Ensaio sobre a violência

Existir é o eterno movimento. Buscamos existir o tempo todo, seja uma existência social, artística, cultural, financeira, sexual ou religio...

Existir é o eterno movimento. Buscamos existir o tempo todo, seja uma existência social, artística, cultural, financeira, sexual ou religiosa; mesmo um suicida quer existir para ser ouvido pelo que antes não fora, para o último suspiro ou para fora da masmorra em que se crê viver.
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No nascimento começa nossa existência, ao recebermos nome próprio, identidade. A partir de então, a vida se inundará de particularidades. Mas a existência precisa ser reconhecida pelos demais que nos cercam, caso contrário, estaremos isolados pelo mesmo mundo ou esfera da qual desejamos participar.

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No Brasil, os negros trazidos da África aos montes, amontoados, não tinham a existência reconhecida pelos que tinham voz ativa na sociedade. Depois de séculos e como os últimos no mundo, o Brasil aboliu a escravatura. Ainda assim, os negros não tiveram a existência reconhecida. Foram se amontoar nos morros do Rio de Janeiro ou em diversas favelas no restante do país. 
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No Rio de Janeiro, até a década de 1950, os morros não existiam para a imprensa e sociedade. A polícia já subia lá nesta época, matava e ganhava seus extras financeiros, num tempo em que tráfico, cocaína e crack não eram conhecidos por ali. Na década seguinte, após a implantação da Ditadura Militar, a violência se transformou barbaramente.
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As instituições que deveriam promover a segurança pública tornaram-se agentes de uma violência desmedida, descabida, imoral e sem escrúpulos. Meia dúzia de bandidos dos morros foi enjaulada com dezenas de presos políticos. Revoltados com o tratamento e as condições recebidas, se organizaram e assim nasceu o Comando Vermelho, organização em atividade até os dias atuais.
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A violência, a droga, a fome, o homicídio e as condições de miséria não se contiveram mais e desceram os morros. Só então, a sociedade passou a perceber sua existência de fato, embora isto não signifique compreensão ou auxílio.
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Anos e anos se passaram. A sociedade e a imprensa quase não mudaram a respeito da inclusão social. O tráfico, a cocaína e o crack já se espalham por todos os lugares. A elite e a classe média continuam clamando por existir num mundo de paz. O morro ainda quer existir neste mundo mesmo.
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Imaginemos que por um milagre, neste momento, traficantes, vapores, falcões, soldados do tráfico e viciados desistissem de seus delitos. Todos, aqui e agora, resolvessem viver num mundo de paz, largando armas, enterrando drogas e a pressuposta “natureza má” que lhe atribuem. Chegariam aos microfones da imprensa e diriam, “chega, a partir de agora viveremos num mundo de paz”.
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Como iríamos inserir essa massa na sociedade, além de um milhão e quatrocentos mil que vivem em condição de miséria só na capital carioca? Ainda sem contar os milhares de desempregados que aqui sobrevivem, como lhes reconheceríamos a tão sonhada existência? Qual é, ou seria, nosso projeto social para eles?
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Será que, por não termos projetos de inclusão social funcionais, muitos gritam pelas ruas “vagabundo tem que morrer”? Na prática, escolhemos inclusão social ou genocídio conivente com o Estado? Será este o motivo que faz apresentadores de televisão (ditos jornalistas) bradarem “tem que meter bala na vagabundagem”? Será por isto que bandidos preferem atirar e matar ao invés de morrer, enquanto ficamos apenas contando os corpos produzidos por nossa incompetência social?
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Hipocrisia e demagogia são os amálgamas de nossos discursos nos jornais e escolas, entre familiares e amigos? O que temos de melhor para oferecer são balas? E quando a violência se volta para nós ou algum familiar, só então, mudamos nosso discurso? Os jornais mostram um Rio de Janeiro, as novelas exibem outro, mas nós aqui vivemos em vários outros que quase nunca são abordados. Por que estrangeiros têm a impressão de que o Rio é o Brasil, de que somos selvagens e dedicados ao sexo? Somos assim, exibimo-nos assim ou nos tratamos deste modo?
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Neste incompleto ensaio sobre a violência, a melhor pergunta que consigo fazer e oferecer como conclusão é: qual é nosso projeto para concretizar a existência de milhões de pessoas que vivem à margem de nossa sociedade? Como nos mobilizamos por eles?

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