21/12/2009

Como tratamos a pobreza?


Se as contas não estiverem erradas, foram 14 incêndios em favelas paulistanas em 2009*. Tragédias recorrentes na maior cidade do país, entre as maiores do mundo, não merecem mais que notificações, como um boletim de ocorrência. A capital de São Paulo, conhecida por manter fechado um terço de seus imóveis para valorização, por expulsar catadores de papel de seu local de trabalho, parece aceitar os incêndios sem maiores questionamentos.

Imobiliárias e donos de imóveis usam a tática de manter cerca de um terço dos imóveis fechados para valorizar o produto no mercado. Construtoras e alguns políticos expulsam catadores de papel e lixo reciclável de seu local de trabalho, para construir modernos condomínios. Todos os incêndios ocorridos em favelas paulistanas são noticiadas como simples acidente. "Pobre não tem sorte", devem comentar paulistas, paulistanos e brasileiros em geral. Nada mais.

O primeiro incêndio noticiado em 11/01/2009 pela Folha de São Paulo não precisou mais do que 69 palavras para tratar o assunto. Outro, mais recente, noticiado em 19/12/2009 pelo mesmo jornal, já foi mais 'profundo' e usou 101 palavras para informar o caro leitor. A maior cidade do país sempre teve soluções 'exemplares' para tratar os mais pobres, as minorias. As rampas antimendigos são exemplo disso, obra de José Serra quando era prefeito. Os gotejadores instalados em prédios paulistanos foi outra medida social (?).

Serra e Kassab fazem uma administração pífia em São Paulo. O Rio de Janeiro não é tão diferente quanto se queira imaginar. Neste ano de 2009 passei, a pé, quase diariamente na estação de trens do Méier. Embaixo da escada de saída da estação, ao lado do Hospital Salgado Filho, dormiam algumas pessoas. Ironia do destino ou não, a poucos palmos de distância de onde deitavam suas cabeças no chão duro há uma pichação: "que país é este". Dias atrás, alguém teve uma brilhante idéia e cimentou pedras grandes de paralelepípedos no local, para impossibilitar os moradores de continuarem ali.

Incendiando favelas paulistanas ou petrificando locais cariocas, essas tristes ocorrências apontam numa mesma direção: nossa incapacidade de se importar com problemas sociais. A pobreza, a miséria, a fome, homens e crianças sujas, tudo se resolve expulsando para onde nossos olhos não alcancem, para onde a realidade não possa nos incomodar, para onde nosso individualismo não seja afetado em plena semana de Natal. Os incêndios em favelas paulistanas continuarão com cem palavras e nada mais. No Rio de Janeiro o Estado só entra em favela para 'pacificar': se for da zona sul, pacifica com a UPP, e se for no restante da cidade, pacifica com o 'descanse em paz'.


*Dados do blog do Eduardo Guimarães.

2 comentários:

  1. Caramba, este texto devia ter uma propagação master!
    Parabéns pelo artigo!
    Fiquei assustada com a medida que o Mr. Burns tomou para tirar os moradores da Paulista. Chique, não?!
    O problema foi resolvido! :(((
    Ai, ai...pare o mundo que eu quero descer.

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  2. e o pior é que Mr Burns pode ser presidente....

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