09/12/2009

Como minimizar conflitos humanos?


Algo que não se pode apagar nos homens, não se pode eliminar da vida: eis um conflito. O bem e o mal, amor e ódio, corpo e mente, matéria e saber: forças antagônicas conhecidas popularmente como algumas de suas causas. Podemos minimizar seus efeitos, por vezes devastadores, assim como aperfeiçoar o modo pelo qual o enfrentamos. Mas é preciso conhecer sua importância para a evolução humana, seu funcionamento e conseqüências, e não simplesmente pensar em evitá-lo.

Doutrinas moralistas falam sobre a extinção dos conflitos, principalmente as religiosas. Um modelo de crenças, pensamentos e atitudes é oferecido ao seguidor com a promessa de ser o caminho para a extinção dos conflitos. O compromisso com estes valores deve ser assumido com paixão e fidelidade para a obtenção de um possível sucesso. As razões para o compromisso assumido não são racionais, mas demagogia que ilude o indivíduo ao ir de encontro com seus sonhos e desejos, ainda que irrealizáveis. Um recurso bastante utilizado é o testemunho alheio de outros adeptos que afirmam estarem livres de conflitos, incentivando novas adesões.

Compreender a impossibilidade da eliminação completa dos conflitos humanos, assim como os benefícios proporcionados à nossa evolução, é essencial. Tentar expulsar as tensões de nosso cerne é abdicar da beleza que só os contrários proporcionam, é apagar a possibilidade de conhecer outras experiências existentes. Esta tensão humana é a principal força que move a racionalidade para o conhecimento, principais características diferenciadoras dos homens em relação a outros animais. O embate de idéias e pensamentos, por exemplo, aumenta nossa capacidade de ver um mesmo assunto por outros ângulos e, quanto maior o conhecimento, maior a compreensão a respeito. Não menos importante, quanto maior a compreensão sobre um tema, mais livres ficamos de preconceitos e pré-julgamentos, mais autonomia sobre nosso ser possuímos e assim por diante.

Ao tentar eliminar os conflitos de nossa vida, apenas transferimos esta relação de forças para o inconsciente, ou seja, temos a consciência furtada, pensando ter tido êxito em nossos esforços. Cedo ou tarde estes conflitos se manifestarão de diferentes formas, já que não foram compreendidos ou superados realmente. Longe de nossas vistas, distante da esfera da consciência, o conflito pode ainda ganhar mais forças e operar em nossas vidas de modo mais determinante. O ideal de harmonia e felicidade eterna só traz frustrações.

A catarse de um conflito poderia ser atingida através da dramatização da tragédia, como escreveu Aristóteles, sendo sentida por seus espectadores? Ou a catarse só se faz possível através de um método psicanalítico que traz à tona nossos conflitos inconscientes, como descobriu Freud? Seja por Aristóteles, Freud ou qualquer outro autor, creio que algo é certo: a compreensão e a consciência de um conflito é essencial para seu enfrentamento. Sem conhecimento, não há como saber qual é o mal que lhe acomete e menos ainda como enfrentá-lo. E como disse Ziraldo, leiam, leiam e leiam, pois todo o conhecimento do mundo está escrito.

(Título original: "Como minimizar os conflitos, já que são inseparáveis da condição humana?" Artigo escrito por M.A.D. Imagem: "O Grito", de Edward Munch)

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