26/09/2009

João, José, Deus e o discurso

José não era tido como pessoa normal por seus amigos. Tinha conceitos que poucos arriscariam ter e menos ainda a dizer. Mas dizia, fartamente, tudo o que viesse em sua mente. No mais, era comum, não muito diferente. Sua particularidade era ter idéias que causavam estranheza. Certo dia, um de seus amigos, João, ao ver uma reportagem perguntou a José:
- Você acredita em Deus?

- Não, João... Eu só acredito em pensamento...

- José, perguntei se acredita em Deus?

- Pra mim, pensamento e fala, as duas coisas, são uma só. Nunca foram separadas. Assim, vamos chamá-las de discurso, porque de certa maneira o são. Um é o discurso mental e o outro é o verbal, podendo ser...

- CARA! Tu tá maluco? Escuta José, perguntei se acreditava em Deus...

- Então, João, tô respondendo: só acredito em discursos. Deus, pra mim, é discurso: mental, verbal, imagético, simbólico...

João não o levava a sério. Achava que José gostava de tirar onda de intelectual. "Zé, você não é intelectual e nem filósofo, para de pirar", dizia seu amigo. Mas José tinha discurso enlouquecedor, ou melhor, um Deus enlouquecedor:

- Tá bem, Zé. De certa maneira, Deus também é um discurso...

- Mas estou dizendo que Deus é somente discurso, João. Nada mais do que discurso.

- Então... quem criou o mundo? Foi um discurso? Ou foi José?

- Mundos sempre existiram e sempre existirão. Compreende?

- Sim... quer dizer, não. Claro que não.

- João, presta atenção. Como em nosso mundo tudo nasce, vive e morre, você tem dificuldades de entender o que digo. Os mundos sempre existiram, assim como Deus, discurso, sempre existiu e existirá. O discurso é o verbo e nada mais. Você não percebe?

- Perceber? Que Deus é discurso?

- Isso João...

- Então, meu caro Zé... Deus não existe para mudos e surdos?

- Lá vem você com besteira. O discurso sempre existiu e existirá. Apenas foi revelado. Deus é discurso e nada mais.

- Zé, pensei que o homem tinha inventado os discursos...

- Não. O discurso criou o homem que reproduziu o discurso.

João era mesmo um perito em criar perguntas e levar uma discussão durante horas. Tinha o intuito de irritar José, mas quase sempre acabava irritado.

- Tá bem Zé. Como se reza para seu Deus, o Discurso?

- Ora bolas, todo discurso é uma forma de oração, assim como toda oração é um discurso.

- Tá bem... faz sentido. Mas como seu Deus pune os injustos?

- Não existe justiça ou punição no sentido que se costuma pregar. O sentido está no próprio discurso e não além dele. O que você chama de justiça ou injustiça é apenas o discurso e seu sentido está no próprio, não precisa de punição. O discurso tem sentido próprio e não precisa de punição...

- Mas como os homens serão orientados a fazer o que é certo, José?

- Não existe certo ou errado. Você precisa acreditar em alguém que lhe dê sentido, mas a vida não tem um sentido. Sinto muito... tudo nasce e morre pleno e eterna...

- Então tudo é permitido? Podemos fazer tudo? Tudinho? Roubar, matar?

- João, João. Oito ou oitenta João. O teu cristianismo prega o livre-arbítrio! Sempre fizemos o que quisemos fazer.

- Mas não se pode fazer qualquer coisa José. Tem coisa ruim que não se deve fazer José...

- Então não existe livre-arbítrio, João. O que há de errado com teu discurso?

- Pra mim chega, Zé. Che-ga. Você é muito arrogante. Só você está certo. Vou embora. Abraço. Fui.

E João seguiu andando com firmes passadas pela rua...

E José amava conversar. Não tinha faculdade e nem mesmo muito estudo, mas amava se perder em pensamentos. Sonhava em se casar com uma mulher que adorasse "filosofar" com ele. Sonhava.

Virou a cabeça sobre os ombros imóveis e viu João sumindo na longa avenida. Ficou ali, parado. Sentou no velho banco de concreto da praça e sentiu o cair da tarde em sua alma. Por alguns segundos se perguntou, "onde João viu tal reportagem?", mas logo esqueceu. Sentiu-se uma vez mais como a tarde, morrendo como o dia e nascendo como a noite. Dois discursos "falando" num só momento. A tarde é mesmo soberana. Não gostava do dia e nem gostava da noite. Só amanhecer e entardecer, o momento no qual tudo se encontra, o tempo em que Deus parece falar, mas não fala. Deus é discurso. Pode ser falado, pode ser pensado, mas não pode falar ou pensar.

Neste exato instante, José soltou um largo sorriso em seu rosto. Como podia chegar tão longe sentado no concreto? E riu-se mais ainda daqueles que pensam em Deus como um velhinho de barbas longas. Por que precisam tanto de Deus? Não lhes bastam a vida, o amor, o pensamento, a experiência, a dor, o sofrer?

Ainda perdido em pensamentos, viu um pequeno gato caminhando sorrateiro pela praça. Logo pensou, "este gato não crê em Deus, porque os gatos não sabem criar". Sorriu mais uma vez, fechou os olhos e sentiu o entardecer. Ficou em paz, pleno, com seu discurso.

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