22/01/2010

Se beber cauim, não dirija.

Trechos escritos por Rogério Cezar de Cerqueira Leite* e publicados na Folha de São Paulo sobre a cerveja brasileira:


"Quando Brahma e Antarctica se fundiram, contrariando a legislação que impede a formação de monopólios privados no país, argumentaram que só assim poderiam concorrer no mercado globalizado, `mas depois foram gostosamente absorvidas por uma multinacional do ramo, certamente uma forma sutil de realizar a concorrência prometida. E não foi tomada nenhuma providência´.

O Brasil produz entre 200 mil e 250 mil toneladas de cevada por ano, das quais entre 60% e 80% são aproveitados pela indústria cervejeira. Essa produção tem sido suplementada por importação de quantidade equivalente. Essa indústria consome cerca de 400 mil toneladas de cevada. O índice de conversão entre a cevada e o álcool é, em média, de 220 litros por tonelada. As cervejas brasileiras têm teor de álcool de 5%. Assim, seriam necessárias pelo menos 2,4 milhões de toneladas de cevada por ano.

Feitos os cálculos, o álcool proveniente da cevada na cerveja brasileira representa cerca de 15% do total. E de onde vem o restante? Do milho. E o índice de conversão de grão em álcool para o milho é 80% maior que para a cevada. Resumindo, o milho responde por quase três quartos da matéria-prima da cerveja brasileira, `revelando sua vocação para homogeneização e crescente vulgaridade´.

Tudo bem, não fosse um detalhe: `Segundo norma autorregulatória da indústria cervejeira alemã, a cerveja é composta única e exclusivamente por apenas três elementos, cevada, lúpulo e água, tendo como interveniente um fermento. Tradicionalmente, o termo malte designa única e precisamente a cevada germinada´."

"Outro determinante da baixa qualidade da cerveja brasileira é a adição de aditivos químicos para a conservação. O mal não está só nessa condição, mas na sua necessidade. O lúpulo em cervejas de qualidade, sejam lagers, sejam ales, é o componente responsável pela conservação – além, obviamente, de suas qualidades de paladar. Depreende-se daí que os concentrados de lúpulo usados na cerveja brasileira são de baixa qualidade. O que é inexplicável e de lamentar, entretanto, é que as autoridades brasileiras, tão zelosas para com alimentos corriqueiros, sejam tão omissas quando se trata da bebida nacional mais popular e de maior consumo e permitam que o cidadão brasileiro beba gato por lebre."

*Cerqueira Leite é professor emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), presidente do Conselho de Administração da ABTLuS (Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron) e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo.

(Com informações do artigo escrito por José de Souza Castro e publicado no Observatório da Imprensa).

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