28/01/2010

Morre J.D. Salinger, autor de 'Apanhador no Campo de Centeio'


J.D. Salinger, autor do famoso livro O Apanhador no Campo de Centeio, morreu aos 91 anos de causas naturais em New Hampshire, nos Estados Unidos. De acordo com a AP, a morte do escritor foi anunciada por seu filho em um comunicado nesta quinta-feira (28), mas nenhuma data foi divulgada.
O "Apanhador", seu livro mais famoso, foi lançado em 1951 e narra as aventuras do jovem Holden Caulfield durante sua adolescência. Em seus últimos anos de vida, Salinger optou viver recluso em sua casa em Cornish, New Hampshire, e se recusar a dar entrevistas. - publicado no Terra.

Abaixo, coloco um belíssimo texto sobre o escritor, publicado originalmente em 2009:


O simpático e algo assustador ancião aí de cima é o escritor norte-americano Jerome David Salinger, flagrado de surpresa em uma de suas poucas fotos conhecidas — e a única tornada pública nos últimos 30 anos. J.D. Salinger completou agora neste início de 2009 (no dia 1º, especificamente), provectos 90 anos de idade, mas não tente mandar um cartão ou bater na porta para dar os parabéns que você pode ser enxotado com essa mesma expressão de ira com que ele está confrontando o fotógrafo.
Salinger ainda mantém intocável o folclore que cerca sua pessoa há mais de 40 anos. Escritor que foi unanimente saudado pela crítica desde sua estréia, em 1944 — Hemingway glorificou seu talento quando o sujeito recém havia publicado seu primeiro conto — Salinger praticamente inventou a adolescência moderna na literatura com seu onipresente O Apanhador no Campo de Centeio, de 1951. Como escreveu o jornal inglês Telegraph, numa bem-humorada relação dos livros mais cultuados da literatura, publicada no ano passado:
O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger (1951)
O texto sagrado sobre alienação adolescente, amado por assassinos, emos, e todos os que estiverem entre uma categoria e outra, incluindo aí Gordon Brown. O complicado adolescente Holden Caulfield à solta na Cidade Grande, reclamando de sua família e ficando bêbado. Você provavelmente já o leu, seja honesto.

Caulfield até hoje é um personagem que se conecta com o vazio e a angústia adolescentes, e O Apanhador... ainda é o livro mais conhecido de Salinger, cultuado como um mestre pela profundidade com que trabalha seus personagens. Depois de O Apanhador, seu único romance, Salinger publicou a coletânea de contos Nove Histórias (1953), Franny & Zooey (1961) e Para cima com a viga, Moçada, e Seymour, uma Introdução (1963), na tradução da Brasiliense que ainda se acha em sebos, ou Carpinteiros, levantem bem alto a Cumeeira, e Seymour, uma apresentação, na tradução nova da L&PM. Os outros l ivros têm edição recente pela Editora do Autor, numa caixa especial.
Depois desse último volume, que reúne duas novelas, Salinger não publicou mais nada, e recolheu-se a um silêncio eloquente, trancado em uma casa no topo de uma montanha no povoado de Cornish, em New Hampshire, nos Estados Unidos, cercado de altas muralhas. Não recebe visitas, não dá entrevistas, preserva-se de fotos (como vocês podem ver na reação do homem à imagem), não permite que seus livros sejam adaptados para o cinema e não publicou mais uma linha — embora relatos de terceiros, entre eles sua filha e a ex-namorada Joyce Mainard, jornalista e escritora, garantam que ele continua escrevendo.
Joyce merece uma menção um pouco mais a longa, a propósito. Em 1971, ela publicou, aos 18 anos, um ensaio literário na New Yorker no qual relembrava a experiência de ser uma pré-adolescente nos feéricos anos 1960. Salinger foi uma das centenas de pessoas que escreveu cartas comentando o artigo. Ela nunca havia lido nenhum livro dele (então com 53), mas na troca frenética de cartas que se seguiu ambos se descobriram apaixonados pela mente um do outro. Ela foi morar com ele e viveu nove meses na casa da colina — até ser expulsa aos pontápés da vida do sujeito. Nos anos 1990, Mainard lançou um livro no qual contava sua vida e devassava a intimidade de sua relação com Salinger. Como escreveu o escritor e jornalista Lourenço Cazarré para a Zero Hora em 1999, numa resenha do livro Abandonada no Campo de Centeio (a tradução tenebrosa que a Geração Editorial resolveu aplicar para o original At Home in the World: "Em casa no Mundo"):
O escritor J.D. Salinger passa correndo pelo livro Abandonada no Campo de Centeio, de Joyce Maynard. Entra na página 89 e sai na 222. Pouco para uma obra de 350 páginas. Isso certamente vai deixar um pouco frustrado o leitor brasileiro. O que se tem na maior parte do livro é a vida - bastante atribulada, é verdade, mas nada impressionante - de Joyce Maynard, a jovem que, aos 18 anos, viveu por quase um ano com Jerry Salinger, que estava na época com 53 anos.
A meteórica passagem de Salinger, é claro, frustra o sujeito que comprou o livro para saber um pouco sobre a vida desse grande ermitão, que morreu para o mundo em 1965, depois de ter publicado apenas cinco livros, entre eles
O Apanhador no Campo de Centeio, seguramente um clássico entre os livros sobre a adolescência.
Mas a imagem que se tem de Salinger depois da leitura dessas cento e poucas páginas é demolidora. Segundo a descrição de Joyce Maynard, o escritor é um maluco que tem uma preocupação histérica com alimentação, um fervor religioso pela medicina homeopática e um supremo desprezo por tudo o que não seja J.D. Salinger, ele próprio.
Nas quatro páginas finais, Salinger reaparece. Depois de 15 anos de afastamento, Joyce volta a visitá-lo. Está triste porque soube, pelo vizinho, que ele teve outras mulheres. Na verdade, várias.
Na varanda da casa do escritor, em Cornish, New Hampshire, os dois têm então uma tensa conversa. O Salinger que sobressai desse diálogo - um dos pontos altos do livro - não é apenas um mentecapto. É um mentecapto grosseiro e raivoso que odeia tudo e todos. 


fonte: blog do Carlos André Moreira, editor de livros de Zero Hora, repórter responsável pela área de livros do Segundo Caderno.

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