21/12/2009

O pão de João

João é um menino endiabrado, mas tem bom coração. Sobe em cadeiras, senta nas mesas, é um tanto atrapalhado, derruba sopa na camisa, canta, grita, pula e corre, mas é emotivo. Suas emoções atravessam seus grandes olhos negros e ativos. Sua pele, cor de chocolate negro, parece uma pintura de Renoir.


O pai de João paga imposto de renda, tem um carro novo mas não é rico não. Trabalho duro e ganha menos que outras pessoas na mesma função. Nunca saiu do estado onde nasceu, viaja pouco mas é dedicado. Bonito como toda sua família, facilmente encantou a mãe de João, uma loira deslumbrante e educada, criada na zona sul do Rio de Janeiro. Essa sim, poderia estar rica, mas abdicou de tudo por amor.

Dia desses, João estava vendo o televisor, quando uma reportagem mostrou as pessoas que sobrevivem catando restos de comida no lixão da cidade. O menino ficou triste, meio perdido, sentindo que o mundo não compartilhava da alegria presente em sua casa. A velhinha recolhendo algumas frutas em decomposição, acompanhada de duas netas que pegavam restos de peixes que nem pareciam peixes, arrancou uma pequena lágrima do garoto. Que mundo triste.

No mesmo instante João teve uma brilhante idéia. Correu para a cozinha, pegou um pão francês, dividiu ao meio, colocou fatias de queijo e mortadela. Logo depois, embrulhou o pãozinho num plástico, que ele mesmo lacrou com fita adesiva. Olhou para o lanche, todo feliz, e jogou-o no lixo, sem pestanejar. Imaginou a velhinha e suas duas netinhas encontrando o pãozinho e comendo algo limpinho. Ficou orgulhoso de si, desligou o televisor e foi brincar. Afinal de contas, era a semana do Natal e João também quis presentear. 


(Continho escrito por M.A.D.)

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