25/02/2010

A devassa do pensamento

ou
A notícia da devassa
ou
O pensamento sobre a notícia
Enfim...
Notícia: o Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) abriu três processos contra a Devassa (a cerveja), criada pela Mood para a Schincariol. Um deles foi apresentado por um consumidor reclamando da abordagem sensual da publicidade com Paris Hilton.
O segundo é do próprio Conar, pois a promoção de bebidas alcoólicas não pode representar estímulo ao consumo excessivo. O terceiro processo foi solicitado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, órgão federal, dizendo que o sítio da Devassa tem conteúdo sexista e desrespeitoso à mulher. Após a comunicação oficial da abertura do processo, haverá prazo de 10 dias para apresentação de defesa.
(Fonte da notícia: m&m online)

Pensamento: salvo engano, a campanha da Devassa começou no dia 07 de fevereiro. Hoje é dia 25 do mesmo mês. Todos já viram a campanha e conhecem seu conteúdo. Imagino eu que, se tudo der certo para quem abriu o processo, dentro de uns 15 dias pode-se ter alguma decisão. Se esse processo contra a campanha seguir a mesma linha de tantos outros, o máximo que pode acontecer é a campanha ser retirada do ar, depois de um mês em circulação. Dificilmente, uma mesma campanha publicitária fica no ar durante meses e meses.
Na prática, significa dizer que o mercado (Conar) regula o mercado (Agências) e não precisamos ser gênios para saber que o mercado nunca prejudicará o mercado. O Conar é um Conselho de Autorregulamentação, ou seja, agências de publicidade regulamentando o que agências de publicidade podem fazer. Na maioria das vezes, o Conar se antecipa às iniciativas da sociedade de tentar alterar as leis. Então, o Conar se reúne e lança medidas autorregulatórias. Como escreveu Didymo Borges no Observatório da Imprensa em 2003, no artigo Conar propõe medidas pífias:
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"Antecipando-se aos resultados de diversos projetos em tramitação no Congresso Nacional, bem como às anunciadas normas do governo para regulamentar a propaganda de bebidas alcoólicas, o Conar anunciou uma série de medidas regulatórias que supostamente substituiriam a legislação da propaganda destes produtos, ou seja, de cervejas, vinhos e destilados."
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Como prova de que as medidas do Conar são mesmo pífias, segue trecho de reportagem publicada na Folha de São Paulo em 2007, escrita por Fabiane Leite sob título Cervejarias descumprem veto ao erotismo:
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"Três anos após se comprometerem a não recorrer ao apelo sexual em anúncios de bebidas alcoólicas, as cervejarias voltaram a abusar de cenas com conotação erótica nas campanhas publicitárias deste verão. [...] Em um dos comerciais, Juliana ameaça ‘botar para fora’ os clientes que batem os pés para ver os seios dela balançar- eles respondem ‘bota, bota’, em referência aos seios. Já a atriz Karina Bacchi e a apresentadora Adriane Galisteu viraram ‘namoradas’ do ‘baixinho’ da Kaiser, da fábrica mexicana Femsa. Em um dos filmes, garotas tiram as roupas umas das outras em uma disputa pelo garoto-propaganda até ficarem de biquíni. A cerveja Cintra, do grupo português homônimo, é mais explícita. Lançou há uma semana comercial em que a modelo Dani Lopes, ao abaixar para pegar uma cerveja, expõe a tatuagem ‘tô dentro’ na altura do cóccix. Há marcas ainda que têm distribuído gibis eróticos."
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Em outra matéria do mesmo jornal, um gerente da Ambev tenta explicar:
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" 'Boa é a cerveja e ela [Juliana Paes, estrela da propaganda], a dona do bar. Não há relação entre êxito com as mulheres e tomar cerveja’, afirma o gerente de comunicação da Ambev, Alexandre Loures, sobre o comercial da Antarctica. "
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Particularmente, diria que BOA foi a explicação do gerente. Sem que seja lógica ou verdadeira. Para encerrar esse texto, sem mais delongas, coloco uma citação:
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"Mercador e pirata foram por um longo período a mesma coisa. Mesmo hoje a moralidade mercantil é apenas um refinamento da moralidade corsária." - Friedrich Wilhelm Nietzsche

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