29/09/2009

À espera dos milagres


O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes já estão em Copenhague, para dar força a candidatura do Rio 2016. Chegaram hoje por volta das 5 horas da manhã (horário de Brasília). O Rei Pelé já está lá. O Presidente Lula e o mago-escritor Paulo Coelho devem chegar amanhã.

A delegação brasileira provavelmente se encontrará com a norte-americana, que conta com Barack Obama, Michael Jordan, Oprah Winfrey, entre outros. Os E.U.A. já sediaram as Olimpíadas de 1904, 1932, 1984 e 1996. Nesta disputa descobriu-se que o site ChicagoansForRio.com, apontado como fraude carioca, foi criado pelo redator publicitário Kevin Lynch, morador de Chicago e torcedor do Rio de Janeiro. Apenas mais um capítulo.

A capital carioca já teve 4 milhões e 500 mil votos num placar eletrônico instalado na praia de Copacabana, todos torcendo pelo Rio 2016. Na mesma praia está sendo montado um imenso palco para festejar a possível escolha do Rio para as Olimpíadas. É o marketing e a confiança falando acima da razão, dos gastos e necessidades públicas.

Falo sobre gastos públicos porque vejo incoerências na administração carioca. Por exemplo, o Banco de Olhos do Hospital de Bonsucesso está fechado. A Casa de Idosos Dercy Gonçalves em Copacabana está fechada. Dois hospitais psiquiátricos estão ameçados de fechar as portas, com médicos pedindo demissão por falta de condições de trabalho. Na cidade que esbanja violência, 300 novos policiais serão incorporados no combate ao crime, mas pelo que sei trabalharão apenas nas Unidades de Policiamento Pacificadoras, com objetivo de diminuir a violência na Zona Sul (cartão postal carioca), além de outra Unidade no Batan, em Realengo.

O "The New Yorker" publicou matéria sobre a violência carioca, dizendo que esta é a cidade das gangues, ou GangLand, bem na semana da decisão da sede. Leia um trecho:


"O Estado é quase que completamente ausente nas favelas. As gangs de drogas impõe seu próprio sistema de justiça, lei e ordem, e impostos – tudo por força das armas. Rio é a cidade do mundo no topo do rank internacional para mortes violentas, com quase 500 assassinatos no último ano, e ao menos metade disso era relacionado com gangs de drogas."

A mídia e o povo carioca ficaram um pouco irritados com a matéria, pois acham que a publicação foi para ferir a cadidatura do Rio. Nisto eu concordo, foi proposital, mas dizer que o Estado é ausente nas favelas, que o tráfico impõe suas leis, que a capital carioca está no topo do ranking internacional pr mortes violentas? Isso é mentira. Isso aqui é o paraíso. Os melhores hospitais do mundo, melhor transporte público, justiça social, paz, tudo se encontra no Rio de Janeiro.

Agora falando sério, torço para que as políticas públicas no Rio de Janeiro melhorem, porque o abandono é visível e absurdo. Vivemos numa guerra civil sem objetivos. Não se mata por uma sociedade mais justa, como fazia a guerrilha na Ditadura, não se rouba para melhorar a vida dos miseráveis (23% da população carioca). Sou contra todo e qualquer tipo de violência, mas coloquei estes exemplos apenas para mostrar que é uma guerra sem fim, porque é movida por interesses pessoais, e só.

Falando em contrastes, ontem fui parar na Emergência do Hospital Municipal Miguel Couto, com dores fortíssimas em minha hérnia, que ainda não foi operada por falta de vagas nos hospitais do município e/ou estado. Dentro da emergência, vi cenas absurdas, como um idoso com o crânio rasgado e vertendo sangue, deitado em uma maca e aguardando atendimento. O sangue era tanto que pingava no colchão e depois no chão. O mesmo chão que continha pequenas gotas de sangue de outros pacientes, como uma adolescente ferida em sua perna por uma queda ou o homem que tinha recebido alta no Hospital Municipal Souza Aguiar sem ter sido atendido. Este homem sofreu acidente de moto e entrou ali, no Miguel Couto, sem ter recebido um único curativo no Souza Aguiar, tinha várias feridas pelo corpo, todas abertas e sangrando.

Como fui parar na Emergência? Passei o dia todo deitado por conta das dores. Cancelei ou faltei aos meus compromissos. No final da tarde não aguentei e fui ao Miguel Couto, um dos hospitais onde aguardo vaga para a cirurgia. Depois de todos aqueles "PERAÍ" e "NÃO É AQUI" e "VAI PRA LÁ", o cirurgião disse:


"Estou vendo que você tem uma hérnia, que está sentindo fortes dores, mas ainda não é a hora de operar".

Conclusão: voltei pra casa depois de uma injeção. A conclusão médica mais parece uma previsão da Mãe Dinah do que com um diagnóstico racional e plausível. "Quando será a hora de me operar, oh, caro guru"? Por tudo isto pergunte: meu querido M.A.D., o que você pensa do Rio 2016 como sede das Olimpíadas? Quando e como espera ser operado? A política de segurança pública é ideal no Rio? E as desigualdades sociais? Para todas as perguntas, uma única resposta: à espera dos milagres.

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