25/02/2010

Ensaio sobre as drogas

As drogas constituem um farto mercado financeiro no mundo. O tráfico possui uma organização semelhante a de empresas, com plantio, produção, refinamento, embalagem, comercialização, lucro, investimento. Nessa estrutura empresarial, falta um importante elemento de sucesso mercadológico: a publicidade.
Seria possível imaginarmos uma empresa legalmente constituída que, sem publicidade, obtivesse tanto êxito na venda de um produto? Dificilmente não. Mas como fica o semelhante caso do tráfico de drogas, vendendo produtos ilegais, com semelhante estrutura empresarial, obtendo tanto sucesso sem publicidade? Quem faz a publicidade dos produtos entorpecentes?
Nesse momento é preciso definir o que são drogas: toda substância, natural ou sintética, que introduzida no organismo modifica suas funções. O álcool (cerveja , vinho), remédios para emagrecer, estimulantes, ansiolíticos, cigarro, café e assim por diante. Claro, sem esquecer da maconha, cocaína, crack, ecstasy e outros. Mas não pretendo me ater ao conceito de drogas e, dito isto, volto para a pergunta: quem faz publicidade das drogas?
Pensemos no São Paulo Fashion Week, por exemplo, com modelos muito magras e desfilando para as maiores marcas da moda. Uma garota um tanto gorda, que sonhe em fazer parte desse mundo de glamour e fama, envelhecendo a cada dia que passa e correndo o risco de não realizar seu sonho de ser modelo, facilmente pode escolher usar anorexígenos para adentrar nesse mundo.
O Brasil está entre os maiores consumidores de anorexígenos, remédios à base de anfetaminas para inibir o apetite, ou seja, remédios para emagrecer. Seu uso causa disforia, cefaléia, depressão, irritabilidade e assim por diante. Geralmente esses remédios trazem também um outro componente para reduzir a ansiedade, conhecido como fluoxetina. Tem tolerância, ou seja, são necessárias doses cada vez maiores para satisfação. Também têm efeitos de abstinência, caso seu uso seja interrompido bruscamente, efeitos idênticos aos de outras drogas, como cocaína ou crack, por exemplo.
A cerveja, por exemplo, além de ser uma droga (legalizada), possui campanhas publicitárias nas quais modelos lindas e magras exibem seus belos corpos. Essas publicidades estão presentes em televisões, revistas, cartazes, outdoor e assim por diante. As meninas, ainda em fase de formação, são expostas a essas publicidades e acabam entendendo que, socialmente, se desejam obter sucesso e fama, precisam ser semelhantes ao modelo exibido.
A anorexia infantil tem aumentado a cada ano que passa. Também não é raro encontrar adolescentes mais gordinhas que começam a fumar porque ouviram dizer que cigarro emagrece. Outras preferem os anorexígenos e o próprio uso de álcool na adolescência é enorme.
A publicidade de bebidas alcoólicas são felizes, festivas e descontraídas, e são bebidas vendidas com a permissão da lei. Os anorexígenos, com venda controlada, também são permitidos por lei, embora não seja difícil comprá-los de maneira ilegal. Logo, a consequência ou a busca direta pelo entorpecimento dos sentidos é permitido por lei, em muitos casos, difundido pela publicidade e, de modo geral, bem visto socialmente. Assim, quem faz publicidade das drogas?
Na Europa, entre 10 e 18% dos estudantes utilizam sedativos ou tranquilizantes sem receita médica. Na Alemanha, quase dois milhões de pessoas são dependentes de fármacos. No Brasil, cerca de 50 pessoas morrem por dia por complicações causadas por automedicação. O uso de drogas, legais ou não, é maior do que podemos imaginar.
Como a sociedade e a mídia fazem ampla publicidade do entorpecimento dos sentidos, de diferentes maneiras, direta ou indiretamente, não é necessário que o tráfico ilegal de drogas faça publicidade de seus produtos. O sucesso do mercado é garantido e o risco é a prisão ou a morte para seus empreendedores.
Dias atrás vi uma entrevista, na qual a proprietária de uma agência de modelos falava sobre anorexia, má alimentação e remédios para emagrecer. Quando perguntada se sua agência fazia algum tipo de controle sobre o uso dos remédios para emagrecer, ela simplesmente respondeu "não podemos invadir a vida pessoal de cada um". Quando perguntada sobre a necessidade do baixo peso para as modelos ela disse "isso é uma exigência de mercado, não minha", ou seja, cada um faz o que quiser, ninguém obriga ninguém a fazer nada. Quer discutir as exigências insalubres de mercado? Converse com ele, reclame com ele.
A mídia, que lucra muito com publicidade de bebidas e remédios, de vez em quando exibe alguma reportagem sobre drogas (álcool, crack, maconha, cocaína, ecstasy). A maioria dessas reportagens tem efeitos pífios ou nulos nos usuários ou pretendentes. Muitas baseiam-se no depoimento de ex-usuários e familiares e, infelizmente, não são tão atrativas e felizes como as publicidades. Não falam dos prazeres que a droga proporciona e o usuário, por sua vez, dá muita importância para isso, tanto que continua usando suas drogas. Assim, acabam sensibilizando apenas os pais ou ex-usuários, que convivem ou conviveram com esse problema.
Ainda se esquecem de exibir outros lados do tema, como por exemplo, um jornalista, conhecido meu, com mais de 60 anos de idade e usuário de maconha desde sua juventude. Sei que esses exemplos não são exatamente positivos, mas são reais, vivem entre nós e não devemos ignorar um fato: mais cedo ou mais tarde os jovens podem conhecê-los e convencê-los de que aquelas reportagens só falam besteiras, não são reais (ainda que sejam).
Esse tipo de história, não veiculada nas reportagens da mídia, acaba circulando pelo famoso boca-a-boca que, como todos sabem, é a melhor publicidade que existe. Contrapondo a mídia e esse tipo de boca-a-boca, quem terá mais força nas escolhas do jovem? Lembre-se: a mídia exibe publicidades lindas de remédios e álcool diariamente e raramente uma reportagem sobre drogas. Some isso ao famoso boca-a-boca dos remédios para emagrecer e ser reconhecido socialmente, aos remédios para ganhar músculos e ser reconhecido socialmente e diga: de modo geral, sociedade e mídia são contra ou a favor das drogas?
O paupérrimo jovem das periferias do Brasil também deseja ser reconhecido socialmente, mesmo não tendo o que comer, morando numa casa sem mínimas condições de conforto, sem saúde, roupas, educação, internet e mais. Claro que esse mesmo jovem tem muitas possibilidades para crescer na vida. Uma delas é superar sua sub-condição e estudar cerca de 14 ou 16 anos para obter um diploma e, quem sabe, ser alguém na vida. Ganhar na loteria também pode acontecer. Mas ele pode começar a trabalhar desde cedo, largando os estudos (como é comum), e passar a vida ganhando um salário baixo que não lhe dará o devido reconhecimento e ascensão social.
Outra possibilidade, bastante frequente, é trabalhar para o tráfico de drogas ilegais. Já vi jovem dizer algo como no tráfico ganho muito e tenho a possibilidade de morrer, fora dele, só fica a possibilidade de morrer. Ganhar dinheiro e ser rico é um gênero de vida que esses jovens conhecem nem tanto pelo contato direto, mas pela publicidade televisiva: novelas, comerciais, Big Brother e assim por diante. A morte é algo que ele conhece mais pelo contato direto e também pode ver reproduzida nas novelas, telejornais.
De modo geral, temos que repensar nossa abordagem e posição perante os discursos contra ou a favor das drogas. Devemos abandonar o tratamento mais leviano neste assunto. Termos de ser mais honestos e profundos ao abordar esse tema. Caso contrário, jovens continuarão morrendo no tráfico sonhando com uma vida melhor; jovens continuarão morrendo de anorexia sonhando com uma estética ideal; pessoas continuarão morrendo pelo uso de remédios legalizados e assim por diante. Tudo isso acontecendo enquanto reportagens pífias são exibidas pela TV.
Particularmente, já perdi quatro amigos muito próximos que abusaram de álcool e drogas. Ainda tenho alguns que possuem sequelas ou limitações pelo mesmo excesso, assim como outros que, aparentemente, após décadas, convivem bem com seus vícios. O tema é polêmico e tudo que pretendo é ampliar nossos horizontes, nossas formas de visão e tratamento sobre drogas.

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