26/01/2010

As tintas para tatuagem - Parte 2

Continuando o assunto abordado na postagem As tintas para tatuagem, um comentário do leitor identificado como Leonardo Delpino (www.vts.art.br), deixou um texto bastante esclarecedor, o qual reproduzo abaixo:


Hoje a tatuagem antes de ser encarada como uma questão estética deve ser observada como uma questão de Saúde Pública, tendo em vista o grande aumento da Hepatite C em todas as camadas da população sendo que os procedimentos em Tatuagem, Body Piercing, Podologia e Estética em geral, são vetores da disseminação desta grave doença e demais transmissíveis pelo Sangue.

Ocorre que no Brasil o comércio de materiais sempre foi feito de forma desregrada, o que deu margem para a exploração de produtos sem procedência controlada. Devido a dificuldade ou desconhecimento de alguns ditos “fabricantes de tintas para tatuagem” em conseguirem pigmentos adequados, chegaram a empregar matérias primas para a indústria diversa como fabricação de sabão, tintas PVA, corantes para cimento entre outros, sendo que estes pigmentos  são totalmente indevidos para uso em cosméticos, ainda mais para a aplicação sub cutânea. Um destes fabricantes chegava a utilizar uma máquina de lavar de sua mãe para bater suas tintas, o que nos faz pensar sobre os riscos inerentes de seu uso. Salvo alguns profissionais responsáveis, que associados a grupos internacionais, que faziam a importação dos pigmentos considerados seguros, e de ampla utilização principalmente nos Estados Unidos onde a prática da tatuagem é mais disseminada, o mercado consumidor sempre esteve a mercê de fornecedores muitas vezes inescrupulosos.


Felizmente, a ANVISA, através da Consulta Pública nº 79, de 20 de novembro de 2006, abriu a discussão sobre o tema e em agosto de 2008, a Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, através da RDC Nº 55, - 6/8/2008, regulamentou o comércio e fabricação de insumos para a área de Dermopigmentação que abrange a tatuagem estética e reparadora, exigido adequação técnica como produtos de saúde.

Hoje já contamos com fabricantes sérios que adequaram suas indústrias às normas exigidas e estão trabalhando neste momento para a correta análise de seus produtos tanto em nível de pigmentos como de seus diluentes, colocando o Brasil como um dos únicos países no mundo a regulamentar em nível governamental a prática da tatuagem.

Sobre a segurança da prática é importante salientar que independente do uso de tintas de qualidade, seu armazenamento e fração para o uso devem ser muito bem observados, sendo o ideal que as tintas para tatuagem, além de serem reguladas, também fossem comercializadas em dose única, evitando desta forma a contaminação cruzada, pois os tubos compartilhados, se não forem muito bem manipulados podem se tornar incubadores de patógenos.

Outra questão vital para a boa prática seria a adoção obrigatória de instrumentos não somente estéreis, mas descartáveis. Temos no Brasil o belo exemplo do primeiro bico descartável patenteado e produzido no mundo (Descarttoo), criado pelo Ex. Diretor do Hospital das Clínicas de São Paulo, Marco Reple Gaia, um odontólogo renomado que se preocupou com a questão e bancou o desenvolvimento dos instrumentos, acreditando erradicar nos estúdios, as complicações decorrentes da má esterilização, manipulação indevida e contaminação cruzada do ambiente e profissionais que fazem a limpeza dos bicos reutilizáveis.

Portanto, a problemática da tatuagem vai muito além das tintas, que na verdade, em pesquisas recentes tem mostrado que os pigmentos mais seguros são justamente os sintéticos de base plástica, sendo que o único pigmento para tatuagem aprovado pelo FDA, equivalente da Anvisa brasileira nos Estados Unidos, é justamente uma tinta encapsulada em polímero, além de que os pigmentos à base de óxidos de ferro são os tidos como seguros para maquiagem definitiva por terem melhor compatibilidade orgânica. Independente da segurança de um determinado pigmento, nunca haverá realmente uma tinta 100% segura, pois reações alérgicas sempre podem ocorrer a curto ou longo prazo quando se insere no organismo um corpo estranho, sendo que a tolerância a determinada substância varia de indivíduo para indivíduo.

Como no Brasil, infelizmente o problema maior é a falta de cultura, a ampla adoção dos bicos descartáveis pelos profissionais da área ainda não existe, mas esperamos que a própria Sociedade, saiba e aprenda a entender os riscos dos quais vão se submeter num gabinete de tatuagem, exigindo assim, sua própria segurança.

Através de campanhas de conscientização e melhor preparo dos profissionais, teremos num futuro breve a arte da tatuagem brasileira reconhecida não somente pela beleza do trabalho nacional que já é referência mundial, mas como o país que trouxe a segurança para a área.

Atenciosamente,
Leonardo Delpino, criador do primeiro curso por EAD de tatuagem em língua portuguesa. www.vts.art.br

3 comentários:

  1. tintas comercializadas em dose única,
    biqueiras descartáveis para poluir o meio ambiente. Não e mais fácil fazer a esterilização de forma correta e não contaminar os tubos de tinta com luvas sujas, como fazem no hospital! acho que o pais esta preocupado apenas com tirar dinheiro de uma categoria.

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    1. Saudações!

      Rafa, vamos partir do princípio de que nenhum médico ou dentista ou qualquer que seja a atividade profissional fica metendo o pau nos fabricantes e outros profissionais,até mesmo pela ética, que falta em nosso meio.
      Vejo tatuadores detonando os outros dizendo que seu equipamento é melhor....sinceramente para o cliente em geral e potencial o equipamento e higiene importam, mas o que importa mais, por ser uma atividade extremamente artistica é a arte do profissional, é o talento que pouquissimos tem....material com gato desenhado no rótulo também tenho, qualquer um, independente de ser tatuador ou não pode comprar...quero ver fazer tattoo....

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  2. Saudações!

    Não consigo entender tanto preconceito contra os grupos de trabalhadores que não possuem um Conselho Federal para defesa prévia e informações tão absurdas. Qual estudo aponta a tatuagem como principal foco de contaminação da Hepatite B e C?
    O que tenho em mãos são pesquisas feitas pelo respeitadíssimo Hospital Emílio Ribas que aponta exatamente o contrário.
    Gostaria que tais matérias fossem menos preconceituosas, pois acredito que a real intenção das mesmas é informar a população sobre riscos verdadeiros de contaminações.

    Segue trechos de um estudo realmente sério do Emílio Ribas:

    Dos 17.204 casos confirmados,
    a principal via de contaminação foi a
    parenteral (uso de drogas ilícitas por
    via venosa e transfusões de sangue
    e hemoderivados), seguidas da
    transmissão sexual. Os acidentes de
    trabalho contribuíram com poucos
    casos (gráfico 3).
    Fica evidente no gráfico 3 que
    40% dos casos notificados e confirmados
    têm via de transmissão desconhecida.
    Esse dado sugere que a investigação da via de transmissão
    deve ser aperfeiçoada e devem ser
    incluídos na investigação epidemiológica
    itens como administração de
    medicação por seringas não descartáveis,
    acupuntura, tatuagens e
    “piercings”. Outro dado que difere
    do habitual é a transmissão sexual
    em 10%, bem acima do esperado,
    que seria menos de 1%.

    Outro aspecto a ser considerado
    é a ocorrência de hepatite C em
    grupos de risco diferenciado, ou
    seja, aqueles não habituais, como
    os descritos no gráfico 3. O primeiro
    grupo seria das manicures, pois
    supõe-se que o uso de instrumental
    comunitário por essas profissionais
    as tornaria mais expostas ao risco
    de contaminação. Não há evidência
    de que isso possa ocorrer e recente
    inquérito sorológico conduzido na
    cidade de São Paulo em salões de
    beleza localizados em shopping
    centers e em bairros diversos não
    demonstrou taxas de prevalência diferentes
    da população geral (Oliveira,
    ACDS - comunicação pessoal).
    Outro grupo são os dentistas.
    No Brasil, inquéritos sorológicos localizados
    e com casuística pequena mostraram que a prevalência é baixa,
    variando de 0,4 a 0,7%. Entretanto,
    um estudo que apurou o grau de
    conhecimento desses profissionais
    acerca da doença mostrou que
    este é muito baixo, evidenciando a
    necessidade de maior ênfase no treinamento
    e na educação continuada,
    visando torná-los capazes de,
    além de proteger adequadamente,
    também prevenir a transmissão aos
    pacientes e quiçá ajudarem no diagnóstico,
    uma vez que diversas manifestações
    extra-hepáticas aparecem
    na cavidade bucal, como líquen
    plano oral, eritema nodoso, etc.

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