.
    A ciência, no sentido mais comum, pode ser entendida como incapacidade de lidar com a imprecisão. A ciência não é capaz de pensar o movimento, ela tem de conhecer a partida e a chegada para imaginar seu caminho. Para efeitos de cálculo, a ciência tem que determinar certo momento e fazer cálculos a partir de então. Mas a física quântica é capaz de compreender este movimento, ou talvez ainda esteja bem no começo, mas com certeza é uma nova forma de se fazer ciência, admitindo a impossibilidade de ser preciso. Quando se pára um elétron, ele deixa de ser um elétron. Elétron é movimento. Ciência não. Ideologia não.
    Mas pra quê vou querer uma ideologia, para depois transformar? Se podemos mudar, e muitas vezxes devemos mudar, é porque sua falha está em ser fechada. A imprecisão é sempre imprecisa. O conhecimento é sempre aberto.
    Você diz, eu digo, e assim construímos uma narrativa, um discurso. Assim é a história humana, ou teremos chegado ao fim da história?

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  7. Emerson Sitta20/09/2009 11:11

    A ideologia que quero é de transformação e não de estagnação. Sem princípios não há revolução, não que isso seja seguro, é claro.

    Mas é simples percebermos que a falta de ideologia nos torna perdidos, confusos e alienados. Tente apenas responder uma pergunta simples: Qual é a ideologia educacional do Brasil? Ou melhor: Qual ideologia o sistema educacional brasileiro segue?

    Eu lhe respondo: um punhado de nomes importados que se parecem perfeitos mas em pleno desacordo com a realidade brasileira.

    Aceitamos essas e outros interesses do governo, porque nunca fomos capazes de nos reunirmos para pensar pedagogia, apenas para reinvindicar melhores salários.

    Atrasados e muito atrasados, sequer pensamos em Educação. Que mudança podemos esperar. Nenhuma é claro.


    Portanto, neste caso, se não houver um nome, um acordo de interesses, uma tomada de posição bastante definida, nunca haverá transformações. Talvez alguns ajustes.

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