10/11/2009

Sarney contra o livro

Por Emilio A. L. Azevedo - O dia 4 de outubro de 2009 é mais uma data que marcará a história de truculência da oligarquia Sarney. Neste dia, o jornalista Palmério Doria lançou em São Luís, no auditório do Sindicato dos Bancários, o livro Honoráveis Bandidos: Um retrato do Brasil na era Sarney. Inconformados com a denúncia, partidários do presidente do Senado proibiram que o livro fosse vendido em algumas livrarias da cidade (caso da Nobel, que mantém uma loja no aeroporto da capital maranhense).
Na verdade, o grupo do presidente do Senado (que ironicamente é membro das Academias maranhense e brasileira de letras) fez o que pôde para impedir a divulgação do evento, inclusive, destruindo placas de outdoor. O mais grave, no entanto, ocorreu no dia do lançamento, quando pessoas foram até o sindicato agredir os jornalista Palmério Dória, Milton Severiano e os adversários políticos do grupo Sarney que estavam no local. Enquanto Palmério falava para a platéia, foram jogados ovos e outros objetos em sua direção.
A violência gerou mais violência e provocou tumulto e muita pancadaria, danificando, inclusive, o patrimônio do sindicato. Apesar da baixaria, o evento seguiu e Palmério vendeu centenas de livros ao longo da noite. O sindicato dos Bancários fez uma nota sobre o incidente.
Um jornalista do Sistema de Comunicação do grupo Sarney, por conta das brigas internas da oligarquia, disse com todas as letras que as pessoas que foram ao sindicato estavam lá pagas por Roberto Costa, atual presidente do PMDB de São Luís e atual secretário de Estado do governo Roseana Sarney. O texto do blogueiro sarneysiata, foi reproduzido no Jornal Pequeno, diário de São Luís, no dia 05 de outubro.
O jornal mensal Vias de Fato, alternativo que começou a circular há pouco tempo no Maranhão, apoiou e ajudou a organizar o livro de Palmério. Após o incidente, eles divulgaram na internet um texto dando sua opinião sobre “a batalha dos bancários” e atual conjuntura do Maranhão.
A opinião do jornal Vias de Fato sobre o incidente ocorrido no Sindicato dos Bancários, durante o lançamento do livro Honoráveis Bandidos:
Sobre as vias e a liberdade
O lamentável incidente ocorrido no lançamento do livro Honoráveis Bandidos, dia 4 de novembro, na cidade de São Luís, revela o quanto o Maranhão carece de liberdade política. Sim, de liberdade. Se por um lado a palavra foi desgastada por diferentes demagogos ao longo das últimas décadas, por outro a necessidade concreta de uma libertação cresce a cada dia.
É revelador o fato de um grupo de pessoas contratadas pela máfia-Sarney ir até o auditório de um sindicato para jogar ovos e outros objetos no jornalista Palmério Dória, co-autor do livro que denuncia a trajetória política do coronel. Ato contínuo, o Sistema Mirante (previamente pautado pelos agressores) diz que era uma ousadia (ou provocação) lançar o livro em São Luís.
Qualquer semelhança com Vitorino Freire não é mera coincidência. Sarney é cria do vitorinismo. Começou na vida pública a partir de fraudes eleitorais montadas por seu pai (o ex-desembargador Sarney Costa) e pelo então senador Vitorino Freire, manda-chuva da política maranhense nas décadas de 1940 e 1950.
No período em que Vitorino mandou no Maranhão havia violência no campo e na cidade, com lavradores sendo perseguidos e jornais empastelados. Após Sarney substituir o seu padrinho, lavradores continuaram a ser massacrados e jornalistas perseguidos. O caso de José de Ribamar Bogéa, ocorrido na década de 1960 e o de Palmério Dória, ocorrido agora, são exemplos incontestáveis.
Então a liberdade (ou a falta dela) continua na pauta. O problema não está na palavra, mas em quem usa (ou usou ao longo da história). Independente de partidos ou de eleições existe sim, no Maranhão, um poderoso grupo opressor (definido pela Polícia Federal como organização criminosa) e milhões de oprimidos espalhados pelos quatro cantos do Estado.
São vítimas desta opressão, os índios Awá-Guajá, os trabalhadores transformados em mão de obra escrava, a militante da Cáritas ameaçada pelos madeireiros de Buriticupu (Naíza Gomes de Sousa Abreu), os cortadores de cana explorados pela TG Agroindustrial em Codó, os sem-terra perseguidos pelo juiz escravocrata Marcelo Baldochi (protegido pelo Tribunal de Justiça do Maranhão), os renegados de uma “Justiça” corrupta e elitista, as comunidades que sofrem com a poluição e os desmandos da Vale e da Alumar, os aliciados pelo Sistema Mirante etc.
O Maranhão tem que se livrar do “oportunismo e do adesismo” tão bem denunciados pelo professor Wagner Cabral em seu artigo publicado na 1º edição do Vias de Fato (“O Manto de Penélope”). Mas, além disso, tem também que encarar a realidade. Existe aqui uma estrutura opressora – montada sob o cajado de um candidato a faraó – que precisa ser combatida dentro de um processo político que vai além de simples eleições. E neste combate, não existe espaço para a omissão, a conivência, a subserviência às grandes estruturas de poder (públicas e/ou privadas) ou ao malabarismo verbal de políticos profissionais.
A guerra foi deflagrada bem antes da batalha do Sindicato dos Bancários. Ela é anterior ao golpe que levou Roseana de volta ao Palácio, anterior a crise atual da oligarquia, já acontecia antes dos assassinatos de Conceição Rosa e Padre Josimo, antes das torturas sofridas por Maria Aragão, antes dos processos movidos contra Ribamar Bogéa e Freitas Diniz e antes da policia do governo Sarney arrancar a perna de Manoel da Conceição. Na realidade, houve, ao longo de anos, um massacre que levou o Maranhão a ser o Estado mais pobre do Brasil. E neste confronto absolutamente desigual – que mata de fome e de bala – a questão é saber quem está de um lado e quem está do outro.
Esta é a grande dificuldade. É saber quem está na via dos opressores ou quem está na via dos oprimidos. É assim que o Vias de Fato observa a atual conjuntura. É nisso que nós acreditamos. Este é o debate que nos interessa.

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