16/12/2009

O Brasil é uma substância


Entorpecente: assim é o atributo, a substância Brasil. Popularmente, entorpecente é entendido como drogas em geral, ou seja, dizer que o país é uma substância entorpecente é apenas um modo mais culto de falar que o Brasil é uma droga e vicia. Tudo é paradoxal em terras tupiniquins. São elementos contraditórios que convivem juntos, fazendo desta nação uma droga que enlouquece, aliena e mata (de esperança) seus cidadãos.

Os mais sábios também são acometidos pela loucura brasileira, mas quando podem, saem do país para respirar ares de civilidade e sanidade. É preciso conhecer a humanidade fora do Brasil. Os que não podem viajar, escrevem textos como eu, na tentativa de se livrar do mal, de fazer uma catarse tupiniquim.


São muitos os pensamentos que me levam para essa conclusão, do Brasil ser uma substância. São longas reflexões em noites mal dormidas, em dias abafados de muitas contradições. Vejamos alguns exemplos. Depois de mais de 50 anos de vida pública, a mídia tupiniquim descobriu um senador bigodudo. Choveram artigos e notícias de corrupção que muito atrapalharam a vida política do país e em nada resultaram (você já viu esse filme?). Mas o interessante é que as verdadeiras denúncias, que ainda podem ser feitas, simplesmente não vêm ao conhecimento público. Não li, em nenhum jornal, nada sobre a grilagem promovida em terras quilombolas no centro-oeste brasileiro. Proteger terras desta natureza não interessa para a grande mídia da elite tupiniquim?


Outro exemplo: neste exato momento acontece a CONFECOM, a 1ª Conferência Nacional de Comunicação (antes tarde do que nunca). Escrevi muito sobre esta conferência durante o ano de 2009, mas nesta semana, ainda nada publiquei. Por quê? O motivo é simples: minha avaliação sobre o evento é de que vai resultar em nada ou muito pouco. Por quê? Embora nosso país tenha leis atrasadas sobre comunicação, se elas fossem fiscalizadas e colocadas em prática, nosso cenário midiático seria muito diferente. Na verdade, seria muito bom. 


Pra quê queremos novas leis de regulamentação que, na prática, não regulamentarão nada? Vamos tornar os canais comunitários realmente comunitários ou eles continuarão restritos a TV por assinatura? Vamos punir os políticos que têm muitas concessões públicas e não deveriam ter? Vamos proibir o arrendamento das concessões públicas para igrejas de todos os tipos, conforme já é previsto na lei brasileira? Vamos regulamentar o atual oligopólio midiático brasileiro? Se não, pra quê ter esperanças, mais uma vez?


Qualquer pessoa que tenha estudado um pouco das leis brasileiras, como eu próprio já fiz, saberá que temos belíssimas leis que se fossem colocadas em prática, fiscalizadas e denunciadas quando burladas, teríamos um país de primeiro mundo. Mas esse é o problema, a prática em si, a lei de Gerson, o jeitinho brasileiro como valores nacionais de um povo ufanista, arraigado numa cultura preguiçosa, preconceituosa, machista, extrativista e burra, na maioria das vezes.


Outra coisa engraçada e triste: o nepotismo e o apadrinhamento. O nepotismo brasileiro é tão grande que geneticistas já devem ter pensado em estudar se o sucesso é mesmo um fator sanguíneo, genético. A mídia e o povo sempre reclamam do favorecimento de parentes em cargos públicos e do poder da indicação no Brasil, mas mudam de discurso quando se tornam sujeitos dessa história. Nas mídias globais, todos que aparecem na tela ou foram apadrinhados ou são filhos, sobrinhos, netos de outro alguém. Competência, mérito? Desconhecemos essas palavras. Só criticamos o nepotismo por inveja, porque também queríamos morder nossa cota.


Prova disso é a famigerada busca por concursos públicos, inclusive por formados em boas universidades, classe média e alta, concorrendo a vagas, muitas vezes, inferiores ao seu diploma. Essa é uma vocação nacional: encostar os burros na sombra do Estado. Basicamente, você tem três chances de se dar bem nesse país: ser filho de alguém importante (nepotismo), ganhar a simpatia de alguém importante (apadrinhamento) ou passar em algum concurso público. Fora desse círculo, você ainda pode ter sucesso sendo ruralista político ou médico político. E só.


A web 2.0 é comemorada mundo afora como elemento de mudanças sociais, de acesso informativo e inédito dialogismo midiático. No Brasil, 65% da população não usa a internet porque não gosta, não quer ou não acha necessário (dados do IBGE). Então pergunto, qual porcentagem do povo sabe que está acontecendo a CONFECOM? Quantos brasileiros sabem que as televisões e rádios são concessões públicas e, portanto, nossas também? Dos 35% da população que acessa a internet, quantos buscam essas notícias, além de fotos de famosos, fofocas, vídeos engraçados do Youtube ou sei lá o quê?


Um país tão rico como o nosso ainda tem enormes diferenças sociais, ainda que estas diferenças tenham diminuído nos últimos sete anos. Temos mais shopping centers que bibliotecas e possuímos salas de cinema em apenas 8% dos municípios. Cada brasileiro lê cerca de um livro, ou menos, por ano. Não temos a cultura de valorizar professores e a educação, mas sonhamos com o país do futuro, de ótimos índices econômicos, sem infraestrutura, sem sustentação crível.


Se nosso país fosse realmente capitalista e devoto da meritocracia, teríamos um cenário brasileiro muito melhor. Mas nem disso somos capazes, pois ainda somos amantes do nepotismo, do apadrinhamento, da lei de Gerson e das tetas do Estado. Falamos tanto de violência, por exemplo, mas será que realmente gostaríamos de um país menos violento? Será que gostaríamos de uma polícia eficiente que multasse os carros nas calçadas cariocas? Será que deixaríamos de dirigir bêbados por uma polícia menos corrupta? Perderíamos o título de ser um dos maiores fabricantes de armas de pequeno porte do mundo para contribuir com a paz?


As Olimpíadas no Rio em 2016 também tem algo a nos dizer, pois a decisão só foi tomada, caso não saibam, por nossa violência não ser ideológica, nem política, nem social, nem nada. Nossa violência é burra, como a maior parte do país, e isso foi decisivo para trazer os jogos para cá, caso contrário, não teríamos assaltantes roubando ônibus lotados de trabalhadores, tão miseráveis quanto os ladrões, nem teríamos uma violência gratuita, incapaz de articular qualquer melhoria social. E não “faremos feio” com os estrangeiros, pois a polícia receberá ordens de não atirar durante a Copa e as Olimpíadas, afinal, polícia brasileira só mata cidadão brasileiro. Somos patriotas.


Falando em esportes, na Argentina se está democratizando até mesmo a exibição de futebol na televisão. No Brasil, as emissoras públicas são proibidas de transmitir. No Congresso está em tramitação o PL 29, que discute as cotas de programação nacional em TVs por assinatura, embora deveria ser o contrário, mas não é. Estamos no Brasil implorando pela exibição de conteúdo brasileiro, entendeu? Chega a ser tão engraçado quanto à proclamação da independência tupiniquim, feita por ninguém menos que o filho do rei de Portugal.


Por tudo isso e mais é que digo: o Brasil é uma substância que entorpece e vicia. Eu, na condição de brasileiro e viciado nesse país, gostaria muito de não amar esta nação e não alimentar esperanças de um futuro promissor, porque isso consome, lentamente, nossas capacidades físicas e mentais. Mas este é o paradoxo, vejo-me morrer de esperanças como tantos outros brasileiros já o fizeram e, ainda assim, continuo acreditando na vida tupiniquim, como um Darcy Ribeiro do século XXI. Não tem lógica nenhuma: é Brasil.


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